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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

07
Fev21

6ª Temporada - A Grande Depressão (1)


Comandante Guélas

Scooter avental.jpg

1

A nova realidade depressa se espalhou pela vila, como o nevoeiro pela costa, a Espirro de Punheta tinha visto o Conan a passar na sua nova scooter, uma soberba Yamaha T Max Grey, não com os famosos colhões sumarentos ao vento como antigamente, mas sim com um avental a proteger as pernas e os vegetais.

- Tirou-me o último prazer da minha vida, - queixou-se a Odete Estica dando a derradeira festa na sua passarinha, que secara com a notícia.

- É uma triste notícia para a vila, já não vou poder adormecer com a imagem daquele velho garanhão a possuir-me por todos os buracos do corpo, terei de voltar a contar carneiros, - disse desgostosa ao padre, em confissão, a Lucinda Careca.

Mas elas não sabiam nem da missa a metade, o Conan Vargas soletrara a notícia, após ter alugado um T0 no Pimenta à Olivia Palito, das implicações sexuais dos doentes pós-Covid.

- Não é um vírus chinês rafeiro que irá proibir-me de continuar a cobrir as fêmeas desta vila-Estado encantada, - gritou com raiva no urinol do Manuel da Leitaria, ao mesmo tempo que reparava que o jato de urina acabara de acertar nos sapatos.

A Branca de Neve acabara de entregar no Ministério Público uma providência cautelar a exigir toda a verdade, “quanto do ímpeto cobricional do Conan Vargas, um bem imaterial da Humanidade fêmea, fora perdido para o vírus chinês”?

- A minha saúde mental está em risco, - exclamou a Bezelina limpando o ranho ao canto do olho, - passei a ter pesadelos.

E contou que o Conan já não lhe aparecia em sonhos a dar “8 de seguida sem ver a luz do sol”, contando com as mijas, mas sim duas de seguida, a contar com a mudança da fralda. Mas havia mais sintomas graves:

- Ainda estás a dormir? – Perguntou desesperado ao acordar quando reparou que já não tinha tesão de mijo.

E a Tita dos Pés Sujos foi mais longe, apresentou queixa no Comando Geral da PSP, atirando as culpas do avental da scooter do para cima da autoridade:

- A única verdade é que os chuis não querem deixá-lo andar de cabecinha ao léu para alegria das coninhas, as fãs do Conan Vargas, e tudo por inveja, dando como desculpa esfarrapada uma gripezinha chinesa!

Foi por isso marcada, no elegante bairro do Jota Pimenta, uma manifestação de desagravo ao cobridor da vila, exigindo o fim da “capinha foleira que tapava os colhões e as perninhas”, e o regresso ao Conan Vargas original. Mal elas sabiam que o John Holmes da Costa do Estoril já urinava sentado para não manchar os sapatos, acordava sem sentir a corneta e já só via o sol !

13
Jan21

5ª Temporada - O Regresso do Conan (14)


Comandante Guélas

Conan Vargas Aguarela.jpg

14

O Choné, um dos últimos humanistas de Paço de Arcos, estava preocupado com o Conan Vargas, por isso enviou-lhe um pdf da Playboy, sem se aperceber dos riscos que a vila corria. Com o seu ato irrefletido arriscava-se a transformar o maior cobridor da vila, bem imaterial da Costa do Estoril, num onanista incontrolável, que trocaria o acelerador da sua TMax pelo pescoço do seu frango, e isso era uma heresia para o Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR), dirigido pelo implacável Proveta, que andava desaparecido, depois do jantar de natal. O Querido Líder mandou, para o bem da nação, suspender a conta do careca coxo. O bicho ia fazendo o seu caminho, o Focas também já não conseguia sentir os seus flatos, por isso o condomínio ressentia-se, enquanto o Conan queixava-se de uma dor no peito que lhe dificultava a respiração, tudo isto porque insistia em ter a ovelha por cima a cavalgar-lhe o frango. Se tivesse seguido o conselho emitido pelo governo de New South Wales, na Austrália, de “masturbação mútua” bastava pôr a Franginhas de lado. Em fuga do Cociolo andava o misericordioso chinês com um passado alcoólico, perdão, acólito, a inteirar-se da saúde dos amigos e futuros clientes:

- Está a olhar pelo rebanho, - comentou o Orlando em confinamento numa bancada de padel.

- A mim tu não fritas, - disse-lhe o Neto. – Já estou a sentir-me melhor!

O primeiro sinal da boa-nova veio quando o Doutor Professor Ánhuca, do Centro de Estudos João da Quinta, estimou que, desde que o homem era sapiens, tinham já nascido 108 biliões de pessoas, conta esta validada pelo Professor Coelho, mas só uma chegara ao livro de Ciências Naturais da vila-Estado de Paço de Arcos: Conan Vargas! Por isso a notícia do seu iminente regresso estava a deixar as fêmeas nervosas, e ainda por cima geometricamente alimentadas pelo artigo científico que dizia que o pénis dos infetados ficava maior após a saída do bicho.

- Vamos fazer uma procissão de agradecimento, - propôs a Espirro de Punheta.

