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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

18
Jan20

4ª Temporada - Libações Vínicas


Comandante Guélas

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7

 

O Comandante Guélas, Querido Líder de Paço de Arcos, reconhecia sempre os comunas pelos pés, porque pisavam a vila de outra maneira. O Bill jogava um futebol diferente do dos amigos. O Serapito e o Kid Aromas, sempre perfumado e com verniz nas unhas, eram dos últimos homens temperados de Paço de Arcos, cuja única tarefa que tinham na vila, em comum com o Milhas, era a verdade de si mesmos, por isso um dia o Querido Líder declarou-os, ao acordar com uma ressaca de remédios, Patrimónios Imateriais de Paço de Arcos! O Ánhuca vivia na mais absoluta escuridão, por isso as amizades íntimas que fez foi com as galinhas do Manelinho do Estrume, que cobria tudo o que mexia em casa, incluindo a filha, pois a mulher tinha-se pirado com um chui. O nascimento do Zé Luís era um mistério, assim como a sua morte. Diziam que era tetraneto do Napoleão Bonaparte.

- A violência não lesolve nada, - gritou o patrão chinês do Alfredo do Pombalino quando viu o Generebete a apertar com violência o pescoço do Espalha.

- Aposto que não dizias isso se descobrisses que a tua mulher andava a mudar o óleo a outro.

O cornudo metera na cabeça que o futuro sobrinho do Isaltino andava a servir-se da sua Becas, que cheirava mal dos pés. O sonho de dar a volta à vila num Lotus 7 esfumara-se de um dia para o outro e levara-o a dedicar-se a uma valente libação vínica.

- Bebe um copo de água branca que a dor de corno passa, - aconselhou o empregado do asiático, ajeitando a popa. – Ou um café preto!

Não muito longe dali o Pipi acusava a mãe do Pingalim de lhe ter vendido um garrafão de tinto marado, com sumo de uva, óleo das motas do Cabrita e sobras dos pés da Maria das Bicicletas, que lhe tinham toldado o espírito que o tinha feito chocar com um elétrico em frente à padaria.

- Elétrico? Era um compressor! – Explicou o Guélas.

Foi o suficiente para o Pipi confundir o Querido Líder com uma mini, e tentar tirar-lhe a carica. Para a História a cena ficou registada como o Atentado de Camarate que quase ia vitimando o Comandante, e cuja culpa fora atribuída àquele que ainda não aceitara a nova ordem: o Bill. Na esquina do Manel da Leitaria o Capitão Porão estava em rituais de transição com um adolescente:

- Passa para cá as chaves do ninho, - exigiu o jovem chinês. – Hoje tenho uma cabrita ao serão e só regressas a tua casa quando eu puser um lençol na janela.

- Não te esqueças de tirar a deusa Minerva da cabeceira da cama, não vá ela cair novamente na cabeça da cabo Verdiana.

Mas a estória do momento era o casamento do Peidão, que levantava um problema logístico grave, não havia lugar para toda a elite da vila na mesa do almoço. O Querido Líder fez uma fatwa que correu com as madames de cabelo à “Moisés”, fatos a cheirar a naftalina foram banidos, assim como as pérolas de plástico, cachuchos de roscas e prendas miseráveis, as criancinhas penduras não faltavam ao infantário, e às tias da aldeia prometia-se enviar os restos em “tupperweares”. A festa assim rejuvenescia e com toda a certeza que seria muito mais original. Mas nunca ninguém imaginou o quanto original ela iria ser, nem o próprio Hitchock! A autorização para mais uns quantos foi dada na véspera e o Peidão convidou todos e mais alguns, prometendo arranjar lugares disponíveis. Até o Bigornas trouxe um coirão que ninguém conhecia, mas que ele insistia ser a namorada de há muito, esquecendo-se de que na vila só havia registo da eterna Kika, uma alemã que só se lembrava do namorado quando precisava de alguém para lhe levar a bilha de gás da porta de entrada para a cozinha, nas traseiras, cruzando-se sempre com o Camaleão, irmão do Estalinho, que acampara à porta da Lentes, dentro do “Mustang” do pai, que dizia com orgulho ser pai de “quatro matulões”, esquecendo-se que o filho Trovão tinha um metro e meio. Os convites de última hora foram feitos como os primeiros, de boca em boca e à porta do Pica, porque para os noivos poupar nas mariquices dos convites significava mais lugares à mesa para os amigos. Mas mesmo assim ficaram muitos esquecidos e alguns traumatizados. A boda teve lugar na Quinta da Granja em Sintra, e para o Orlando, o comandante, este era o dia mais feliz da sua vida, pois talvez estivesse aqui a grande oportunidade para progredir na carreira: dar todo o conforto ao filho do chefe! Na véspera do grande acontecimento paçoarcoense fez uma visita guiada às instalações, incluindo a ala mais in do palácio, os aposentos “reais” datados do século XVII, recentemente restaurados, e colocados de imediato à disposição dos noivos, para que os inaugurassem a seguir à boda. Até a retrete, onde muitos nobres tinham arriado faustosos cagalhões, se encontrava recauchutada e selada para os fundilhos do Peidão. Mas ao noivo, que não ligava muito a estas mariquices da História, o que lhe chamou à atenção foi o corredor dos aposentos dos oficiais, paredes meias, que estava forradinho de extintores , um por cada porta.

- Se vêm aqui, o Orlando manteigueiro será despromovido e passa a ser o Cabo Pilas , - pensou. – Vamos ficar longe destas tentações!

Como já era de prever a chegada do noivo foi acompanhada de um coro, de “Peidão” e muitos “Peidão”, que se estenderam à cerimónia na igreja, felizmente dirigida por um paçoarcoense padre que teve o bom-senso de acelerar o ritmo.

- Se queres falar com o meu irmão, até às 20 horas está no convento e depois passa directamente para o bordel, - dissera aos noivos um mês antes o adolescente Sarapito quando estes escolheram o seu mano para lhes abençoar a vida de pecado.

