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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

09
Jun20

4ª Temporada - O Tubarão (13)


Comandante Guélas

 

Tubarão.jpg

13

O Professor Coelho, docente oficial do Comandante Guélas, costumava dizer aos seus alunos que a Batalha do Chalé da Merda era equiparada à Batalha das Navas. Na primeira tinha sido derrotado o Califado Vermelho do Bill, no segundo o Califado Almóada. Paço de Arcos era berço de oradores prolíficos, a ciência dizia que os genes dos sofistas gregos tinham reaparecido nesta vila da Costa do Estoril após a conquista do Comandante Guélas. Numa manhã solarenta regressava o Pontas calmamente pela marginal, vindo da Baixa, na carrinha Nissan pick up FQ-22-20 quando, na zona de Alcântara, vê o Tubarão a pedir boleia ao pé da fábrica de açúcar. Travou a fundo, mas a moca impossibilitou-o de identificar o condutor. Até que:

- Fo fo fo fo foda-se, és tu Pontas? Paraste, já vinha para te fazer a carteira. Depois é que vi que eras tu.

- De onde vens Tubarão?

- Foda-se, não dormi nada, sempre a ressacar, fodi dinheiro a um gajo e vim ao casal comprar uma " quarta". Dois contos era o que tinha de arranjar. Mas preciso de mais para logo.

O Pontas sabia que para ter cultura geral, também tinha de questionar os filósofos:

-Uma quarta? O que é isso?

- É uma dose. Um quarto de grama de "brown".

- Brown?

- Sim. Brown sugar.

O jovem estudante sabia que os filósofos paçoarcoenses falavam torto com significados direitos, o Tubarão metia na veia açúcar mascavado.

- Deixei-o em casa. Ao lado do Palácio, - reforçou o mestre.

Por ser único, o Tubarão destacou-se no meio universitário, se lhe faltavam palavras nos discursos, utilizava sons. E um dia quando estava a contar um filme, mais especificamente a cena com um carro da polícia, foi traído pela emoção, encravou na palavra carro, e só conseguiu avançar quando imitou a sirene. 

- Ó Pontas! Os te te te te te teus pais sa sa sa são médicos na na na na não são?

- Sim!

- Então de de de de devem ter lá em cccc. ccc .. cc . casa bué de remédios... não?

- Têm os armários cheios.

- Se mmmmmm. mmmmm... me trouxeres todos os qq qqqq qqque que que o nome aca.. aca.. acabarem em" x", eu compro!

O Tubarão, tal como o Luther King, também tinha um sonho, um armazém recheado de medicamentos terminados em “x”.

- Me me me me... mandrax, te te tás a ver? Xa xa xa xá xá nax. Traz tudo acabado em X, que eu compro!

E também o Lexotan, o único acabado em “L”, que fazia sucesso no meio da academia dos assistentes do professor Alice. É justo dizer que o Tubarão foi uma espécie de Da Vinci paçoarcoense: dançarino, nos dias em que dizia ser o  Travolta de Paço de Arcos; precursor nas tatuagens, confidenciou um dia que até a pichota tinha desenhos; pescador, nos tempos livres da química ia à pesca com o seu amigo Balacó, e um dia até o surpreendeu equipado a rigor com jardineiras impermeáveis do pescoço aos pés. Caiu à água e ficou de cabeça para baixo, tipo bóia! O Pontas ia tão embevecido por tanta eloquência, que nem reparou no Porki, que tinha o dedo mindinho da mão direita torto, cabelo cheio de azeite e dentes amarelo-torrado, a atravessar a rua. Por pouco espalmava o noivo da sobrinha colorida do Sá Carneiro. Deixou o mestre Tubarão junto à mota do Rebelo sempre a trabalhar, durante horas, ao ralenti, enquanto ele bebia imperiais durante a tarde toda no Pombalino. E quando alguém se aproximava do bólide, de imperial na mão dizia: "esta máquina veio do México”. Mas a novidade do dia tinha sido o pedido de casamento do Bolinhas, junto à bola de Nívea, aos pais da Sapo.

- E o que é que tu fazes, ó rapaz? – Perguntou o futuro sogro.

- Nasci rico, a minha família tem minas de açorda e de sabão no Alentejo.

O senhor prometeu ir pensar, e os amigos do Bolinhas reforçaram o pedido, fazendo uma guarda de honra na Avenida à mãe e à filha, com o futuro noivo à frente a implorar a autorização da sogra. Mas Paço de Arcos além de filósofos também tinha outras musas, a Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, irmã da Batata, a Tita dos Pés Sujos, a Espirro de Punheta, e tantas outras que tornaram os verões de Paço de Arcos ainda mais quentes. Não se namorava no Coreto, porque cheirava a mijo, mas esgalhava-se muito nas Fontainhas!

Fim da 4ª Temporada

01
Jun20

4ª Temporada - O Suicídio Assistido (12)


Comandante Guélas

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12

Quando o Chico Sá, também conhecido como Caveirinha no Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR), onde era agente, passou numa motorizada, com uma donzela à garupa, em direção a umas moitas, a notícia da promessa de “Suicídio Assistido” do Pinguim, marcada para as 16H00 numa das torres da Direção de Faróis, já percorrera toda a vila-Estado, e o Pierre Pomme-de-Terre não tinha mãos a medir na venda de bilhetes e programas.

- Vou atirar-me para o mar, e nunca mais me veem, - prometeu o corredor oficial do Cabrita e empresário da restauração.

Longe dali o Choné e o Presidente, donos da única bola de futebol e do respetivo clube, o Futebol PA, andavam pelos bares a angariar futuros jogadores:

- Conheci-o numa festa de tias no Restelo, e bastaram quinze minutos de conversa para ver que será um bom avançado centro. Quando sair da moita falamos com ele,

Mas o homem do dia era o Pinguim, até no “Suicídio Assistido” Paço de Arcos foi pioneiro. No programa dizia que o ponto de encontro com os amigos seria junto ao Coreto da Avenida, e que a decisão do futuro suicidado se devia à rejeição da sua pessoa pela Tita dos Pés Sujos:

- É uma ingrata, prefere a mota do Bajoulo à minha Casal 5 de competição, com que participei no Campeonato do Mundo, - confidenciou uns dias antes aos manos Pingalim e Papagaio.

Foi recebido como um herói pelos amigos, a festa era semelhante às de Cabo Canaveral quando os “amaricanos” lançavam os foguetes. Os mais íntimos trouxeram pedras, e encheram-lhe os bolsos e a camisa:

- A zona mais funda é junto à doca, e com este peso vais direto para o fundo, - aconselhou o amigo do peito.

- Eu penso que as pedras são poucas, precisas de mais! – Disse-lhe outro.

Quando o Pinguim deu início às festividades, parecia que estavam na procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Tudo o que o jovem Luís de Espanha aprendeu sobre motociclismo devia-o ao mestre Pinguim:

- As motas de competição têm óleo nos pneus. Não sabes nada acerca destas máquinas! – Explicou um dia, dando uma festa à Casal. – É muito rápida.