Mas a notícia porque todas esperavam veio pela boca do Orlando:

- O Vargas já tem alta! – E tossiu para cima do Chinoca, que fizera uma visita comercial de cortesia ao seu saudoso amigo muito estimado. E disse mais:

- Regressará numa noite de nevoeiro na Praia Velha com um blusão Hardley Davidson com 560 cm3, 215 Kg de músculo e 48 cavalos de sexo.

O “Grupo das Amantes do Conan” (Espirro de Punheta, Sapo, Baleia Azul, Aninhas Carro Elétrico, Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, Olívia Palito, Sóni, Lucinda Careca, Odete Estica, Crespa, Branca de Neve, Espia Feia, Bezelina, Tita dos Pés Sujos) correu para a praia, todas queriam estar perto do repuxo, o local que mais lhes fazia lembrar o herói.

Fim da 5ª Temporada

 

07
Jan21

5ª Temporada - A Peste de Natal (13)


Comandante Guélas

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13 

Portugal teve o terramoto de 1755, Paço de Arcos a orgia natalícia de 2020. Quando o Focas tossiu no jantar de natal para disfarçar o som de um flato, barulho  inadmissível no restaurante da Nova School of Business and Economics, não imaginava que acabara de abrir a Caixa de pandora, e soltara o bicho de Wuhan que havia em si.

 

Uns dias depois, algures no Alentejo profundo, o Conan abriu o olho esquerdo na Pensão Moreira em Beja e sentiu um frio, não na espinha, mas nos entrefolhos. Pensou na manhã alucinante do dia anterior em que fora estuprado a 200 metros de altitude, na altura em que atravessava uma nuvem, não pela Mulher Maravilha, mas sim pelo Carlão dos Ares, sem contar com o abalroamento que sofrera em Mértola, quando um camião carregadinho de cabras lhe entrou pela retaguarda, sem preliminares, tendo tido muita dificuldade em tirar o cobridor que se colara nas suas cuecas tipo carrapato. Tentou apertar a cobra, mas só encontrou uma lagartixa.

- Maldito Focas! – Gritou furioso este ar-tesão pertencente a um coletivo de fêmeas.

O Conan Vargas, o paçoarcoense que se gabava de dar “8 de seguida sem ver a luz do Sol”, acabara de perder o tesão do mijo. Deu um peido do feijão da noite anterior e não sentiu o cheiro.

- Maldito Focas!

Noutro ponto do país uma enfermeira enfiou um cotonete pelo nariz de um asiático, um paçoarcoense habituado a afiambrar num capitão e não a ser afiambrado, e apercebeu-se de imediato da gravidade da situação, a cabecinha que entrara branca saia agora verde e pestilenta. Ligou de imediato para o chefe da segurança da vila, o senhor Cociolo:

- O chinês está com as 7 pragas do Egipto!

Mas já havia dois paçoarcoenses com as malas à porta, o Orlando e o Neto, um desterrado para uma masmorra, o outro para as galés. Os restantes estavam caladinhos, tinham-se evaporado no éter. A crise sanitária na vila ia-se alastrando como nevoeiro pela costa, por isso o Comandante Guélas deu plenos poderes ao Cociolo nomeando-o o marquês de pombal de Paço de Arcos, que ordenou a prisão do Chinoca:

- Quem o vir amarre-o a uma árvore que eu vou lá busca-lo!

O inspetor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta também já estava a cheirar o terreno, à procura de vestígios do bicho chinês, mas só encontrava o odor típico da zona:

- Mas que cheiro a kona!

Entretanto um empresário ligado á saúde, o Dr. Pierre Pomme-de-Terre, com vasto currículo de epidemiologista brasileiro, prometia teste imediatos ao bicho, um dia depois do espirro do Focas, e não seis como determinavam os “especialistas de aviário”, não tinha mãos a medir, todos os presentes no jantar de Natal faziam fila à porta do seu consultório, na antiga roulotte de bifanas do Mocho e do Bajoulo, agora transformada na Clínica PUF. E por mais 50% do preço, uma promoção especial para amigos, garantia a negatividade no resultado. Mas houve um dos velhos que ficou traumatizado:

- Passados mais de 40 anos tenho que enfrentar de novo o trauma dos testes negativos! – Lamentou-se o Caveirinha.

O Chinês fugitivo não largava a porta da sua churrasqueira em Barcarena, o negócio ia de vento em popa, até já comprara um lancha chamas a um árabe, com a condição de não se fazer explodir junto ao seu estabelecimento. A positiva do Conan, única na sua vida académica, alertou o Marreco para a necessidade de ir gastar uns euros à Clínica PUF.

- O meu irmão bem me disse que as amizades iam-me custar caro!

A fita do tempo foi entregue pelo inspetor no gabinete do Cociolo:

 

“O Focas teve necessidade de soltar um gás, por isso disfarçou com uma tosse para a esquerda, que apanhou o Neto distraído, e com outra para a direita, que conspurcou o Chinoca, ricocheteou e caiu no bife do Orlando. Este no final do jantar fez uma visita de cortesia à mesa do Conan e deixou-lhe uma recordação de Wuhan, um perdigoto à entrada do nariz. Bastou um arroto para dividir o bicho com o Marreco e o Páni”.    