E os gritos foram tantos que os meninos de boas famílias de Paço de Arcos ficaram com as goelas secas, vendo-se obrigados a porem-nas de molho mal tiveram oportunidade. O avô do noivo, pioneiro da aviação, juntou-se à festa e levou um amigo que conhecera, o engenheiro com cara de leitão. Nunca mais ninguém os parou! E foi nesta altura que um oficial da base foi encurralado na casa de banho, pois resolveu ir arrear o cagalhão minutos antes de um lote de meninos ir verter também as suas. Quando descobriram por baixo da abertura da porta do cagatório os seus sapatos e as calças em baixo, aproximaram-se. O Graise bufou-se durante meia hora e no intervalo entre cada petardo o Velhinho batia na porta e gritava:

- Então, então, estão aqui crianças!

O de lá nem tossiu nem mugiu, e assim ficou até que os copos dos meninos ficaram vazios e tiveram de ser recarregados. No andar de baixo a festa ia rija, o Pilas cavalgava pelos vastos corredores do palácio, enquanto que os noivos apanhavam a seca do costume, fotos e mais fotos com aves raras pelo meio. O fotógrafo era o irmão do Bigornas, e como o noivo não lhe prometera nada, excepto um almoço à conta dos sogros, simulou fotografias que nunca chegaram a aparecer. No final aconteceu aquilo que o Peidão temia!

O Vaca Prenhe, cunhado do noivo depois de ter presenteado a Dona Ludres com um netinho fora de tempo, o Cabeça de Ananás, resolveu praxar o Peidão nos aposentos reais. Um minuto depois de entrarem entrou também a boca dum extintor, comandado pelo Graise, e encheu o espaço de um nevoeiro serrado, que obrigou metade do gang a refugiar-se no wc selado. E selado ficou, porque aproveitaram a confusão para verter águas para onde estavam virados. Do quarto saia fumo branco, não porque houvesse Papa, mas sim porque todos os extintores estavam agora vazios. O Orlando não podia actuar, e por isso teve de ir o chefe que colocou todos os “meninos de boas-famílias” no exterior para minimizar os estragos. E naquela zona havia uma grande piscina atestadinha de água cristalina, que foi para onde se dirigiu a rapaziada para se refrescar. Um minuto depois já havia jovens em cuecas a voar da prancha, incluindo a mulher do Peidão que foi atirada de vestido de noiva. O ponto alto desta banhada colectiva foi quando o Pilas baixou as cuecas e ofereceu a fruta a uma velha que espreitava escandalizada num canto do edifício:

- O que tu queres está murcho, - gritou o adolescente que, para constituir família, teve de ir viver em reclusão para o Porto.

27
Nov19

4ª Temporada - Os Amigos do Serapito


Comandante Guélas

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6 

- Se não comes a sopa vou chamar o Zé da Vizinha, - ameaçava o Espalha com o sobrinho aterrorizado a olhar para ele, não fazendo ideia de que estava a abrir a Caixa do Milhas para a eternidade.

O Ratinho Blanco pertencia a uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da pedreira do Mocho, e tivera como vizinho o Zé Borrego, abafador de maneleiros, descendente direto do Diogo Alves e da Luísa de Jesus. O Ratinho Blanco sempre que ia assistir a um filme indiano no Cine-Teatro de paço de Arcos, punha um chapéu de palha inclinado sobre os olhos, vestia um fato tweed com uma corrente do seu bóbi, presa a um relógio de cuco que segurava debaixo do braço. Tinha uma paixão secreta pela Tita dos Pés Sujos, uma mulher exótica de sangue portosalvense, que enchia a boca de todos os galarós da vila Estado. A sua nudez imaginada provocava muitas pívias, até que um dia deu de caras com um rapaz gordo com nódoas de cevada nas cuecas e casou-se. No altar proclamou alto e em bom som:

- Eu tenho fé no Bajoulo, o meu amado boche, porque é a pessoa que me irá levar ao meu destino, uma terra sem bejecas e gordura!

Mas depressa esta ativista dos direitos das lagostas paçoarcoenses foi assediada pelo vizinho, o Mija Colchões, que a raptou durante uma ressaca do seu marido, e a levou de novo para um altar, onde consumou o pecado: cortou-lhe as unhas dos pés à dentada! A Tita deixou de ser a dos Pés Sujos, e transformou-se numa queque. O Milhas, namorado da sua prima, que fora educado por duas perceptoras inglesas, que tentaram durante anos, sem sucesso, educa-lo a ele e aos irmãos a Arlete, que não gostava de polícias à paisana porque não tinham cassetetes, tão úteis para pôr na ordem os miúdos, e a Ester, amestradora do Áchim e esposa de um pescador que não tolerava vincos nas calças, não aceitou o divórcio da Tita dos Pés Sujos e do Bajoulo, e jogou na lotaria, tendo a desgraça batido de novo à sua porta, ganhou!

Trim, Trim, Trim

- Quem é?

- É o Curtis!

O carteiro paçoarcoenses era pedófilo nas horas vagas, deixava-se consumir no seu Simca pelo gangue de Porto Salvo, e quando a festa atingia o clímax, os putos destravavam o carro e o Curtis largava tudo o que tinha nas mãos para acudir ao bólide, antes que ele se espetasse de encontro ao muro. Todos riam, menos o carteiro, que tinha pago, sem contar com o que lhe roubavam, para ter umas horinhas de prazer com estes adolescentes de Porto Salvo. Quando a brincadeira acabava, o adulto rumava para casa, pois no dia seguinte tinha cartas para distribuir, e o Gang do Zé de Porto Salvo dava início ao seu trabalho rotineiro: gamar peidociclos! A acompanha-lo ia o jovem estagiário de nome Pingalim, filho dos proprietários do célebre estabelecimento comercial “paçoarquiano” de nome “Papagaio” e irmão do auto-campeão nacional de 50 cc Pinguim. Ainda a publicidade era uma miragem e já este célebre piloto do Autódromo do Estoril mostrava a todos os paçoarcoenses a carta que tinha recebido da Federação Internacional, com sede no estrangeiro, a convidá-lo para participar no Campeonato do Mundo.