E como bom amigo que era, deixou o adolescente com cabelo à caniche dar uma volta.

- Mais alguma pergunta sobre motociclismo? Não? Então até amanhã, tenho de ir treinar cedo para o Autódromo.

Foi mais tarde visto no topo da bola de Nívea na praia de Paço de Arcos a fazer treino mental para o campeonato nacional de motociclismo.

O Dr. Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta, o maior biógrafo paçoarcoense do Pinguim, autor da magistral obra “Voando sobre um ninho de papagaios”, escreveu, “por ser maluco chegou ao topo como guarda-redes de hóquei, com banco na seleção, mas devido a ter levado com uma bola nos cornos perdeu o lugar na caderneta de cromos da modalidade, vendida na Dáni. Ganhou medo às bolas, incluindo as suas, por isso passou a urinar de olhos fechados e a atravessar a pé a ponte do comboio de Santo Amaro de Oeiras”.

- Era guarda-redes da minha equipa em juvenis, e subimos a seniores logo na primeira época, mas eu não consegui aguentar o ritmo e o Choné levou-me por caridade para o Futebol PA, - contou o Fufa.

- Fui colega dele. – Confidenciou, com uma lágrima no canto do olho, o Caveirinha. – Um dia apareceu na aula com um farol que tinha gamado de um dois cavalos, e disse-nos que era a nova namorada!

- Sempre que andava de comboio levava uma coleção de 100 bilhetes usados, - contou o Luís de Espanha, também com um olho húmido, - molho este que usava quando o pica-bilhetes lhe pedia o do dia. Tirava um a um, à medida que dizia “este não é, este também não” e a meio chegava sempre ao destino.

- Tinha como lema de vida uma ideia de Lavoisier, “nada de perde, nada se cria, tudo se transforma”, - disse emocionado o Fufa, seu colega de carteira. - Transformou uma camisola do colega da frente, com uma malha saída, num novelo de lã. E também me lembro dele como Homem-Aranha, porque um dia saiu pela janela de uma aula de Religião e Moral no primeiro andar, no Liceu Nacional de Oeiras.

Como homem dos sete ofícios, trabalhou na AC Santos da Avenida da Liberdade, chegou quase ao topo da carreira de paquete, mas como visionário que era, e só se conhece mais um, o Musk, o Pinguim trocou a carreira de sucesso pelo sonho de uma vida, o motociclismo, tendo dado logo nas vistas, sendo imediatamente contratado pela equipa mais poderosa da altura, a Lolita Veloz, que o equipou a rigor.

- Assisti a todos os treinos dele, - confidenciou, com lágrimas nos olhos, o Fufa. – Tinha uma característica única, enquanto todos os outros corredores metiam as mudanças diretas, ele fazia ponto de embraiagem.

E o Fufa estava na bancada no dia da primeira e única prova oficial do Pinguim, como representante da Casal:

- Ainda estou a vê-lo com fatinho de cabedal e capacete, - disse, assoando o nariz com emoção. – A carreira do Pinguim no motociclismo resume-se a uma reta, pois despistou-se logo na curva Citroen, e partiu a máquina toda.

Um homem assim é mais raro do que um génio, o pai teve enorme influência na sua esmerada educação, era o famoso empresário do Papagaio, com exclusividade na recepção do material roubado nas redondezas. Ele e o Carvalho da Ourivesaria eram unha com carne, por isso tudo o que era ouro ou prata passava para o outro lado da rua. A prisão do pai Papagaio e o atentado ao sócio, um tiro na perna, coincidiu com a ascensão do Pierre Pomme-de-Terre. Quando a vítima regressou do hospital mudou de ramo e abriu a Petisqueira do Gould. Como os traumas do Pinguim foram seguidos, a bola nos cornos e a injusta prisão do querido pai, mudou-se para Porto Salvo e tornou-se um cabeleireiro famoso, estilo Variações. Para não pagar bilhete, como forma de protesto contra o sistema, passou a apanhar, ou o comboio de mercadorias, ou a ir do lado de fora do de passageiros. Voltou a Paço de Arcos, comprou o café da moda, “O Bachil”, acumulou dívidas no jogo, e no dia em que o pai o esperava em Pinheiro da Cruz, praticou um “suicídio não assistido”, apanhando os amigos desprevenidos. Quanto ao “Suicídio Assistido” desistiu, mesmo com o povo a incentivá-lo, mostrando que era senhor de uma textura fina de um comportamento determinado pelo livre arbítrio.

 

27
Mai20

4ª Temporada - Pinga Amores (11)


Comandante Guélas

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11

Dizem que em Paço de Arcos há muitos gémeos que não sabem que o são, porque partilham o mesmo fígado, e só quando o garrafão se parte é que eles se separam. Foi isso que aconteceu entre o Chico Boatos e o Zé Maria Pincél no momento em que este se casou com a Macaca. Sempre que há uma mudança de regime pela força, o povo reage com um babyboom. Paço de Arcos não foi excepção, mas ficou-se pela intenção. Só o Manelinho da Carroça é que somava e seguia, pois para ele a mulher não passava de uma ovelha, por isso cobria-a em todas as ocasiões, estivesse a cagar ou a lavar roupa nas pias da Terrugem de Cima. Acabou por perde-la para um polícia:

- Vi-a a correr e a deixar cair o último puto das saias!

Em Paço de Arcos houve nesses tempos revolucionários várias adolescentes que deram cabo das cabecinhas de muitos rapazes. E o problema chegou às mãos do Delegado de Saúde da vila-Estado, o Dr. Focas das Docas:

- Isto já me cheira a pandemia, quanto mais perto chegam do Arvoredo, mais tesão têm os miúdos.

- O Zé Cagalhão passa a vida debaixo da janela da Lena Lentes no Mustang do pai, que abana por todos os lados - informou o enfermeiro Alpedrinha preparando as injeções para os dardos.

- Vamos ter que tomar medidas de confinação!

- E anda por ali um gordo de óculos com comportamentos suspeitos.

- Um gordo de óculos?

- Dizem que é o que tira fotos para os passes dos estudantes.

- O Bigornas? Não, o problema dele chama-se Kika, e a menina só o chama quando tem falta de gás butano.

E tinha razão, o Bigornas estava dobrado sob o peso de uma bilha, que a alemã insistia que levasse para o primeiro andar. O Monhé acumulava filmes para adultos e não saía de casa. Fora apanhado na caixa do supermercado com o Mac Macléu Ferreira, o produto não ostentava o preço, e a moça teve de perguntar  ao chefe:

- Silva, qual é o preço desta cassete?

- Qual é o título?

- Garganta Funda, doze anos depois!

O Milhas não largava a porta do restaurante do pai da Huga Huga Lagosta; o Zé Maria Pincél fazia contas à carteira da Macaca. A gota que fez transbordar a paciência do Dr. Focas das Docas foi produzida pelo Graise, quando informou os amigos de que aquela festa era “só para orientados”, ao mesmo tempo que dava um beijinho carinhoso na sua namorada, uma indonésia anã!