 

29
Dez20

5ª Temporada - O Eclipse (12)


Comandante Guélas

 

Tolas Monas 1.jpg

12

No dia da homenagem aos homens da bola deu-se um novo milagre, um eclipse na praia velha, fenómeno que foi de novo oficialmente atribuído aos poderes sobrenaturais do Comandante Guélas, mas que teve uma mãozinha de um jovem promissor gordo de óculos, Tino para os amigos, Isaltino para o Querido Líder, que se revia no petiz e lhe prometia um futuro radioso como Comandante Guélas II, o Papoila Saltitante. Para isso o Tino contratara o Tolas Monas para passar junto da Praia Velha no seu Austin Healey na altura do Ocaso do Sol. Quando a fabulosa cabeça, digna de subir ao palco no espetáculo anual da Feira de Nosso Senhor dos Navegantes de Miss Eunízia, Misionisia para os mais íntimos que, segundo o seu agente Pierre Pomme-de-Terre, se alimentava de coelhos vivos de quinze em quinze dias, e  que nas noites de Lua Cheia se transformava na “Mulher Cabeça”, e nas de Quarto Minguante em “Mulher Serpente, tapou o Astro-Rei, uma assustadora sombra projetou-se sobre o areal, ouvindo-se um grito assustador:

- Vêm aí os comunistas!

- Calma, calma, é só fumaça, - gritou o jovem Tino, estrategicamente colocado no telhado da barraca dos gelados.

E foi sombra de pouca duração. Meio minuto depois o Tolas Monas arrancou no seu IF-82-28 e o Sol radioso aqueceu de novo os corações dos paçoarcoenses.

- Que se inicie a festa da bola, - ordenou o Luís de Espanha, futuro sobrinho do Papoila Saltitante.   

Portugal tinha o Eusébio, Paço de Arcos o Pingamissú. Ambos tinham vindo de África, o preto viera comer marisco, tremoços, o branco levara cartão vermelho, e era agora recebido na Portela pelo Preto, sinal de que o Comandante Guélas escrevia sempre direito por linhas tortas. O Pingamissú depressa se revelou um mestre artístico e espiritual na arte de dominar as bolas, era um orgulhoso e inspirado futebolista autodidata, que estagiava sempre nas Termas dos Cucos, perto de Torres Vedras. A dona Maria dos Prazeres, senhora de um conhecimento profundo da estância, ainda se lembrava da jovem promessa do Futebol P.A.:

- Vinha para aqui gente de todo o lado e não havia ninguém que não saísse melhor do que quando entrava, excepto esse jogador mítico da Costa do Estoril, - disse um dia, com uma voz embargada pela emoção.

Era a tristeza de uma septuagenária a quem lhe fora retirado um bem imaterial para a sua vida. Dizia a biografia oficial que o Pingamissú nascera algures no século XX, em Maquela do Zombo, e emigrou aos 10 anos para a ilha do Cabo, em Luanda, onde deu nas vistas um dia no mundo futebolístico da zona, dominando os cocos como ninguém. Para quem nunca acreditou nas qualidades deste jogador mestiço da Tapada do mocho, nenhuma palavra bastava; e para quem acreditava, como o Milhas, nenhuma palavra era necessária. Quando todos pensavam que o francês Jacome Ratton era um antepassado do jogador de chuteiras verde alface, com genética aborrígene, eis que a verdade foi revelada, o parente afinal era o Pingamissú. O segredo dos autogolos do Bill, um jogador com sangue numídio, estava no treino, porque só o fazia em ambiente pinus canariensis, por isso o Milhas, com genética berbere, nunca aceitava essa libertinagem futebolística do colega de partido da mulher:

- Vê lá se marcas na baliza certa, - gritava o dono do Sinai, um canis tufu constanti, lançando brados estridentes, numa orgia de infelicidade. – Porque é que eu vim para o Lagoas Parque?

19
Dez20

5ª Temporada - O Porco Chileno (11)


Comandante Guélas

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11

 - Ouçam com atenção! Preparem-se! Alinhem-se! Sejam rápidos! – Gritou o Milhas para a equipa “Restaurante os Arcos”, patrocinada pelo pai da sua musa Huga Huga Lagosta.

- Sim! – Responderam os amigos em coro.

- E tu és o míster, tens prática em lidar com adolescentes, - disse, apontando para o Capitão Porão.

Foi num campo impróprio até para a plantação de tubérculos que o Porco Chileno deu nas vistas neste embrião do Futebol PA. Eram 11H30 quando o treinador deu início ao trabalhos marcados para as 8H30, de uma equipa que iria ficar para sempre na memória coletiva do Torneio de Futebol de Salão do Jota Pimenta, cujas redes foram defendidas pelo lendário Daniel Martins de Almeida que, no primeiro jogo, fez greve após o décimo golo sofrido, pois 2 dos 5 jogadores ainda continuavam a beber bejecas no balcão do café, virando-se de costas, altura em que executou três das mais fabulosas defesas de todos os tempos, fazendo inveja ao Yashin comuna, tendo sido advertido pelo árbitro de que as regras não permitiam estar nessa posição. O “Restaurante os Arcos” não tinha culpa de ter um guarda redes com menos dioptrias no olho do cu. E foi também neste torneio que o Chinoca, o Son paçoarcoense, fintou as regras que proibiam a bola de subir para além da altura do joelho, ao fazer bater o esférico no teto do pavilhão Desportivo de Paço de Arcos. O campo de treinos, além de lavrado, tinha uma inclinação de 80º, precipitava-se em direção às Pias da Terrugem de Cima, onde a Quitéria lavava a roupa e a patareca, por isso o míster Porão trazia um treino adaptado às circunstâncias, desenhado com linhas coloridas numa folha A4, presa a uma capa em pele de jacaré preto, um fetiche que este capitão da 5ª divisão trouxera de Cabinda.