- Mas os selos são de Portugal e a taxa não é a que está em vigor? – Perguntou o Pontas no “pub” do Centro Comercial mais moderno e vasto da Costa do Estoril, o “Áries”, em cujo prédio morava um Capitão da Quinta Divisão.

- Isso são ninharias, é um problema dos Correios e não meu! – Respondeu com desprezo o único piloto que não tinha conseguido dar uma volta completa ao Autódromo do Estoril, tirando a carta das mãos do inconveniente adolescente.

Mas era verdade! A única vez em que o senhor Pinguim participara numa corrida, fora por conta própria, empenhara-se para o resto da sua vida na compra de um “peidociclo” de competição e respectivo fato, e nunca conseguiu passar da recta, pois seguira em frente.

O Comandante Guélas era o político mais amado de Paço de Arcos porque se deixava amar à vontade. Já o Serapito era vítima de Bulling, o espírito da revolução, que desejava a igualdade capitalista para todos, ia-se a pouco e pouco esfumando:

- Não, não podes jogar connosco, somos federados, - respondeu-lhe um dia a seco o Marreco.

O Focas, que deixara de fazer cagalhões revolucionários e proclamava que a partir daquela data só defecava nas retretes, recusava-se também a trocar bolas com o pobre do Serapito:

- Vai jogar com o Peidão, o Fininho e outros coxos! – Disse-lhe um dia o Tio Kiki, que vivia desterrado na Pampilheira, mas dizia que era de Cascais.

O povo proclamava agora o regresso do social fascista Bill para explicar a esta gente paçoarcoense o conceito de solidariedade, como fizera no Futebol PA. Nasceu assim o Grupo de Amigos do serapito!

 

 

 

19
Out19

4ª Temporada - O Hipnotizador


Comandante Guélas

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5

Reza a lenda que a cidade Estado de Paço de Arcos foi por um dia possuída pelo primo do Rei Ghob, e o primeiro sinal apareceu quando o povo deu de caras com o Laranjão, pai do Zé das Cápsulas, armado em polícia sinaleiro com um penico na cabeça, tentando orientar um carro fantasma, dirigido em pé, como era costume, pelo João da Quinta.

- É o Hipnotizador!

O primo do Rei Ghob pôs o Charlot a comer uma batata crua como se fosse uma maçã, a terceira fila adormeceu instantaneamente com um estalar de dedos, e deixou a vila enfeitiçada durante alguns dias. O ex-social fascista Bill, e atual capitalista macaense, perguntou as horas a um bombeiro no final de um treino de Andebol, e quase foi linchado pelo próprio:

- Qual é o nome do soldado da paz?

- Álhi!

- Senhor Álhi, faz-me o obséquio de dizer as horas?

Levou de imediato com uma saraivada de calão, misturada com uma gargalhada geral.

O Espalhinha fora vítima de uma troca de identidades, no dia em que tentou contactar o irmão do Tolas Monas, o Zé:

- Chama-se Jeremias!

Durante anos chamou Jeremias ao senhor, nome de um burro famoso duma série na televisão. Numa noite, já de madrugada, a Padaria “Aveirense”, de Silva & Sousa Lda., rua dos Fornos, nº 17/17B e 17, foi visitada por uma destas turmas, constituída por adolescentes de boas famílias. Recuemos umas horas, para tentarmos perceber o que levou aqueles “meninos de bem” a fazerem uma visita de cortesia à célebre Padaria. A noite ainda era uma menina, e a festa na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos ia de vento em popa. O irmão mais velho do primeiro marido da Tita-dos-Pés-Sujos controlava a música, e debitava freneticamente os vinis gamados aos amigos, fazendo abanar o edifício. O irmão do Citron até já tinha dado um golo numa cerveja de litro, que estava escondida debaixo de uma mesa, mas em vez de cerveja bebera mijo, e do rijo. Dois pigmeus de blusões negros, vindos de Porto Salvo, estavam parados junto ao Salão de Dança e tinham colocado os seus capacetes no chão, um em cima do outro, num local de passagem.

- Quem se atrever a tocar-lhes, morrerá – ameaçaram, coçando os tomates.

O jovem Milhas já se tornara no convidado mais chato da festa, pois ultrapassara a fasquia das cinco “bejecas” e andava perdido na dança, à procura duma vítima. Quando se cruzou com os capacetes deu-lhes um chuto à Eusébio, atirando-os para o meio da multidão. O anão mais próximo nem teve tempo para o homicídio, pois o Milhas agarrou-se de imediato a ele e levou-o para a dança, talvez confundindo-o com a “Huga Huga Lagosta”. Entretanto, o Velhinho conseguira deitar a mão a uma caderneta com senhas de produtos que estavam junto ao homem da caixa, e estava a distribui-las pelos amigos. A azáfama no Bar era enorme, os produtos esgotaram-se num abrir e fechar de olhos.

- Isto é que foi um grande negócio, vendemos tudo! – Disseram os responsáveis, fazendo um sinal com o polegar para o colega que estava na outra ponta da sala, mais propriamente na caixa.

Mas festa em Paço de Arcos não era festa, sem uma carga de Litopol (Ácido Muriático+Litopol). E, como sempre, foi fatal! A noite já ia longa quando o Gang foi arejar para o exterior, encostando-se à “Padaria Aveirense”. O pior foi quando as bexigas começaram a apertar e a vontade para mijar atingiu a “redline”. A pouco e pouco os membros do Gang viraram-se para a parede do estabelecimento comercial e começaram a verter águas. Os que tinham só parede, para a parede olharam, mas os que ficaram com as janelas à frente da cara, depressa descobriram que a loja estava recheada de guloseimas, que davam muito jeito aos estômagos vazios. Cinco minutos depois, o Gang de brancos estava ao balcão da “Aveirense”. Mais cinco e já todos corriam em várias direcções da vila, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve”, Tabaco, e tudo o mais que viesse à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas. Mas houve um paçoarcoenese que ficou para sempre hipnotizado, o Milhas, que continua à porta do Cine-Teatro à espera da devolução do preço do bilhete, como prometera o artista a quem subira ao palco.