- Terá Sísifo sido alguma vez feliz? – Gritava sempre o Bajoulo de cada vez que ia buscar a Tita dos Pés Sujos.

Foi nestes breves segundos existenciais de lucidez, que o poeta oficial de Paço de Arcos escreveu os mais belos poemas: “Numa noite de copos / Com o meu chouriço rijo / O teu nome escrevi / Com um jacto de mijo!”.

O único amor que o Bill sentia era pelo partido, por isso sempre se sentiu atraiçoado por o terem obrigado a casar-se com a causa guéliana, mas precisava dela para conseguir sobreviver naquele meio hostil aos trabalhadores. Foi por isso que um dia o Taka Takata se aproximou dele na Praceta, vestido de varredor:

- Camarada Bill junta-te ao meu grupo terrorista: “AL-TAKA!

Mas a cabeça do Bill estava longe dali, o que presenciara na ex-roulote de cachorros do senhor Carlos & Pedro Pomme-de-Terre, atual Mocho, o Bruxo, estacionada junto do Coreto, pusera em dúvida os seus ideais comunistas, sentira o bafo de Deus. Recuemos. Pierre-Pomme-de-Terre anunciava a Parusia, na altura em que jovem comunista saia de mais um comício. O apóstolo dizia que aquele que se escondia dentro da roulotte dera-lhe como prova um cálice com pingos de mijo extraídos da relíquia paçoarquiana, as veneradas Cuecas do Bajoulo, a última tentação da Tita dos Pés Sujos, nascida na Quinta do Ferreiro, em Moscavide, e benzida pela Quitéria Barbuda, a mulher martirizada pelo Craveiro Lopes, com visões vínicas, afetada pelo Sumol de Laranja com palhinha dada pelo Jorge Vira Bicos da Iolanda.

- São dois pingos grandes e três mais pequenos, - gritou Pierre Pomme-de-Terre abrindo os braços para a multidão.

Foi nesta altura que o Bill se benzeu pela primeira vez, e os que o rodeavam gritaram “milagre”.

05
Mai20

4ª Temporada - O Terrorista (10)


Comandante Guélas

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10

Quando a “Limousine de Luxo” CI-90-20 do Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR) passou pela porta do Papagaio, dirigida por um agente com um cabelo à caniche, a deslocação do ar deitou os guardanapos, as pevides e os tremoços do Pinguim abaixo, levantou as saias da Maria das Bicicletas, deixando à mostra o Cabrita que estava a mudar o óleo, e o Todo Boneco gritou da porta do Manuel da Leitaria:

- Espera aí que já cospes!

Era a senha para avisar da presença de um comunista. Até um cartaz a anunciar o espetáculo no coreto do grupo “Laranjão e mais três”, autores da famosa música “O Leproso”, foi arrancado da parede por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro de um intestino.

- O Focas anda aí! – Gritou a Tita dos Pés Sujos, escondendo-se debaixo das cuecas do seu Bajoulo.

- Porque é que eu vim para este mundo? – Interrogou-se o Milhas, tirando a cautela das mãos da Blandina, pagando e fugindo, deixando lá o Velinho, perdido nas divagações filosóficas da escolha do número da sorte.

O Carocha virou bruscamente para os lados do Cine-Teatro e parou junto ao Chalé da Merda, onde já o aguardavam o Citroen AV-11-94, o Opel EU-13-12, o Mini FF-62-88, o Citroen GZ-65-33, o Peugeot BM-18-35 e o Renault BU-13-78, o GS-21-11, o Chevrolet da Proteção Civil FC-79-02, o AT-66-70, o Escort LA-91-40, o DI-81-76, Alfa Azul, o EH-87-44, Alfa Branco, HS-35-32, Alfetta, com o pai do Bajoulo, conhecido como o Paiol Móvel do Comandante Guélas, o BU-91-40, o BU-13-78, e o INEM, na pessoa do Dr. Rof, um FIAT 217 Branco com duas matrículas, uma à frente e outra atrás, FC-75-25 e FR-43-07, para confundir o inimigo. O briefing do Luís de Espanha foi rápido e conciso:

- O social fascista Bill sequestrou a cidadã Espirro de Punheta e refugiou-se aqui no Centro Cultural de Paço de Arcos, ameaçando abusar da menina se o Focas não pedir desculpa ao camarada Rodrigues pelo cagalhão que fez atrás da poltrona no Farol. O meliante está cercado, por terra, ar e mar – e apontou para os carros, para a saída de esgoto da Praia Velha, bloqueada pelo zebro de dois metros cujo motor tinha 1 burro de potência, do fuzileiro Horta Correia e para os pombos no fio da puxada elétrica clandestina do Tubarão que cruzava o espaço aéreo da área do crime.

Segundo a estatística do Centro de Estudos João da Quinta pelo menos 10% da população andara no CI-90-20, incluindo o Lopes, o mais famoso cão da vila, propriedade dum dos Latifundiários Culturais da vila-Estado, Daniel José Martins de Almeida, nascido no dia 29 de outubro de 1955 e com morte anunciada para o dia 22 de março de 2008, segundo dissera a Mulher-Serpente da Feira de Nosso Senhor Jesus dos Navegantes. Na praceta havia um mini branco, IE-37-52, que lhe fez sombra, propriedade de um capitão que tinha gostinhos em ver adolescentes a guiá-lo, ajudando os petizes a pôr as mudanças. E um dia a “Limousine de Luxo”, que tinha uma autorização para circular nos tempos “negros do fascismo”, por ser da mesma cor dos carros da PIDE e do Exército, apareceu no meio do Jardim da praceta, “desem querer” (Charlot) e o João Gordo informou os clientes da promoção:

- A quem levar 1 Kg de carne os filhos têm direito a brincar dentro daquele carro, colocado pela CMO, como no Parque do Alvito.

Recuemos no tempo. Uns dias antes o Focas, acompanhado dos seus amigos Pontas e Serapito, tinha ido divertir-se para os lados de Cascais, mais propriamente para a discoteca da Estalagem do Farol, o equivalente à Riviera Francesa, e a uma dada altura teve uma cólica fortíssima que o obrigou a arrear um formoso cagalhão atrás de um dos sofás, limpando o cu a um livro que estava em cima de uma mesa, “O Capital”, de Karl Marx, pertencente a um jovem pseudo-intelectual da UEC de nome Bill. O cheiro era tão intenso que o Pontas desmaiou num canteiro durante a fuga. A negociação estava num impasse, a Espirro de Punheta gritava desesperada:

- Senhor terrorista não és homem não és nada senão abusares de mim.

- Agarrem-me ou eu salto para as cuecas dela, - gritou o Bill empunhando uma bandeira do PCP.

O desbloquear da situação só poderia ser resolvido pelo único expert em diálogo e reconciliação, o inspector Zé Maria Pincél.

- Este vai conseguir, ele sabe o que faz!