- Eu quero empenho, dei a cara por vocês, - pediu o Milhas já com as sobrancelhas oblíquas devido ao início tardio do treino. – Temos de fazer boa figura no torneio.

No treino ainda faltava um elemento, o Caveirinha, e o magnata tornou a lamentar-se:

- Porque é que eu vim para este mundo?

Mas os céus estavam com o Constante, e puseram no caminho dos atletas um sobrinho da Ofélia, um jovem gordinho e atarracado, que foi interceptado pelo Focas:

- Jovem, queres ter futuro na bola?

- Eu tenho de ir almoçar, a minha tia espera-me!

- Treinas primeiro, e ficas com um apetite de leão.

- Mas eu não posso.

Não teve tempo para dizer mais nada, o míster Capitão Porão deu ordens para iniciarem o treino, um jogo formal num campo lavrado e com uma inclinação de 80º. O Focas deu um biqueiro na bola, e ela desapareceu pela colina abaixo, dando de imediato ordens ao estrangeiro:

- Corre Porco Chileno!

O sobrinho da professora de português do Liceu Nacional de Oeiras  sprintou lá para os lados das Pias da Terrugem de Cima, atrás de um esférico e nunca mais apareceu. O Futebol PA acabara de perder o seu Maradona e nem se apercebera. Foi o treino mais rápido de toda a história futebolística da Costa do Estoril, e o único da equipa sensação do Torneio de Futebol de Salão do Jota Pimenta.

28
Nov20

5ª Temporada - Escaras Vermelhas (10)


Comandante Guélas

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10

O Bill tinha dois desejos, visitar o mausoléu do Lenine na Praça Vermelha e o quarto onde Jacinta passara 12 dias (21 de janeiro a 2 de fevereiro), no Mosteiro do Imaculado Coração de Maria das irmãs Clarissas, antes de ter sido internada durante 18 dias no Hospital Dona Estefânia, onde faleceu. Para ele este era o local onde sentia mais de perto o amor da sua vida, a Lúcia, que tantas vezes lhe vinha à memória quando lia uma “Gina”. O estranho fetiche de uma “menage à trois” com o ateísmo e a religião atormentava-o desde o 25 de abril, por isso pensamentos destes faziam parte do Índex do Comandante Guélas, que os classificava como “Escaras Vermelhas”, que tinham de ser erradicadas da superfície da vila no Campo de Reeducação dr. Ánhuca na Terrugem de Cima. Estava o Bill perdido em pensamentos libidinosos com a pastora quando alguém lhe tocou nas costas:

- Já casou?

Virou-se e deu de caras com o poeta Henrique, não o Castanho, mas o da Rebelva:

- Sim, - respondeu.

O artista riu-se feliz e exclamou:

- Teve sota!

E entrou no quartel da Medrosa:

- Ó amiga! Tem bivaque?

Como bom comunista este encontro era uma boa ocasião para ser visto lá de cima pelo Vladimir e a Jacinta, para que intercedessem por ele em Paço de Arcos, pondo no seu caminho outra pastora, mas de santolas, a Tita dos Pés Sujos.

- Ó Henrique, queres vir comer ao Arvoredo? – Perguntou.

O poeta voltou para trás e gritou:

- Ó pipi toma lá grão. Aí ó gaba lazão!

O Bill conseguiu resistir à tentação do diabo, que a maioria não conseguia, de juntar ao leite do convidado um copo de bagaço. Como forma de agradecimento o Henrique, não o Castanho, mas o da Rebelva, fez um estalinho com um indicador na boca e simulou dar um soco no comunista amigo.  Estavam calmamente a comer uma torrada, quando entrou no café a Odete Estica e o marido que, ao ver o poeta, saudou-o com um dois dedos em “v,” e o nariz no meio:

- Não vais ao cinema, tens as calças rotas!

As torradas voaram, uma côdea entrou com violência no decote da Branca de Neve, o Henrique, não o Castanho, mas o da Rebelva levantou-se com ódio, deu um grito profundo, “carau, carau”, seguido de uma cabeçada na parede, junto ao wc onde defecava descontraidamente o Ben-Hur, que caiu assustado com o cagalhão a meia-haste, que se partiu em dois, um rebolou para trás da porta e o outro ficou espalmado numa nádega. Mais tarde a parte intacta iria colar a porta à parede quando do fecho do estabelecimento comercial durante a ronda do Manel Coxo. Mal ele sabia que no outro cagatório a cena se repetiria, não com uma metade, mas sim com um chourição que o Focas fizera questão de arrear naquele local.

- Outro!!?? – Gritou, desafiando todas as razoabilidades.