05
Out19

4ª Temporada - O Todo Boneco


Comandante Guélas

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O cartaz prometia, o filme era de máximo terror, a Idade Média era o cenário e os vampiros bronzeados tinham nos pulsos as marcas dos relógios. O gang ocupava duas fileiras de cadeiras na parte mais fina da plateia, a segunda, cujas cadeiras continuavam a ser de pau, mas um pouco mais luxuosas pois tinham espuma, comprada no António da Lúcia, que atenuavam a “dor-de-cu”, reservada para os utentes das duas primeiras filas, o Ánhuca, o Ratinho Blanco, o Pedro da Avozinha, o João da Quinta, o único preto, o Fernindó e o resto dos habitantes de Paço de Arcos profundo. A festa começou logo na primeira dentada, quando o Zézé Camarinha local deu o ósculo fatal no pescoço duma donzela distraída, que resolvera ir fumar um cigarrito às cinco da manhã para a Cova da Moura lá do sítio. Tocou um despertador. O Pirilampo veio a correr e acendeu a lanterna, não para arrumar um espectador, mas para tentar localizar o prevaricador. Só havia santinhos. A luz desapareceu e ele ficou em alerta máximo no local. Nova dentada seguida agora de um barulho de pato, apetrecho para a caça e propriedade do Conan Vargas. Desta vez o barulho vinha da parte de trás e da ponta oposta. A lanterna tornou a acender-se e varreu a zona. O público adolescente estava todo atento ao desenrolar do filme e não era para menos. Uma das vampiras tinha aparecido agora em todo o écrãn com as mamas de fora e isso num filme no Cine-Teatro de Paço de Arcos correspondia a encontrar uma agulha num palheiro. E a seguir a esta cena veio outra, o caçador de vampiros resolveu dar um beijo apaixonado numa camponesa a cheirar a alho, que o mauzão do castelo queria trinchar. Aconteceu o habitual, o Todo-Boneco, um conquistador de bairro genuíno, que picava em todas as sopeiras da vila e arredores, fez, pela milésima vez, o seu único comentário que estava sempre reservado para estas cenas íntimas:

- Espera aí que já cospes!

Risota geral, cartão amarelo do Pirilampo. De novo o despertador, seguido do pato, de um apito de árbitro, de castanholas, que puseram o atento Pirilampo à beira de um ataque de nervos, sem conseguir dar o vermelho a ninguém, porque mal deu à luz caiu um silêncio sepulcral, a condizer com o momento. Chegou o intervalo que permitiu restabelecer a circulação sanguínea dos cus da plateia e normalizar os níveis de nicotina nas veias. Foi nessa altura que todos reparam que o bombeiro voluntário de serviço era o Álhi. Mal as luzes se apagaram o pato, o despertador, o apito, as castanholas, foram substituídos por ininterruptos “Álhis”, que não deram descanso ao Pirilampo e ao Bombeiro. Também se gritava “Tó Pi Tói”, outra maneira de irritar o Álhi que, segundo os colegas de carteira da primária do dito soldado da paz, queria dizer “senhor professor”. Ainda hoje, já reformado, reage a estes dois chamamentos quando algum pai ou avô o avista. Os comandos têm o “Mamma Summe”, os paço-arcoenses o “Álhi” e o “Tó Pi Tói”.

 

23
Ago19

4ª Temporada - Acolitar


Comandante Guélas

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2

 

Em Paço de Arcos, a terra do Comandante Guélas, o Querido Líder, que libertara a vila das garras do Bill, um social fascista do sporting que gostava de comer sopa de letras, “acotilava-se” à grande e à francesa, comportamento típico das populações pós revoluções. Por isso quando o Focas e o mano do João Gordo entraram de rompante num quarto em Porto Salvo, o Pilas ainda não se tinha vindo, por isso pediu paciência aos amigos, mas a pressa para irem para Cascais era tanta, que eles ajudaram-no a acelerar o ato, apalpando-lhe o cu. Noutro canto da vila o mano do Bajolo, com cara de papagaio, preparava-se para rumar aos Algarves na sua Honda 50, deixando no ar a promessa de ir “acotilar” à grande e à francesa. Em frente ao café “Picadilly” os dois bólides do lendário Coronel Osório davam sempre os bons-dias aos primeiros clientes deste afamado estabelecimento comercial de Paço de Arcos e as boas-noites ao Velhinho e ao Pilas, os melhores bebedolas, que acabavam sempre de madrugada a tomar cházinho num primeiro andar. E tantas foram as provocações dos Fiats que um dia a rapaziada fez-lhes uma homenagem. Tudo começou com uma repentina, e já habitual, necessidade fisiológica de grande calibre do Focas. Como o senhor Américo não arriscava deixá-lo utilizar as instalações sanitárias do seu estabelecimento comercial, sabendo que no dia seguinte iria, com toda a certeza, necessitar da ajuda dos Bombeiros Voluntários para expulsar o cagalhão dos canos, o Focas teve rapidamente de encontrar uma pia alternativa. Pela cara do mais famoso cagador de Paço de Arcos, o produto que vinha aí não era para brincadeiras. Mas, apareceu um carro da polícia com o Chefe Bigodes e mais. A ronda diária assim o obrigava, neste caso nocturna. Quando viu que as autoridades já estavam no lado oposto, atirou para o ar um grito de guerra:

- Ó CHUI!

Dito e feito, todos se piraram para dentro do café. Todos?! Todos não, o elegante Bigornas, proprietário da loja de fotografias mais elegante da vila, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”, permaneceu na esplanada, em sinal de protesto.

- Eu não tenho nada a ver com isto!

Ao longe o carro das autoridades permanecia com os faróis de “stop” ligados. Mas foi por pouco tempo! Quando arrancaram, regressaram em marcha de emergência e só pararam junto ao senhor Bigornas. O Chefe Bigodes saiu de rompante e ainda teve tempo de ouvir:

- Eu não tenho nada a ver com isso!

- Mostra-me o B.I.

- Não tenho aqui, está em casa, – e apontou para a janela do lado oposto da praceta.  Nem teve tempo para mais nada.

- ENTRA, – ordenou o Bigodes, abrindo a porta.