Zé Maria Pincél torturou um dia o Horta na casa da Katy quando começou a namorar com ela, depois de ter levado uma dentada durante um linguado do seu ex, o Peidão, por eventuais crimes cometidos no infantário, onde o Horta lhe chamou “gorda”, obrigando-o a ajoelhar-se e a pedir-lhe desculpa. Aliás a fama de ter um sentido apurado de justiça manteve-se ao longo da idade adulta, quando barrou a entrada ao Caveirinha na quinta da Macaca, acusando-o de ter invadido o espaço no passado. Quando confrontado com a verdade, também participara no delito, respondeu com a lógica que lhe era característica:

- Eu já previa ficar noivo desta gostosona, como tal não invadi, porque já era proprietário!

As portas do Chalé da Merda abriram-se de rompante, saindo de lá um terrorista em pânico, perseguido pela Espirro de Punheta que o ameaçava comer até ao tutano. O jovem só sabia tomar decisões erradas, abraçara o comunismo, e escolhera raptar uma meia-fêmea faminta. O Comandante Guélas condenou-o a um internamento no Campo de Reeducação dos Milhas, dirigido pela Ester e a Arlete!

01
Mai20

4ª Temporada - O Mistério do Fritz (9)


Comandante Guélas

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9

Quando o Milhas abriu a carta mal sabia que estava a escancarar a Caixa de Pandora, que na vila-Estado de Paço de Arcos dava pelo nome de Caixa do Alice, o primeiro cidadão vítima dos amigos do Bill a trazer para o local a folha mágica dos retornados.

- Uma fotografia?

E se o presente fosse de algum admirador secreto? No verso estava a identificação das oito pessoas: da esquerda para a direita, o Manuel Almeida, fadista que cantava sempre grosso, o Humberto, o Lourenço, irmão do anterior, o Fritz, um desconhecido, o Rocha, fadista, o Rodrigo, fadista e o Julinho do Arreda. O Milhas elevou as sobrancelhas e gritou:

- Fritz?? Mas sempre ouvi falar dele como um homem loiro! Isto só pode ser uma armadilha do Espalha, a gozar comigo e com o meu muro. Porque é que eu vim para este mundo?

Estava lançada a confusão lá para os lados da Quinta da Moura, onde um humilde cidadão em quarentena acabava de ser atacado por algo mais poderoso do que o Covid: o Fritz! E para agravar isto tudo o Laranjão, pai do Zé das Cápsulas, tinha convidado o Milhas para a Bio DanZa no Clube Desportivo de Paço de Arcos, onde no antigamente o Rato exibia mortais nos saraus.

- Estás a chamar-me panasca, - protestou o Milhas. – Mas porque é que o pessoal do Futebol PA me persegue? Porque é que eu vim para este mundo?

Quem lhe mandara a fotografia sabia os danos que iria sofrer. Olhou para o Lourenço e lembrou-se do Ferramenta, um admirador convicto, tal como ele, do Sandokan, que criara uma personagem mística, o Avô Leão, parecido com o Carinha da Avó, que tinha ameaçado de morte o Milhas, no Marginalíssimo, com uma enxada.

- Fritz?? Mentiroso, - gritou o Milhas na direção, não de Meca, mas da casa do Espalha.

O Luís de Espanha sabia que o Milhas nunca seria capaz de reconhecer o Fritz antes do acidente de mota com o Lourenço, que já tinha aviado o Ferramenta no seu Matra Simca, que lhe mudara toda a panorâmica da tromba, e por isso a cabeça do ex-vizinho iria começar a borbulhar, da mesma maneira que acontecia quando via o Vasquinho, o baptistinha que era ameaçado de cada vez que não queria comer a sopa:

- Olha que eu vou chamar o Zé da vizinha!

O Milhas tornou a olhar para a fotografia

- Será o Vasquinho, o amigo do Bufas? O Cara Alegre? Não, esse era anão! Foda-se Espalha, estava eu aqui tão quietinho, que mal é que te fiz? Porque é que eu vim para este mundo?

Mas havia outra armadilha na fotografia, além do Fritz, o amigo do Lourenço, que acabara de se finar a ver televisão, e vivia na altura na Amoreira, e presentemente em Paço de Arcos. Por isso o milhas arrebitou de novo as sobrancelhas quando deu de caras com ele:

- Quem é este??? O Nortadas em modelo fashion?

O Luís de Espanha não olhava a meios para atingir os fins, desestabilizar o ex-vizinho Milhas, com esta dúvida existêncial pretendia que o amigo tivesse necessidade de telefonar ao Fininho para esclarecer as dúvidas que lhe iam torrando lentamente a alma.

- Calma Zé, não te deixes destabilizar pelo arquiteto de meia-tigela. A foto foi tirada no Dom Rodrigo em Birre, o Rodrigo está aqui e deve ter uns 78 anos.

A custo lá ligou ao Fininho, e este respondeu sem qualquer tipo de dúvidas:

- É o Fritz Moka!

Desligou com raiva!

- O Fritz?? Burro Zé, burro, mas ainda tinhas dúvida de que lado é que estava o Fininho? Ele embirrava comigo mesmo quando não ia jogar, não era agora que iria contrariar o Espalha?

Uma coisa o Milhas tinha a certeza, o Fritz era loiro, parecia um alemão, e não acreditava que mudaria a cor do cabelo depois do desastre. Resolveu telefonar ao Choné.

- Não é o Fritz, foi meu vizinho durante quinze anos, - respondeu o jogador careca e coxo com convicção.

- Eu tinha a certeza, - gritou o Milhas com as sobrancelhas arqueadas. – Isto é um complot do Espalha e do Fininho para destabilizar a minha quarentena. São piores que o Covid, só malta muito má é que me envia uma fotografia com quarenta anos.

O Milhas sabia que tinha uma conexão mística inversa com o Fritz Moka, ele havia ganho 3500 contos na lotaria de Santo António de 1983, vendida pela Blandina, cujo número foi recusado pelo Velhinho por estar sóbrio, tendo escolhido outro, e o Fritz perdido oitenta escudos a jogar à lerpa a tostão. O Milhas demorou tempo a recuperar do ataque vil do Espalha e do Fininho, por isso ainda telefonou raivoso para o Marreco:

- Bossu, deves 5 coroas ao Pontas, que pediste emprestado à porta do senhor Silveira em 1975, e depois piraste-te para a Bélgica!

- Esqueci-me da carteira!

Como o Bossu morava no Bairro Social do Rosário em Cascais, mas dizia que vivia na Quinta da Marinha, o Milhas desligou com desprezo.

- Espero que encontres o Espalha e o Fininho!

Sentou-se recuperado no sofá, puxou para o seu colo os jornais da vila-Estado, o Praia Velha Times, semanal, e o Charlot-Niús, diário, e começou a ler a coluna de opinião do Bill de Gatas: “Espíritos vieram cá abaixo e disseram que a minha avó morrera de bubadeira”!