O café “Arvoredo” arriscava-se a fazer frente ao Chalé da Merda! O ritual com o Manecas Marreco, que vendia a lotaria numa cadeira de rodas, era sempre respeitada: Os clientes após comprarem a fração, roçavam o bilhete na marreca para dar sorte. No Cine-Teatro de Paço de Arcos a tradição mantinha-se, a seguir a um filme indiano rodava sempre uma produção da propaganda paçoarcoense, desta vez com o título “Alice no país das maravilhas”, que contava a estória do retornado Alice, o único que não fora desterrado para a Tapada do Mocho por ser o irmão adotado do Jorginho, e que trouxera um caixote de África, não com móveis, mas carregadinho de erva, cujo produto mudou para sempre a maravilhosa vila-Estado de Paço de Arcos, despertando para a vida muitos adolescentes promissores: Tubarão, Pingalim, Balatuca, Taka Takata, Grilo, Janeca, Ponto de Interrogação, entre muitos outros, que fundaram os “Vencidos da Erva”, e declararam o Céu de Paço de Arcos o mais alto da Costa do Estoril. Junto com o Alice contracenava o Chapeleiro Louco, um fabuloso desempenho do Chora na Penca, a que se seguia a Rainha da Copa, com a inesquecível Tita dos Pés Sujos na cozinha do pai Xantola. Havia quem dissesse que o Alice era a reencarnação do Desejado, um maluco da vila chamado Sebastião que um dia resolvera ir dar porrada aos queques da avenida de Roma e não voltara, criando o mito de que só regressaria numa noite de nevoeiro na Praia Velha. Por isso muitos passaram a alimentar-se somente de sumo de uva e erva do Alice. Mas o único que chorava sempre de cada vez que via a peça era o Milhas!

23
Nov20

5ª Temporada - O Milagre (9)


Comandante Guélas

Bar Cú à Vela.jpg

9

Estava a irmã do Quim a ser lambida pelo magala 369 do quartel da vila, em cima duma pia na Terrugem de Cima, quando são interrompidos por uma gritaria:

- Milagre, milagre, mas desta vez não está em cima de uma azinheira!

Voltou-se para trás e viu três vultos ajoelhados, o Ánhuca, o Bill e o Zé dos Porquinhos. O rapaz do meio tinha sido mandatado pelo Fé, o Edmar e o Manel Anarca do Comité Central de Porto Salvo para explicar à rapaziada as vantagens duma cooperativa na zona:

- As ovelhas não são tuas, pertencem ao povo.

- Ao povo?

- Sim, mas continuas a poder montar na Franjinhas!

- E tu?

- Eu também poderei.

- Mas a Franjinhas é minha, e eu não sei onde andas a meter a gaita.

- Não, a Franjinhas passa a ser do povo!

- Do povo??? - Indignou-se o Ánhuca. – A Franjinhas é minha e só minha!

- E os teu porcos Zé?

- Os meus porcos o quê?

- Não queres entrega-los à cooperativa?

Mas um “ai” mais sonoro da Anita Carapita Carapau Sardinha Frita chamou à atenção os imberbes, e o que viram estava desfocado, mas dava para perceber que era uma mulher de branco sentada numa pia. O inquérito foi entregue ao general Bidon, agora no papel de bispo, gordo como uma porca parideira, pele engordurada, pescoço avolumado pelas alheiras, seios salientes sobre a batina. A biodiversidade de Paço de Arcos causava inveja em toda a Costa do Estoril burguesa. Mas o que estava na memória de todos era o casamento real entre a Quitéria e o Craveiro Lopes:

- Idade da senhora Quitéria da Conceição? – Perguntou o padre.

- Quarenta e sete anos, - respondeu baixinho ajeitando os sapatos brancos e bicudos nos pés já doridos.

Um fragmento do passado iluminou-lhe as memórias do dia em que chegou à sua barraca na Terrugem de Cima aflita dos pés, e pediu ajuda ao futuro marido, que se prontificou de imediato a ajudá-la, trazendo um alguidar, onde ela colocou os pés, e ele uma panela de água a ferver. Teve um desejo impossível de voltar à infância, mas já não tinha fé, nem crença, apenas atividade.

Nascera em Paço de Arcos em 1924.

- Idade do senhor António Filipe?

O rosto do Filipe estava imobilizado, os olhos estavam fixos, de um modo vago, na Cruz pendurada na parede à sua frente. Durante alguns segundos permaneceu assim, imóvel. Até que um velho com a impaciência apoiada numa bengala disse:

- Craveiro Lopes!

Todos riram. O noivo começou a mover-se um pouco, estalou os lábios, e os olhos deslocaram-se para o local de onde tinha saído o grito. O rosto não tinha qualquer expressão. A noiva deu-lhe um puxão com o braço. Ficara com alcunha de presidente, pois este um dia visitara a vila e ambos estavam vestidos com fatos irrepreensíveis e ostentavam formosos bigodes, que levou o visitante, para desanuviar o clima, a dizer que tinha à sua frente o seu irmão gémeo. Multiplicaram-se os ruídos: tosses, passos, espirros, respirações, zumbidos. Filipe era um homem tão carismático quanto invulgar, com uma solidão sem alívio, a lidar com a sua culpa e o ódio aos outros.

 - O senhor é natural de Aveiro? – Perguntou o padre, trazendo-o de novo à realidade.

- Aveiro, Requeixo, 1918.

- Eu vos declaro marido e mulher, - disse o padre, aproximando os braços elevados para a assistência, fundindo aquelas almas uma na outra, numa união tão absoluta que apagou a sutura que as juntou.