Os amigos nem tiveram tempo para uma despedida à maneira, contentando-se com um adeus piedoso, com gargalhadas, ao lindo bigorninhas, que ousara desafiar a autoridade da vila. De repente o Focas regressou à realidade e correu desesperado para o prédio do Taka, dando um valente chuto na porta. Tinha acabado de ser informado da existência de uns quartos na cave, o local ideal para arrear o cagalhão. Enquanto fazia o servicinho, apalpou o terreno e deu de caras com vários sacos de serradura, pertencentes à drogaria ao lado. As comemorações ao Coronel Osório iam começar! Cada artista trouxe um saco de 20 quilos e alinharam-nos no passeio junto ao primeiro Fiat. A uma ordem do Focas, despejaram o conteúdo até fazerem desaparecer o primeiro popó do Coronel. Estava agora estacionado na praceta, junto ao célebre café “Picadilly”, um monte de serradura. Cinco minutos depois veio juntar-se outro monte. Segundo as testemunhas ouvidas no dia seguinte, o Osório tinha apanhado um ataque de caspa, como era de calcular, e fizera queixa ao Chefe Bigodes, que procedera de imediato às investigações, como era seu costume, tendo detido de imediato o primeiro cliente da manhã, o Cociolo, que tinha estado toda a noite na garagem da casa dos pais a pintar a mota com o mesmo nome.

03
Ago19

4ª Temporada - Paradoxos Ontológicos


Comandante Guélas

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1

A sessão do cinema Royal decorria na normalidade, a penumbra e o silêncio imperavam, até que o Mene se levantou com uma violência tipicamente orgânica e aplicou, sem apelo nem agravo, duas valentes bofetadas no cavalheiro que se sentava ao lado da sua querida Milu. Recuemos! A Milu e o Carlos nasceram com uma pequena diferença de minutos, e uma Tita Remédios, solteirona espanhola endinheirada, propôs perfilhá-la:

- São dois, ficas com um e fazes outro, ela passa a ser a minha filha e herdeira.

Os pais não aceitaram, mas por respeito à familiar fizeram-na madrinha e deram mais um nome próprio à Maria de Lourdes: Remédios. Quando as luzes do cinema de acenderam devido à algazarra, verificou-se que o senhor não empernara com ela, conforme a moça se queixara ao seu jovem marido, mas sim que tinha uma perna de pau, que não controlava. Nenhuma das coisas que aconteceram são em vão, o Mene e a Milu deram origem a uma menina, que por sua vez foi mãe do Peidão. Até à chegada do Comandante Guélas ensinavam aos petizes que o tempo era linear, que avançava eterna e uniformemente até ao infinito. Tudo mudou, a diferença entre passado, presente e futuro passou a ser declarada uma ilusão, o ontem, o hoje e o amanhã deixaram de se seguir uns aos outros, passaram  a estar ligados num círculo eterno. As lendas paçoarcoenses estão destinadas a regressar com a perna de pau do homem que hipoteticamente abusara da Milú. Se alguém se cruzar em Paço de Arcos, nos tempos de hoje, na rua, com um coxo, pode ser o regresso de uma figura pública, talvez o Tubarão ou o Balatuca. Por isso o Querido Líder geminou Paço de Arcos com Sagres, e declarou a área do Algarve destino de férias da Juventude Guéliana. Passaram a acampar no parque selvagem junto à praia mais “in” da localidade e ir jantar ao mini-restaurante do Gordo Caixa de Óculos, proprietário de uma Discoteca cujo nome era “Solemente para Amigos”, e onde os “meninos das boas famílias de Paço de Arcos” tinham entrada exclusiva. Uma espécie de “Kadoc”! Só os paço-arcoenses afortunados tinham acesso a mais comodidades: o Cocas, porque ficava na casa dos pais e o Eterno-Noivo, o Boa Cara, porque levava sempre a “roulote”, com a noiva do momento lá dentro. Sagres parecia um acampamento da ONU, ouviam-se todas as línguas. E a confusão era tão grande, que podiam dar de caras, a meio da noite, dentro da suas tendas, com alguma estrangeira bêbada a cheirar a estrume. Mas num dos anos foram presenteados com uma artista do Porto, de nome Balbina. Todos os dias levava para a tenda um estrangeiro novo, que era obrigado a deixar os sapatos à entrada. E pelo tamanho das faluas, tentava-se adivinhar a altura dos franguitos. A comilona falava várias línguas, e tinha um volume de voz que se ouvia à distância, usando a língua pátria nas alturas em que desejava insultar a comida. Foi uma espécie de novela, a “Simplesmente Balbina”, que animou as noites de Sagres durante quinze dias! Ainda rondou a tenda do irmão do Chinoca, mas este estava prevenido com sensores e não gostava de torresmos.

Mas houve mais!

 A tenda do paço-arcoense mais ajuizado, e de nome Peidão, também fazia parte do acampamento da ONU, e era a mais pequena habitação da zona, porque o citado adolescente “não quis gastar muito dinheiro na altura da aquisição”, segundo palavras do Chinoca. E, portanto, ele e a namorada tinham de entrar de gatas. Numa das noites de Sagres muito ventosas, o Graise foi pedir lume ao Peidão e teve de acender o cigarro com a cabeça dentro da habitação.

- Cuidado, que isto é de “nylon” e arde rapidamente, – disse o fumador, sem se aperceber que o aviso tinha acabado de acender o rastilho de acesso aos neurónios do Peidão.

Quando a noite ainda ia a meio, o proprietário da barraca minorca, em sono profundo, sonhou com um incêndio e só acordou quando já estava meio de fora, a olhar para o café que nunca conseguia ver, e com os farrapos da tenda a balançarem ao vento. Tinha saído pelas traseiras.    

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Jul19

3ª Temporada - General Bidon


Comandante Guélas

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28

- Não jogo mais, as luvas estão cheias de minhocas, - gritou o Espalha abandonando o campo após sofrer o décimo segundo golo, lembrando-se do único jogador estático do Futebol PA, o saudoso General Bidon, um atleta consagrado que justificava a atitude dizendo “o que interessa é a colocação no terreno”.