30
Abr20

4ª temporada - O Boquinha de Milho (8)


Comandante Guélas

 

Hoquei 2.jpg

8 

“Certamente vocês, a nação paçoarcoense, conquistarão a vila. E quão maravilhoso será o seu comandante, o Comandante daquela nação. E quão incrível, quão maravilhoso será o exército daquela nação, assim como a sua equipa de hóquei!” – Tenente Proveta ao dar início à invasão do sul comunista.

Os flatos do Focas eram sons que doíam, e atingiam sempre a débil fronteira das lágrimas do Kid Aromas, que naquele dia histórico tinha o peito mais enfunado do que a vela de um galeão. A complexidade religiosa paçoarcoense era assinalável, por isso o irmão padre do Serapito dizia que a vila-Estado era uma repartição do Céu na Terra, com alguns empréstimos feitos no Inferno. O Alerta PA do dia informava que o Dr. Protético, irmão do Vitinha, arrancara vinte dentes ao Tubarão e ninguém gritara “pecado”! O regresso do Bill à Mãe-Pátria não trouxera só três magníficos, mas sim uma equipa inteira no porão, sinal de que o mister já tinha adquirido muitos hábitos chineses. E cada atleta trazia escondidos na sua bagagem quadros de cavalos e de toiros assinados pelo Boquinha de Milho, um velho sem maxilar inferior, que passara o resto da reforma a fazer desenhos na Oceania. Mas o Bill trouxe também felicidade à vila, porque mal pôs um pé em terra o Manel Canocha, irmão do general Titó e do Joaquim, o comuna mais empedernido de Paço de Arcos, dera o berro, deixando vaga a casa ao lado da Dízima e por baixo da Elisinha Explicadora. Na escola, do bando de comunas, só o Bill chegou longe, porque depressa aderiu à causa guélanista, passando a limpar o cu aos ensinamentos do camarada Lenine, uma múmia do Kremlin que morrera atestado de sífilis, borgalhotas e piolhos. Aliás, fora o mais novo dos titós que dera o alerta ao jornal da terra, o Avante Bilov: “morreu o Keidas com um tiro nos cornos”. Por Keidas queria dizer Kennedy! E apesar da notícia estar um pouco atrasada, o Bill escreveu-a na mesma, tinha de dar nas vistas se queria ter um futuro como jornalista da LUSA. Mas o dia corria-lhe bem, as notícias eram em catadupa, o Lourenço, dono da Plim-Auto na terra dos pés negros, onde o Choné mandou arranjar um R5 “Alpine”, preto, de jantes alargadas, com que o Focas e o Chinoca se espetaram na curva da casa dos Baptistas, que queimaram a cabeça do vizinho Milhas, que mais tarde se casaria com a Sesaltina, vizinha do João da Quinta e do Zé dos Porquinhos, despistara-se na curva das Fontainhas com o seu Matra de fibra de três lugares, com uma puta com casaco de peles e o Ferramenta, e este por não ter o cinto foi fazer companhia com aquele que andara a comer a Marilyn Monroe, Marie Hemorroidas para o Keidas.

- Vai tudo dexpulso do bar, - ameaçou o senhor Daniel.

Mas o escândalo dos quadros falsos do Boquinha de Milho ocupava a primeira página: O Luis de Espanha descobrira, no Arvoredo, que ele copiava os desenhos por cima, decalcando-os em casa, para depois dar a impressão de ser um artista de renome mundial. Foi expulso do café pelo dono ofendido que, por ser uma atração, dava-lhe comida à borla. Assentou arraiais na Oceania, e deixou um seguidor, o irmão da Marina, que fazia o mesmo usando outra técnica, projetar desenhos numa tela e copiá-los.

29
Abr20

4ª Temporada - Mister Bill (7)


Comandante Guélas

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João Gordo.jpg

 

 

7

Quando o Bill apareceu na porta do Aeroporto Internacional Quitéria Barbuda, acompanhado pelas estrelas do Clube de Hóquei de Wuhan, e assessorado pelo Zé Pracana, já sabia que a comunicação social o esperava em massa para ouvir as novidades:

- Acabei de chegar de Macau e trago-vos uma novidade, consigo curar qualquer doença!

- A mim curou-me uma hepatita, - interrompeu o Balatuca, capitão do Iraocusaicaro.

- E a este leitão, - e apontou para o gordo, - curei-lhe uma úrsula.

- E o espigadote, teve alguma maleza? - Questionou o jornalista Clarke Kent da TVI.

- Uma "hepatita azar", e curei-a com água envenenada pelo esgoto do Manelinho, e com carne das vacas loucas.

- Mister Bill, tiveram a estagiar na Tunísia?

- Correto!

- E o que é que viu no subsolo?

Houve uma hesitação momentânea, logo superada após uma indicação do assessor, que segredou:

- Azeite!

- Última questão, o que é que apetece fazer em primeiro lugar, agora que regressa à pátria paçoarcoenses com os três magníficos?

- Montar!

Mas o Bill só montava no Guincho.  Por isso quando chegou ao café “Iolanda”, que vendia meio-gordo dentro de uma garrafa de sumol com palhinha à Quitéria Barbuda, perguntou:

- Quem é que quer ir montar?

Braços no ar.

- Mas tu já alguma vez andaste a cavalo? – Perguntou o  Peidão, ao Chinoca.

- Eu tenho uma “Maxi Push”.

No Renault 5 que o fora buscar estava um amigo misterioso do Bill com chibata, botas de montar e cara de mau.

- Eles podem vir connosco?

A excursão rumou para a Aldeia da Areia, onde seriam alugados os animais. Quando os bichinhos foram entregues o Chinoca quase que saiu à carga, porque pensava que “Cavalo” e “Peidociclo” era tudo da mesma família, e por isso acelerou a fundo.

- Têm a certeza que o vosso amigo sabe andar de cavalo? – Perguntou o dono do picadeiro ao ver que o rapaz com cara de oriental não tinha qualquer vestígio de técnica de acompanhamento do trote, indo por isso a bater violentamente com o traseiro na sela e a enredar as rédeas nas pernas.

- Ele está habituado a montar as éguas em pêlo, - explicou o amigo Bill.