Ao entardecer a vizinha Natividade, outra das suas musas, foi-lhe levar um presente, uma caixinha de bolinhas de chocolate. Riu-se e agradeceu:

- Um dia ainda hás-de ser minha, - respondeu, tentando agarrá-la, sinal de que não conseguia controlar as emoções e as paixões.

Mas a moça fugiu. Quando Filipe trincou o primeiro doce, apercebeu-se que o pasteleiro tinha sido o Ánhuca, mais precisamente uma das suas ovelhas. Saiu irritado de casa e atirou com raiva a caixa à porta da sua outra paixão, chamando-lhe nomes feios e prometendo coisas horríveis. Craveiro Lopes era um homem bem parecido, mas andava desgrenhado, mal pronto, mal lavado, que vagueava sem eira nem beira, dormia em qualquer lugar, como se tivesse um contacto muito ténue com o mundo dos vivos. E no Santo António de 1983, 13 de junho, deu-se novo milagre, o Milhas ganhou na Lotaria e gritou:

- Porque é que eu vim para este mundo? – E deixou crescer a barba.

No Pontão PA a rapaziada gritava para o Nevoeiras:

- Radar acusa!

- Acusa vento norte, - e dizia adeus aos emberbes.

Atrás dele seguia o Edmar no seu “Couraçado Potemkim” e o Pau Preto no “Caraucarau”, restos da frota social-fascista do sul, derrotada pela Invencível Armada do Comandante Guélas, o Querido Líder de Paço de Arcos, cujo navio almirante era o lendário “Carapau Cocciolo”. No cine-teatro de Paço de Arcos havia lugares reservados na primeira fila para os intelectuais da vila, o Henrique da Rebelva, o Charlot e a Lucinda Careca, mãe do Álhi. A sessão de esclarecimento era da responsabilidade do Marques Capitão, mais conhecido por Eu Sei Tudo, que iria explicar à rapaziada as virtudes do novo regime:

- Acabou-se a comunistada, o Bill não virá para aqui de novo gritar “a terra a quem a trabalha, o mar a quem o navega”. Estou aqui para responder a todas as vossas perguntas com honestidade. O Nequinhas levantou de imediato o braço e foi autorizado a formular a pergunta:

- Ora dá-me aí a chave do Totobola da próxima semana!

15
Nov20

5ª Temporada - O Leproso (8)


Comandante Guélas

Hoquei PA.jpg

8

A biodiversidade de Paço de Arcos causava inveja em todos os territórios vizinhos. O Fininho encontrava-se na extraordinária posição de ter visto mais da munificente fauna paçoarcoense do que qualquer outra pessoa, numa carreira que começara muito antes da Era do Biloceno, período de instabilidade política.  Por isso o Comandante Guélas de cada vez que discursava sabia que se dirigia a um povo mitológico que, unido em torno de uma causa, faria o que era preciso para alterar o curso dos acontecimentos. Era por isso que o irmão padre do Sarapito dizia que Deus só podia ter encarnado num paçoarcoense. Ainda o Banksy andava a saltar de colhão em colhão, e já existia o Bajoulo, a cevada era a sua musa inspiradora, a Titas dos Pés Sujos a razão da sua poesia:

 

Numa noite de copos

Com o meu chouriço rijo

O teu nome escrevi

Com um jato de mijo.

 

A notícia do dia correu velozmente pela vila-Estado, o Cociolo não estava infetado com “gonorreia” como se temera, mas tinha somente lepra, por isso merecia uma condecoração, “Grande Oficial da Ceroula Cagada”, por proporcionar a Paço de Arcos a exclusividade de ter o único leproso da Costa do Estoril. Iria fazer parte da agenda cultural de Miss Eunízia na Feira de verão, que dispensara a mulher cobra e exibia agora cartazes do “Homem Mamalhudo”, uma obra prima do  Cinzento, que o assistira durante uma partida do Futebol PA, em que torceu um pé, e ganhou um par de mamas, o único material médico que o doutor tinha na mota.

- Não costumo andar com ligaduras, essas próteses vão-te fazer esquecer o entorse.

O “Homem Mamalhudo”, de seu nome Dic, apresentava-se como descendente bastardo da Brites de Almeida, que engravidara o seu penta avô por o ter confundido com um castelhano. A violadora tinha seis dedos em cada mão, e ele herdara, devido à lotaria genética, três colhões, que o prejudicavam no jogo da bola. Uma manifestação na Avenida apanhou de surpresa as autoridades, e o próprio Bill, agora do lado dos vencedores. Os comunas que ainda restavam, Titó, Balacó, Canocha tinham ousado fazer uma manifestação solidária com o leproso:

- Cociolo para a Sibéria, já! – Gritou uma tal Ana Gomes, adolescente de género indefinido, com um bigode maior que o Arnaldo, sovacões burgueses, e uma boca de fazer inveja a muitas das empresárias do Pimenta.

Por isso o Pilas quando a viu na entrada da marginal perguntou-lhe:

- Ó puta quanto é o broche?

O que a indignou:

- Ó rapazinho, os seus pais não lhe deram educação?

Ao que o imberbe emendou, corado:

- Ó senhora puta, quanto é o senhor broche?