Em 20 de maio de 1498 o navegador paçoarcoense Aurora chegou a Calecute a bordo da nau “Carapau Cociolo”, estabelecendo a Rota dos Ratos que os trouxe para a vila e os fez ser a classe dominante. Na burguesia paçoarcoense, da qual provinha o Comandante Guélas, a igualdade das mulheres pretendida pelos social fascistas liderados pelo Titó, um comunista derrotado na revolução do 28 de maio de 1974, foi um assunto encerrado logo após a conquista do sul da vila: as comunas foram obrigadas a rapar os pelos, a tomar banho e a pôr desodorizante:

- Acabou o cheiro a merda nas fêmeas paçoarcoenses, - declarou a famosa ideóloga do Querido Líder, a matemática e filósofa Dra. Quitéria Barbuda, uma libertária, no sétimo dia após a unificação de Paço de Arcos. – Quem quiser continuar com vastas pintelheiras a cheirar a mijo, só pode ser esposa do Ratinho Blanco, o maior trombeiro nacional.

- E as unhas dos pés? – Perguntou o Bill com o punho no ar, mostrando ainda tiques social fascistas, querendo com esta atitude denunciar a famosa namorada do Bajoulo, a Tita dos Pés Sujos, filha do empresário monárquico conde Xantola que, quando inaugurou o restaurante no “Áries”, prometeu torna-lo na casa “mais famosa de Paço de Arcos”, e por isso contratou o fadista Focas para disparar com paixão uma salva de vinte e um flatos psicadélicos.

E tinha razão! As suas lagostas ostentavam sempre grafittis surrealistas, arte urbana, langonhas amarelas extraídas do fundo da juventude, lançadas com amor pelos amigos anacrónicos do Focas, queques pseudo-desenquadrados do norte da vila, nas noites quentes de verão, disparados pelas frinchas dos vidros. O Comandante Guélas tornara-se um homem perfeito, assim como o seu regime!

Mas voltemos ao presente. O Espalha deixou cair uma lágrima quando o Pontas informou a vila que o General Bidon, herói da guerra de sucessão paçoarcoense, tinha dado o último grito do Epiranga, “independência ou morte”, e morrera. Uns dias antes quem se encontrava perto dele estranhou, os seus olhos estavam diferentes, até os óculos pareciam desbotados, o olhar já não era meticuloso, estava desleixado, enquanto que o dedo médio da mão direita, que apontava com frequência para o teclado do telemóvel, estava murcho. E gaguejava! Mas o primeiro sinal de inquietação dos amigos foi o grandiloquente devaneio teórico, acompanhado de salamaleques, que os informou que apoiava o Comandante Guélas na guerra contra a Comuna do Bill, extinta há mais de 46 anos. Mas o anticlimax de timbre dantesco aconteceu quando um som intenso saiu pelas calças e causou uma tensão dramática entre aqueles que compunham a mesa, e o General Bidon gritou com escárnio, em tom de desafio. Só parou nas urgências do hospital! O Espalha estava inconsolável com a perda, lembrava-se dos tempos em que o amigo estudava com afinco na Faculdade de Medicina, via-o todos os dias no comboio para lisboa com a pastinha de executivo, que ele imaginava carregadinha de calhamaços, até ao dia em que se abriu e caiu uma laranja e o jornal “A Bola”. Eram quatro irmãos com mais de 100 kg, o Paivão, o Paivinha, o Toy e a Paivona. A menina após um festival de danças na Ginástica Rítmica do Clube Desportivo de Paço de Arcos, onde dançou ao som da banda sonora do Fernão Capelo Gaivota, passou a ser conhecida como o Bacalhoeiro. O Espalha chorou!   

 

 

07
Jun19

3ª Temporada - Vestígios Biológicos


Comandante Guélas

Cagalhão 1.jpg

 

27

 

A República Independente do Alto de Paço de Arcos cheira a cultura, em qualquer lugar há vestígios genéticos daqueles que um dia juraram fidelidade ao Comandante Guélas, o Querido Líder desta Vila-Estado. No largo da estação, mais precisamente nas ruínas do primeiro Centro Comercial da Costa do Estoril, o Áries, ainda se sente, nas noites de Lua Nova, o clarão dos flatos, que iluminavam de espanto a penumbra, prenúncio de que o Focas estava a parir num dos cantos um dos formosos cagalhões que o tornaram célebre, e que selaram as mais fundas e leais amizades guélianas. Foi ele que cometeu o primeiro crime, não de sangue, do jovem país, mas de merda, ou ambiental como se diz hoje em dia, quando o Zé do Carula abriu a porta da casa de banho do seu café, e esta ficou colada à parede por causa do cagalhão monstruoso que o Focas fizera atrás da porta. Confidenciou ao padre, que casou o irmão Serapito pela 40ª vez, que em pequenino tinha um monstro dentro de si, na tripa, e que após a vitória do Comandante Guélas resolvera soltá-lo, e este tomou-lhe conta do intestino e nunca mais parou de fabricar tronco majestosos.

 

Outrora no sítio de Paço de Arcos onde hoje em dia existe o “Elefante Azul” desenrolou-se uma cena digna de Farwest, contada nos livros de História da Vila-Estado, em que os protagonistas foram dois paçoarcoenses de gema, o Choné e o Dic, este último o único Ser Humano do planeta a ter o mesmo nome que o seu cão, não por o ter dado ao canídeo, mas sim recebido. O destino pôs-lhes uma égua no caminho, em vez dos caracóis que andavam à procura, e as hormonas do Choné estoiraram:

- Vou montá-la!

O Dic humano controlou-se, já tinha passado por aquilo e deixara marcas no Dic canídeo, o nariz dividido em dois! O Choné tentou montar pela direita, mas ela respondeu-lhe com vários coices, parecia a Tita dos Pés Sujos. Entrou pela esquerda e só teve tempo para uma rapidinha, um galope diagonal pelo campo de trigo, pois os gritos da égua chamaram a atenção do dono que veio de forquilha na mão a gritar:

- Essa é minha, e nem o meu primo Conan Vargas tem autorização para montá-la!