O jovem com cara de mau tomou a dianteira passando com um ar de desprezo por todos. A sorte devia-se ao facto de os cavalos estarem habituados a andar uns atrás dos outros e assim o do Chinoca teria poucas hipóteses de fugir. Atravessaram a rua e embrenharam-se nas dunas. Alguns metros mais adiante tiveram de reduzir para passo, pois era necessário poupar o rabo do chinês. Mas aconteceu o primeiro dos “previstos”, quando um ramo baixo lhes apareceu pela frente. Todos puxaram pela rédea esquerda e contornaram o arbusto, excepto o Xinoca que seguiu em frente e chocou contra o obstáculo. Passou o bicho e quase ia ficando o cavaleiro, caso não se tivesse deitado sobre a cabecinha do animal, folgando as rédeas e soltando os chinelos de quarto dos estribos. Ainda houve tempo para apostas, ganhando a opção “queda”. Valeu o sangue frio do cara de mau que encostou a sua montada e segurou o animal. Pausa, o chinês estava mais inclinado do que a Torre de Pisa, e à medida que ia descaindo puxava as rédeas, arriscando-se a sentar o alazão no colo. Quando o líder o informou dessa hipótese, tirou as mãos e caiu na areia fofinha. Pôs-se logo ali uma dúvida: como é que ele iria montar, uma vez que não havia a escada do picadeiro? Veio-lhe à memória o paçoarcoense da Quinta Divisão e da falta que ele lhe fazia naquele momento. Caso fosse um dos presentes, mandá-lo-ia agachar, como já era costume. Depois bastaria saltar-lhe para a espinha e montar. Mas a realidade era outra! O Chinoca teria de se desenrascar, nenhum dos presentes queria fazer de militar de abril. Foi o que fez, meteu o bichano na parte baixa de uma duna e saltou-lhe para cima. Como o tempo já estava a escassear, foi necessário recorrer ao galope, porque senão nunca chegariam à Praia Grande. Ao chegarem ao Guincho cada um escolheu o seu ritmo e, de uma maneira geral, a carga foi a velocidade que imperou. Quanto ao Chinoca, optou por parar, largar o volante, enrolar um cigarrinho, ao mesmo tempo que dava folga ao rabo. Só que este tipo de cenas não eram as mais aconselháveis no momento, porque o animal cheirou o chão deitou-se de imediato, atirando o adolescente com cara de oriental de pantanas, tendo no entanto ainda conseguido dar a última “passa” antes de aterrar. O cara de mau, que estava na outra ponta da praia, nem queria acreditar no que via. O cavalo do Chinoca parecia um cão a coçar-se no chão e quando a festa acabasse de certeza que iria a Cascais tomar um copo. E quem tinha deixado o Bilhete de Identidade, aliás o único a levá-lo, tinha sido ele, como prova que eram todos “bons montadores”. E o seu Renault 5 não valia nem metade de um burro sarnento, quanto mais um cavalo inteiro. Ficaria de certeza a lavar cavalariças o resto do ano e estragaria as suas botinhas com brilhantina. Meteu “prego a fundo” e conseguiu chegar a tempo. Quanto ao Chinoca, queria era regressar a pé, alegando já ter o traseiro em chamas e não querer ser confundido com algum revolucionário tresmalhado. Conseguiram convencê-lo a dormir nessa noite de barriga para baixo, para que as marcas no mealheiro desaparecessem. A partir dessa data o Rui, nome próprio do cara de mau, optou ir sempre pelo picadeiro e longe dos meninos de Paço de Arcos.

 

18
Jan20

4ª Temporada - Libações Vínicas (6)


Comandante Guélas

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6

 

O Comandante Guélas, Querido Líder de Paço de Arcos, reconhecia sempre os comunas pelos pés, porque pisavam a vila de outra maneira. O Bill jogava um futebol diferente do dos amigos. O Serapito e o Kid Aromas, sempre perfumado e com verniz nas unhas, eram dos últimos homens temperados de Paço de Arcos, cuja única tarefa que tinham na vila, em comum com o Milhas, era a verdade de si mesmos, por isso um dia o Querido Líder declarou-os, ao acordar com uma ressaca de remédios, Patrimónios Imateriais de Paço de Arcos! O Ánhuca vivia na mais absoluta escuridão, por isso as amizades íntimas que fez foi com as galinhas do Manelinho do Estrume, que cobria tudo o que mexia em casa, incluindo a filha, pois a mulher tinha-se pirado com um chui. O nascimento do Zé Luís era um mistério, assim como a sua morte. Diziam que era tetraneto do Napoleão Bonaparte.

- A violência não lesolve nada, - gritou o patrão chinês do Alfredo do Pombalino quando viu o Generebete a apertar com violência o pescoço do Espalha.

- Aposto que não dizias isso se descobrisses que a tua mulher andava a mudar o óleo a outro.

O cornudo metera na cabeça que o futuro sobrinho do Isaltino andava a servir-se da sua Becas, que cheirava mal dos pés. O sonho de dar a volta à vila num Lotus 7 esfumara-se de um dia para o outro e levara-o a dedicar-se a uma valente libação vínica.

- Bebe um copo de água branca que a dor de corno passa, - aconselhou o empregado do asiático, ajeitando a popa. – Ou um café preto!

Não muito longe dali o Pipi acusava a mãe do Pingalim de lhe ter vendido um garrafão de tinto marado, com sumo de uva, óleo das motas do Cabrita e sobras dos pés da Maria das Bicicletas, que lhe tinham toldado o espírito que o tinha feito chocar com um elétrico em frente à padaria.

- Elétrico? Era um compressor! – Explicou o Guélas.

Foi o suficiente para o Pipi confundir o Querido Líder com uma mini, e tentar tirar-lhe a carica. Para a História a cena ficou registada como o Atentado de Camarate que quase ia vitimando o Comandante, e cuja culpa fora atribuída àquele que ainda não aceitara a nova ordem: o Bill. Na esquina do Manel da Leitaria o Capitão Porão estava em rituais de transição com um adolescente:

- Passa para cá as chaves do ninho, - exigiu o jovem chinês. – Hoje tenho uma cabrita ao serão e só regressas a tua casa quando eu puser um lençol na janela.

- Não te esqueças de tirar a deusa Minerva da cabeceira da cama, não vá ela cair novamente na cabeça da cabo Verdiana.

Mas a estória do momento era o casamento do Peidão, que levantava um problema logístico grave, não havia lugar para toda a elite da vila na mesa do almoço. O Querido Líder fez uma fatwa que correu com as madames de cabelo à “Moisés”, fatos a cheirar a naftalina foram banidos, assim como as pérolas de plástico, cachuchos de roscas e prendas miseráveis, as criancinhas penduras não faltavam ao infantário, e às tias da aldeia prometia-se enviar os restos em “tupperweares”. A festa assim rejuvenescia e com toda a certeza que seria muito mais original. Mas nunca ninguém imaginou o quanto original ela iria ser, nem o próprio Hitchock! A autorização para mais uns quantos foi dada na véspera e o Peidão convidou todos e mais alguns, prometendo arranjar lugares disponíveis. Até o Bigornas trouxe um coirão que ninguém conhecia, mas que ele insistia ser a namorada de há muito, esquecendo-se de que na vila só havia registo da eterna Kika, uma alemã que só se lembrava do namorado quando precisava de alguém para lhe levar a bilha de gás da porta de entrada para a cozinha, nas traseiras, cruzando-se sempre com o Camaleão, irmão do Estalinho, que acampara à porta da Lentes, dentro do “Mustang” do pai, que dizia com orgulho ser pai de “quatro matulões”, esquecendo-se que o filho Trovão tinha um metro e meio. Os convites de última hora foram feitos como os primeiros, de boca em boca e à porta do Pica, porque para os noivos poupar nas mariquices dos convites significava mais lugares à mesa para os amigos. Mas mesmo assim ficaram muitos esquecidos e alguns traumatizados. A boda teve lugar na Quinta da Granja em Sintra, e para o Orlando, o comandante, este era o dia mais feliz da sua vida, pois talvez estivesse aqui a grande oportunidade para progredir na carreira: dar todo o conforto ao filho do chefe! Na véspera do grande acontecimento paçoarcoense fez uma visita guiada às instalações, incluindo a ala mais in do palácio, os aposentos “reais” datados do século XVII, recentemente restaurados, e colocados de imediato à disposição dos noivos, para que os inaugurassem a seguir à boda. Até a retrete, onde muitos nobres tinham arriado faustosos cagalhões, se encontrava recauchutada e selada para os fundilhos do Peidão. Mas ao noivo, que não ligava muito a estas mariquices da História, o que lhe chamou à atenção foi o corredor dos aposentos dos oficiais, paredes meias, que estava forradinho de extintores , um por cada porta.