Já não bastava os social-fascistas terem enviado para a URSS todo o arquivo da PIDE, principalmente a lista com os nomes dos bufos, que serviu para edificar uma lista parlamentar, as “Marionetas do Barreirinhas”, queriam agora privar a vila-Estado de Paço de Arcos do seu diamante. Miss Mízia, e uma torrente de reações indignadas, pediu ação firme contra a escumalha:

- Despedi a “Mulher Cobra”, e agora querem tirar-me o leproso com a adolescência mais complicada? O Texas tem os poços, nós temos o Cociolo!

A produção do material de tortura foi aumentada, o Bajoulo e o Ánhuca não tinham mãos a medir, no veste-aguenta-despe de cuecas e meias, e a qualidade do produto ressentiu-se.

- Para a tortura ser eficaz umas cuecas do Bajoulo têm de estar pelo menos uma semana a marinar, e não um dia como agora, - explicou o Cientista Maluco à “Voz de Paço de Arcos”, dirigida pelo Sete Escadas.

A tensão agravou-se, os operários da Couraça juntaram-se aos da Jomarte e solidarizaram-se com o Leproso, o Bill não sabia em que equipa jogar, e o Querido Líder chamou ao alto da vila o temível tenente Proveta, que ameaçou com o Estado de Urgência, e ordenou o enchimento de sacos de pulgas do mar, não para serem largadas no comboio como do costume, mas sim como bombas biológicas sobre os vermelhos, que ousavam desafiar o poder do Comandante Guélas. A distribuição de condecorações encheu o peito dos fiéis, a “Brigada do Pneumático” cerrou fileiras em torno do regime democrático do Querido Líder: Grã Cruz da Praia Velha; Grande Oficial da Ceroula Cagada; Comenda de Mérito Desportivo Grande oficial das Fontainhas e do Oficial Morto; Comenda de Mérito de Feitos Militares, Grande Oficial da Couraça; Grande Colar da Ordem do Bugio; Comenda de Mérito Literário Grande Oficial Avô Leão; Ordem do Chalé da Merda e Espada; Comenda de Mérito Científico Grande Oficial do Marginalíssimo.

31
Out20

5ª Temporada - Ractus Caninus Velhacus (7)


Comandante Guélas

 

Rato.jpg

7

O pânico estava instalado, na vila-Estado de Paço de Arcos tinha sido declarado o Estado de Sentado, por isso só se podia beber Sumol de Laranja, e à mesa. As palavras do cartaz pendurado no Coreto da Avenida, o Centro do País, eram ameaçadoras para o regime: QUAES CUNQUE FINDIT! E a primeira intervenção do Superintendente Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta, “mas que cheiro a kona”, assustara o povo. Foram feitas detenções, o Comandante Guélas assinou uma resma de folhas A4, e a caça ao comuna foi imediata. O primeiro interrogatório, que decorreu no Chalé da Merda, envolveu o principal suspeito, o Bill, que passara de revolucionário a reacionário num abrir e fechar de olhos. A sessão ficou a cargo do astuto Chefe Bigodes, que no passado conduzira um acutilante interrogatório ao terrorista do MIRN, o fascista Carlos Ponta.

- Nome? – E esfregou-lhe as cuecas do Bajoulo na cabeça.

- Tóni Álvaro Jerónimo Barreirinhas Eufémia Canocha de Baleizão Silva Bilrero.

- Profissão?

- Conde Avante da Atalaia.

- Conde? Isso não é profissão!

- Faço foices e martelos!

- Onde estava ontem à noite? – E balançou uma meia do Ánhuca em frente do meliante.

- No cinema!

- E o que foi lá fazer? – Perguntou a raposa do deserto com um ar triunfante, sabendo que a verdade vinha aí, custasse o que custasse, já não tinha argumentos, o meliante iria confessar o crime.

Um muro de silêncio abateu-se sobre o prisioneiro, o ambiente era tenso, várias argolas de fumo foram atiradas com raiva sobre o conde, que temia agora pela sua saúde, principalmente a do cu, que continuava a ser do povo, o Querido Líder mantivera legal esta lei comunista. Abriu a boca, mas não saiu nenhum som.

- O que foi fazer ao cinema, senhor Tóni Álvaro Jerónimo Barreirinhas Eufémia Canocha de Baleizão Silva Bilrero, Conde Avante da Atalaia, fazedor de foices e martelos? – Gritou o Chefe Bigodes, especialista em conduzir interrogatórios a social-fascistas, esfregando as duas peças íntimas na cara do prisioneiro. – Fique sabendo que eu como criancinhas comunistas ao pequeno-almoço!

- Fui ver um filme! – Confessou o conde, sinal de que já não aguentava a pressão, com a língua salivada.

- Ok, pode ir!

A investigação estava num impasse, do alto da vila o Comandante Guélas, Querido Líder de Paço de Arcos, ameaçava arrasar com o sul, torna-lo terra queimada. Do Superintendente só se ouvia “mas que cheiro a kona”, à medida que cheirava todos os cantos da vila-Estado. A resma de papéis com assinaturas em branco esgotou-se rapidamente, a população refugiou-se em casa. Até que o curso da operação levou um empurrão:

- Eu viu-o na penumbra quando estava a trabalhar na cave do Coreto, - disse a Dra. Espirro de Punheta, título académico ganho à conta das passagens administrativas da revolução de abril, por ela e pelo namorado da altura, o Pateta Alegre, que costumava papar as criadas do pai.

- Pode descrever o terrorista?

- Do meu tamanho, mas largo!