A leitaria do senhor Manuel, que servia meio-gordo em taças, era um local exceptional, mas inconveniente. A Fonte da Avenida era um local de culto, dizia a lenda que a formosa Tita dos Pés Sujos costumava cortar as unhas dos pés e atirá-las para a água que, com o passar do tempo, se tornou um local de desejos, uma escarreta, um milagre.

Na Casa das Pedras, junto à marginal lá para os lados de São Pedro do Estoril, que foi mandada construir em 1904 pelo comandante e capitão-de-fragata Manuel de Azevedo Gomes, da família do sargento-de-Bóia paçoarcoense Horta, que numa festa na casa da Káti, uma figura arredondada, de cabeça de ovo, com uma sugestiva boca muito grande, foi torturado pelo impiedoso Zé Pincél, que o acusou de blasfemar contra o tamanho das mamas da dona da casa, que iria ser futuramente sua namorada, depois do Peidão lhe ter trincado os lábios no seu primeiro linguado, foi onde o Janeca e o Taka Takata juraram ter visto, após um charro comprado ao Grilo, o fantasma do primo do João da Quinta, dividido em dois pelo rápido de Lisboa, e mijado nas calças, despejando para sempre o seus ADN naquele espaço.

- Mas o cu e as pernas estavam na casa do Dr. Cebola, o castelo que fica do lado do mar para os lados de São João do Estoril – contou mais tarde o maior traficante de droga da vila. – É a prova de que a minha erva é a melhor da Costa do Estoril.

As relações entre o Torpedo e o Pitrongas foram sempre muito conflituosas. Mesmo depois do primeiro ter tido um ataque cardíaco enquanto bebia água na sarjeta. O segundo insistia em subir a rua José Ferrão Castelo Branco em vez de ir dar a volta por Caxias. A teimosia era tanta, que teimava em vir sempre a cavalo da sua Honda 50 de cor preta, desenhada para gente normal e não para um flamingo de um só neurónio. E o mais grave era que o barulho do escape apanhava sempre o Torpedo em sono profundo, um canídeo com um acordar difícil. Nestas ocasiões encaminhava-se estremunhado para o passeio, agachava-se e esperava pela ave rara.

 

Taka Taka Taka

 

Roncava a dita do Pitrongas, que atingia a vertiginosa marca de 30 Km/h. Mas havia um problema. O canídeo chegava aos cinquenta, fruto de muitos treinos durante as fugas ao motorista da quinta ao lado, o senhor Manuel, quando cinco dos seus dez donos resolviam encher a porta da Sesaltina de lixo e carregar na campainha.

 

Taka Taka Taka Taka

 

O escape parecia agora uma charanga, sinal de que o Pitrongas estava perto da curva, já com o pisca direito ligado, que indicava ir dar uma seca à tia. A simbiose mota/condutor dava o aspecto de um morcego e as pernas em abdução pareciam asas. Os ramos das árvores dobravam-se com a força do vento. O Torpedo absorveu um largo trago da sua baba, enquanto que na outra ponta da rua o pai do João da Quinta deu um gole no vinho carrascão, que era a única maneira que tinha para se manter vivo. Tudo se demorava: o barulho do escape do Pitrongas e o bater ansioso do coração do Torpedo, com a boca tingida pela raiva e as lágrimas a escorrerem-lhe pelo focinho, fruto de um ódio de estimação. Até que uma sombra esguia, projectada pela luz do candeeiro da retaguarda, se estampou no passeio. Era o anúncio de mais uma noite estragada para o Pitrongas. Quando a mota e o flamingo se aproximaram da curva, não eram mais do que uma mancha escura que fazia lembrar um sapateiro viúvo com uma luz laranja, estilo pirilampo, a piscar para a direita. Os olhos do Torpedo concentraram-se na figura rabiscada do motorista. Nesta pequena curva, que tinha logo uma contracurva e um entroncamento no meio, havia naquele momento um conjunto de tensões. Quando o cheiro do Davidoff do Pitrongas chegou ao nariz do rafeiro, os seus neurónios entraram em curto-circuito. Uma raiva profunda perpassou-lhe ao longo da coluna vertebral, eriçando-lhe os pêlos, ao mesmo tempo que o intestino entrou em terríveis convulsões, cujo barulho era abafado pela charanga do Pitrongas. Foi a potência do escape do canídeo que o atirou, de boca aberta, de encontro ao tornozelo do costume, o esquerdo, e lhe arrancou, como já se tinha tornado hábito, parte da meia da marca “CD”.

22
Abr19

3ª Temporada - Cavalos e Cavaleiros


Comandante Guélas

 

Cavaleiros e cavalos.jpg

 

26

 

A historia oficial de paço de arcos, ensinada nos manuais escolares, contava que a Maria, bastarda de D. Dinis tinha sido freira em Odivelas, e montada pelo tetra avô do Comandante Guélas, dando alguns séculos depois origem ao fabuloso Ratinho Blanco, cliente habitual do senhor Bandeira, barbeiro oficial da Vila-Estado. Por isso o Menino Guéliano só tinha autorização do Querido Líder para montar a cavalo no Guincho, exceto nas meninas, que tinham de ser exclusivas da vila, para não haver degenerescência genética. E foi numa dessas alturas que a Macaca entrou no café “Iolanda”, que servia à Dra. Quitéria Barbuda vinho branco numa garrafa de sumol com uma palhinha, e perguntou quem é que queria ir montar. Assustaram-se! Mas quando disse que eram cavalos quatro imberbes levantaram os braços:

- Mas tu já alguma vez andaste a cavalo? – Perguntou o  Peidão ao Xinoca.

- Eu tenho uma “Maxi Push”.

Mas havia um obstáculo a ultrapassar. O amigo da Macaca, um desconhecido de Nova Oeiras , estava dentro do Renault 5 todo bonito, com chibata, botas de montar e cara de cu.

- Eles podem vir connosco?

O matador olhou para os quatro meninos de “boas famílias” e percebeu que, ou iriam todos, ou arriscava-se a ter de mudar um pneu. Teve bom senso. A excursão rumou para a aldeia de nome “Areias”, onde seriam alugados os animais. Quando os bichinhos foram entregues o Xinoca quase que saiu à carga, porque pensava que “Cavalo” e “Peidociclo” era tudo da mesma família, e por isso acelerou a fundo.