- Se vêm aqui, o Orlando manteigueiro será despromovido e passa a ser o Cabo Pilas , - pensou. – Vamos ficar longe destas tentações!

Como já era de prever a chegada do noivo foi acompanhada de um coro, de “Peidão” e muitos “Peidão”, que se estenderam à cerimónia na igreja, felizmente dirigida por um paçoarcoense padre que teve o bom-senso de acelerar o ritmo.

- Se queres falar com o meu irmão, até às 20 horas está no convento e depois passa directamente para o bordel, - dissera aos noivos um mês antes o adolescente Sarapito quando estes escolheram o seu mano para lhes abençoar a vida de pecado.

E os gritos foram tantos que os meninos de boas famílias de Paço de Arcos ficaram com as goelas secas, vendo-se obrigados a porem-nas de molho mal tiveram oportunidade. O avô do noivo, pioneiro da aviação, juntou-se à festa e levou um amigo que conhecera, o engenheiro com cara de leitão. Nunca mais ninguém os parou! E foi nesta altura que um oficial da base foi encurralado na casa de banho, pois resolveu ir arrear o cagalhão minutos antes de um lote de meninos ir verter também as suas. Quando descobriram por baixo da abertura da porta do cagatório os seus sapatos e as calças em baixo, aproximaram-se. O Graise bufou-se durante meia hora e no intervalo entre cada petardo o Velhinho batia na porta e gritava:

- Então, então, estão aqui crianças!

O de lá nem tossiu nem mugiu, e assim ficou até que os copos dos meninos ficaram vazios e tiveram de ser recarregados. No andar de baixo a festa ia rija, o Pilas cavalgava pelos vastos corredores do palácio, enquanto que os noivos apanhavam a seca do costume, fotos e mais fotos com aves raras pelo meio. O fotógrafo era o irmão do Bigornas, e como o noivo não lhe prometera nada, excepto um almoço à conta dos sogros, simulou fotografias que nunca chegaram a aparecer. No final aconteceu aquilo que o Peidão temia!

O Vaca Prenhe, cunhado do noivo depois de ter presenteado a Dona Ludres com um netinho fora de tempo, o Cabeça de Ananás, resolveu praxar o Peidão nos aposentos reais. Um minuto depois de entrarem entrou também a boca dum extintor, comandado pelo Graise, e encheu o espaço de um nevoeiro serrado, que obrigou metade do gang a refugiar-se no wc selado. E selado ficou, porque aproveitaram a confusão para verter águas para onde estavam virados. Do quarto saia fumo branco, não porque houvesse Papa, mas sim porque todos os extintores estavam agora vazios. O Orlando não podia actuar, e por isso teve de ir o chefe que colocou todos os “meninos de boas-famílias” no exterior para minimizar os estragos. E naquela zona havia uma grande piscina atestadinha de água cristalina, que foi para onde se dirigiu a rapaziada para se refrescar. Um minuto depois já havia jovens em cuecas a voar da prancha, incluindo a mulher do Peidão que foi atirada de vestido de noiva. O ponto alto desta banhada colectiva foi quando o Pilas baixou as cuecas e ofereceu a fruta a uma velha que espreitava escandalizada num canto do edifício:

- O que tu queres está murcho, - gritou o adolescente que, para constituir família, teve de ir viver em reclusão para o Porto.

27
Nov19

4ª Temporada - Os Amigos do Sarapito (5)


Comandante Guélas

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5

- Se não comes a sopa vou chamar o Zé da Vizinha, - ameaçava o Espalha com o sobrinho aterrorizado a olhar para ele, não fazendo ideia de que estava a abrir a Caixa do Milhas para a eternidade.

O Ratinho Blanco pertencia a uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da pedreira do Mocho, e tivera como vizinho o Zé Borrego, abafador de maneleiros, descendente direto do Diogo Alves e da Luísa de Jesus. O Ratinho Blanco sempre que ia assistir a um filme indiano no Cine-Teatro de paço de Arcos, punha um chapéu de palha inclinado sobre os olhos, vestia um fato tweed com uma corrente do seu bóbi, presa a um relógio de cuco que segurava debaixo do braço. Tinha uma paixão secreta pela Tita dos Pés Sujos, uma mulher exótica de sangue portosalvense, que enchia a boca de todos os galarós da vila Estado. A sua nudez imaginada provocava muitas pívias, até que um dia deu de caras com um rapaz gordo com nódoas de cevada nas cuecas e casou-se. No altar proclamou alto e em bom som:

- Eu tenho fé no Bajoulo, o meu amado boche, porque é a pessoa que me irá levar ao meu destino, uma terra sem bejecas e gordura!

Mas depressa esta ativista dos direitos das lagostas paçoarcoenses foi assediada pelo vizinho, o Mija Colchões, que a raptou durante uma ressaca do seu marido, e a levou de novo para um altar, onde consumou o pecado: cortou-lhe as unhas dos pés à dentada! A Tita deixou de ser a dos Pés Sujos, e transformou-se numa queque. O Milhas, namorado da sua prima, que fora educado por duas perceptoras inglesas, que tentaram durante anos, sem sucesso, educa-lo a ele e aos irmãos a Arlete, que não gostava de polícias à paisana porque não tinham cassetetes, tão úteis para pôr na ordem os miúdos, e a Ester, amestradora do Áchim e esposa de um pescador que não tolerava vincos nas calças, não aceitou o divórcio da Tita dos Pés Sujos e do Bajoulo, e jogou na lotaria, tendo a desgraça batido de novo à sua porta, ganhou!

Trim, Trim, Trim

- Quem é?

- É o Curtis!