Foi de imediato feito um retrato robot e distribuído pelo reino do Comandante Guélas. Doze horas depois os filhos do Manelinho da Carroça entregaram um vizinho que condizia com a descrição, “do tamanho da Dra. Espirro de Punheta, mas mais largo”.

- Juro que não fiz nada, eu sou um paçoarcoense cumpridor, - gritava em desespero o Biblot.

Quando a testemunha foi colocada ao lado do suspeito, repararam que ele era ainda mais pequeno.

- Eu disse do meu tamanho, e mais largo. E lembrei-me que ele fazia mortais à frente no Pavilhão Desportivo nos saraus de ginástica. E tinha uma cauda!

- Uma cauda?

Quando o retrato robot de um cidadão paçoarcoense com cauda foi tornado público, ninguém teve dúvidas, todos entregaram o Rato às autoridades. Foi detido na sua nova loja, a “Ratatouille Clé”, denunciado pelo sócio Pierre Pomme-de-Terre, que lhe prometeu solidariedade:

- Vai descansado para a prisão que eu tomo conta do negócio!

Tudo foi esclarecido no Manuel da Leitaria, a cadeia principal do regime. O senhor Rato fizera publicidade à sua loja, e como andava a estudar latim, uma forma de esconder informação sigilosa do seu sócio, ao investigar “Ve-Re-Dic-To” descobriu o “Quas Cunque Findit”, que queria dizer “seja o que for abrimos”!  E quis dar um toque de modernidade à vila na publicidade do estabelecimento.

Mas os acontecimentos não paravam de pôr à prova o governo do Comandante Guélas: suspeitava-se agora que o Cuciolo tinha sido infetado com "Gnorreia" numa obra! E ainda por cima o médico da vila-Estado, o Dr. Cinzento, estava em parte incerta, como já era tradição. 

 

29
Out20

5ª Temporada - O Chefe da Praia (6)


Comandante Guélas

Bill.jpg

 

6

Quando a notícia chegou aos ouvidos do Comandante Guélas, o Querido Líder deixou escapar uma lágrima, e mandou pôr a bandeira da praia de Paço de Arcos, incluindo a azul, a de aviso de cagalhão, a meia haste.

- A morte dum Chefe de Praia é sempre um acontecimento doloroso da vila-Estado!

O Sarapito ajoelhou-se no passeio virado, sem saber, para Meca, e esmagou com a patela direita um croquete do Sinai, o cão do Milhas, o único animal da vila com um tufo no olho esquerdo, e chorou:

- Um bom homem, treinador das escolas de hóquei do Estado, casado com a praia de paço de Arcos, da qual tinha as chaves do cinto de castidade.

Lembrou-se que durante a tropa o Chefe da Praia tinha sido feito prisioneiro pelos turras, e tornou a chorar:

- Foi onde perdeu os três!

Mas quem sabia toda esta desgraça da prisão era o Luís de Espanha, o 007 da vila-Estado, cargo que lhe fora atribuído pelo primeiro-Ministro e tio, o Isaltino, agora marquês do pombal do João da Quinta, onde o Todo Boneco costumava cagar, e o Bugio comer os feijões pretos descartados.

- Foi durante uma ronda, - e fungou de emoção. – Tinha um protocolo com os guardas fronteiriços do Congo, que o deixavam ir beber uns copos com os amigos ao estrangeiro, acordo este que era biunívoco.

Mas um dia um futuro militar de abril, o que costumava usar um fundo de garrafa a fazer de monóculo, o equivalente ao general Ánhuca do TSOR, Tribunal do Santo ofício da RIAPA, República Independente do Alto de Paço de Arcos, que anexou o sul comunista, dominado pelo Bill e escumalha da foice e do martelo, resolveu dar um "Peido à Focas" nas matas da Guiné, que ecoou pelos coqueiros, assustando a macacada, levando ao fecho imediato de todas as fronteiras das sanzalas. O Chefe da Praia de Paço de Arcos estava no local errado e na hora errada, a comer amendoins e a beber umas imperiais, com as chaves no bolso. Foram arrecadados, e o herói da vila teve como carcereiro um capitão porão lá da zona, o Dembão, o bilas abafador da mata. Para que a praia continuasse a bombar, o Pirolito foi nomeado porteiro interino, e o comunista Bill proibido de cagar nela, por apoiar o Dembão e seus macacos:

- Nem mais um soldado para África! – Gritou em represália no cais da estação de paço de Arcos, quando sentiu a trepidação do rápido Lisboa-Cascais, aquele que dividiu em dois o primo surdo-mudo do João da Quinta que, usando a mesma lógica de utilizar a moeda de 5 escudos diretamente na ranhura do carrinho de choque, em vez de comprar duas fichas com ela, porque “só os estúpidos é que faziam isso”, justificava-se, foi a correr ao guiché fazer dois passes para o primo.

Com o Bill estava o camarada Titó a vender o “Avante” aos mais distraídos. Ainda a vila não recuperara desta perda, eis que apareceu no Coreto da Vila um cartaz ameaçador com palavras em latim: quaes cunque findit! Sentindo o seu poder ameaçado, o Comandante Guélas entregou a investigação ao Superintendente Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta, um polícia com o faro aguçado que, quando chegou ao local do crime gritou:

- Mas que cheiro a kona!  

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