O carteiro paçoarcoenses era pedófilo nas horas vagas, deixava-se consumir no seu Simca pelo gangue de Porto Salvo, e quando a festa atingia o clímax, os putos destravavam o carro e o Curtis largava tudo o que tinha nas mãos para acudir ao bólide, antes que ele se espetasse de encontro ao muro. Todos riam, menos o carteiro, que tinha pago, sem contar com o que lhe roubavam, para ter umas horinhas de prazer com estes adolescentes de Porto Salvo. Quando a brincadeira acabava, o adulto rumava para casa, pois no dia seguinte tinha cartas para distribuir, e o Gang do Zé de Porto Salvo dava início ao seu trabalho rotineiro: gamar peidociclos! A acompanha-lo ia o jovem estagiário de nome Pingalim, filho dos proprietários do célebre estabelecimento comercial “paçoarquiano” de nome “Papagaio” e irmão do auto-campeão nacional de 50 cc Pinguim. Ainda a publicidade era uma miragem e já este célebre piloto do Autódromo do Estoril mostrava a todos os paçoarcoenses a carta que tinha recebido da Federação Internacional, com sede no estrangeiro, a convidá-lo para participar no Campeonato do Mundo.

- Mas os selos são de Portugal e a taxa não é a que está em vigor? – Perguntou o Pontas no “pub” do Centro Comercial mais moderno e vasto da Costa do Estoril, o “Áries”, em cujo prédio morava um Capitão da Quinta Divisão.

- Isso são ninharias, é um problema dos Correios e não meu! – Respondeu com desprezo o único piloto que não tinha conseguido dar uma volta completa ao Autódromo do Estoril, tirando a carta das mãos do inconveniente adolescente.

Mas era verdade! A única vez em que o senhor Pinguim participara numa corrida, fora por conta própria, empenhara-se para o resto da sua vida na compra de um “peidociclo” de competição e respectivo fato, e nunca conseguiu passar da recta, pois seguira em frente.

O Comandante Guélas era o político mais amado de Paço de Arcos porque se deixava amar à vontade. Já o Sarapito era vítima de Bulling, o espírito da revolução, que desejava a igualdade capitalista para todos, ia-se a pouco e pouco esfumando:

- Não, não podes jogar connosco, somos federados, - respondeu-lhe um dia a seco o Marreco.

O Focas, que deixara de fazer cagalhões revolucionários e proclamava que a partir daquela data só defecava nas retretes, recusava-se também a trocar bolas com o pobre do Serapito:

- Vai jogar com o Peidão, o Fininho e outros coxos! – Disse-lhe um dia o Tio Kiki, que vivia desterrado na Pampilheira, mas dizia que era de Cascais.

O povo proclamava agora o regresso do social fascista Bill para explicar a esta gente paçoarcoense o conceito de solidariedade, como fizera no Futebol PA. Nasceu assim o Grupo de Amigos do Sarapito!

 

 

 

19
Out19

4ª Temporada - O Hipnotizador (4)


Comandante Guélas

Rasputine.jpg

 

4

Reza a lenda que a cidade Estado de Paço de Arcos foi por um dia possuída pelo primo do Rei Ghob, e o primeiro sinal apareceu quando o povo deu de caras com o Laranjão, pai do Zé das Cápsulas, armado em polícia sinaleiro com um penico na cabeça, tentando orientar um carro fantasma, dirigido em pé, como era costume, pelo João da Quinta.

- É o Hipnotizador!

O primo do Rei Ghob pôs o Charlot a comer uma batata crua como se fosse uma maçã, a terceira fila adormeceu instantaneamente com um estalar de dedos, e deixou a vila enfeitiçada durante alguns dias. O ex-social fascista Bill, e atual capitalista macaense, perguntou as horas a um bombeiro no final de um treino de Andebol, e quase foi linchado pelo próprio:

- Qual é o nome do soldado da paz?

- Álhi!

- Senhor Álhi, faz-me o obséquio de dizer as horas?

Levou de imediato com uma saraivada de calão, misturada com uma gargalhada geral.

O Espalhinha fora vítima de uma troca de identidades, no dia em que tentou contactar o irmão do Tolas Monas, o Zé:

- Chama-se Jeremias!

Durante anos chamou Jeremias ao senhor, nome de um burro famoso duma série na televisão. Numa noite, já de madrugada, a Padaria “Aveirense”, de Silva & Sousa Lda., rua dos Fornos, nº 17/17B e 17, foi visitada por uma destas turmas, constituída por adolescentes de boas famílias. Recuemos umas horas, para tentarmos perceber o que levou aqueles “meninos de bem” a fazerem uma visita de cortesia à célebre Padaria. A noite ainda era uma menina, e a festa na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos ia de vento em popa. O irmão mais velho do primeiro marido da Tita-dos-Pés-Sujos controlava a música, e debitava freneticamente os vinis gamados aos amigos, fazendo abanar o edifício. O irmão do Citron até já tinha dado um golo numa cerveja de litro, que estava escondida debaixo de uma mesa, mas em vez de cerveja bebera mijo, e do rijo. Dois pigmeus de blusões negros, vindos de Porto Salvo, estavam parados junto ao Salão de Dança e tinham colocado os seus capacetes no chão, um em cima do outro, num local de passagem.

- Quem se atrever a tocar-lhes, morrerá – ameaçaram, coçando os tomates.

O jovem Milhas já se tornara no convidado mais chato da festa, pois ultrapassara a fasquia das cinco “bejecas” e andava perdido na dança, à procura duma vítima. Quando se cruzou com os capacetes deu-lhes um chuto à Eusébio, atirando-os para o meio da multidão. O anão mais próximo nem teve tempo para o homicídio, pois o Milhas agarrou-se de imediato a ele e levou-o para a dança, talvez confundindo-o com a “Huga Huga Lagosta”. Entretanto, o Velhinho conseguira deitar a mão a uma caderneta com senhas de produtos que estavam junto ao homem da caixa, e estava a distribui-las pelos amigos. A azáfama no Bar era enorme, os produtos esgotaram-se num abrir e fechar de olhos.

- Isto é que foi um grande negócio, vendemos tudo! – Disseram os responsáveis, fazendo um sinal com o polegar para o colega que estava na outra ponta da sala, mais propriamente na caixa.

Mas festa em Paço de Arcos não era festa, sem uma carga de Litopol (Ácido Muriático+Litopol). E, como sempre, foi fatal! A noite já ia longa quando o Gang foi arejar para o exterior, encostando-se à “Padaria Aveirense”. O pior foi quando as bexigas começaram a apertar e a vontade para mijar atingiu a “redline”. A pouco e pouco os membros do Gang viraram-se para a parede do estabelecimento comercial e começaram a verter águas. Os que tinham só parede, para a parede olharam, mas os que ficaram com as janelas à frente da cara, depressa descobriram que a loja estava recheada de guloseimas, que davam muito jeito aos estômagos vazios. Cinco minutos depois, o Gang de brancos estava ao balcão da “Aveirense”. Mais cinco e já todos corriam em várias direcções da vila, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve”, Tabaco, e tudo o mais que viesse à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas. Mas houve um paçoarcoenese que ficou para sempre hipnotizado, o Milhas, que continua à porta do Cine-Teatro à espera da devolução do preço do bilhete, como prometera o artista a quem subira ao palco.

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