- Têm a certeza que o vosso amigo sabe andar de cavalo? – Perguntou o dono do picadeiro ao ver o rapaz com cara de oriental a trote e a bater violentamente com o traseiro na sela e a enredar as rédeas nas pernas.

- Ele está habituado a montar as éguas em pêlo, - explicaram-lhe.

O trombudo tomou a dianteira passando com um ar de desprezo por todos os amigos da Macaca. A sorte devia-se ao facto de os cavalos estarem habituados a andar uns atrás dos outros e assim o do Xinoca teria poucas hipóteses de fugir. Atravessaram a rua e embrenharam-se nas dunas. Alguns metros mais adiante tiveram de reduzir para passo, pois era necessário poupar o rabo do chinês. Mas aconteceu o primeiro dos “previstos”, quando um ramo baixo lhes apareceu pela frente. Todos puxaram pela rédea esquerda e contornaram o arbusto, excepto o Xinoca que seguiu em frente e chocou contra o obstáculo. Passou o bicho e quase ia ficando o cavaleiro, caso não se tivesse deitado sobre a cabecinha do cavalo, folgando as rédeas e soltando os chinelos de quarto dos estribos. Ainda houve tempo para apostas, ganhando a opção “queda”. Valeu o sangue frio do trombudo que encostou a sua montada e segurou o animal. Pausa, o chinês estava mais inclinado do que a Torre de Pisa, e à medida que ia descaindo puxava as rédeas, arriscando-se a sentar o alazão no colo. Quando o líder o informou dessa hipótese, tirou as mãos e caiu na areia fofinha. Pôs-se logo ali uma dúvida: como é que ele iria montar, uma vez que não havia a escada do picadeiro? Veio-lhe à memória o capitão da Quinta Divisão e da falta que ele lhe fazia naquele momento. Caso fosse um dos presentes, mandá-lo-ia agachar e ele obedeceria. Depois bastaria saltar-lhe para a espinha e montar. Mas a realidade era outra! O Xinoca teria de se desenrascar, nenhum dos presentes queria fazer de militar de Abril. Foi o que fez, meteu o bichano na parte baixa de uma duna e saltou-lhe para cima. Como o tempo já estava a escassear, foi necessário recorrer ao galope, porque senão nunca chegariam à Praia Grande. Ao chegarem ao Guincho cada um escolheu o seu ritmo e, de uma maneira geral, a carga foi a velocidade que imperou. Quanto ao Xinoca, optou por parar, largar o volante, enrolar um cigarrinho, ao mesmo tempo que dava folga ao rabo. Só que este tipo de cenas não eram as mais aconselháveis no momento, porque o animal cheirou o chão deitou-se de imediato, atirando o adolescente com cara de oriental de pantanas, tendo no entanto ainda conseguido dar a última “passa” antes de aterrar. O trombudo, que estava na outra ponta da praia, nem queria acreditar no que via. O cavalo do Xinoca parecia um cão a coçar-se no chão e quando a festa acabasse de certeza que iria a Cascais tomar um copo. E quem tinha deixado o Bilhete de Identidade, aliás o único a levá-lo, tinha sido ele, como prova que eram todos “meninos de boas famílias”. E o seu Renault 5 não valia nem metade de um burro sarnento, quanto mais um cavalo inteiro. Ficaria de certeza a lavar cavalariças o resto do ano e estragaria as suas botinhas com brilhantina. Meteu “prego a fundo” e conseguiu chegar a tempo. Quanto ao Xinoca, queria era regressar a pé, alegando já ter o traseiro em chamas e não querer ser confundido com algum revolucionário tresmalhado. Conseguiram convencê-lo a dormir nessa noite de barriga para baixo, para que as marcas no mealheiro desaparecessem.

 

16
Mar19

3ª Temporada - Dia da Raça


Comandante Guélas

 

Pica Popov e Serra.jpg

 

 

25

 

Na gloriosa Vila-Estado de Paço de Arcos, terra do Comandante Guélas, onde o Querido Líder esmagara os comunistas, seres que tinham a inteligência reduzida ao mínimo e a transpiração elevada ao máximo,  no Dia da Pátria, o da Raça Paçoarcoense, eram entregues os Diplomas de Paçoarquiano, àqueles que tinham conseguido superar a prova das 20 perguntas patrióticas. A cerimónia decorria sempre na Praça Daniel Martins de Almeida, o Poeta-Trovador que cantara vezes sem conta o Hino Paçoarcoense, onde a sua Estátua substituíra a do patrão Lopes.

 

1 – De que se alimentava a Miss Eunízia? 2 – Qual o paçoarcoense que disse que “em Portugal existe uma fábrica de entortar bananas”? 3 – Quem era o noivo da Sapa? 4 – Onde nasce o esparguete? 5 – Onde vivia o Ratinho? 6 – Quem foi o primeiro paçoarcoense a fazer a travessia nocturna a nado entre o pontão baixo na Praia Velha e os Socorros a Náufragos? 7 – Qual era o nome do Guélas? 8 – Qual a primeira residência oficial do Charlot? 9 – O Labumba era gordo? 10 – Quem era o Keida que morreu com um tiro nos cornos? 11 – De que país era originário o Fritz Moka? 12 – O  Frank Monka habitava na vila? 13 – Qual o nome do primeiro Caçador de Gambozinos de Paço de Arcos? 14 – Como se chamava a discoteca em que o Fritz Moka foi porteiro? 15 – Qual o nome próprio do Tóquinhas? 16 – Em que país estava emigrado o Frank Monka (“eu andarem à procura de tus e não encontrarem”)? 17 – Quem é que dizia “Espera aí que já cospes” nas cenas de beijos no cinema? 18 – Nome completo do Bolinhas? 19 – E a frase “ó Ferreira queres um sofá ou uma cadeira” quem a disse?

A cerimónia era sempre bela e elegante, com glamour, graça e interesse, que se iniciava sempre com um dueto entre o “Carlos Ribeiro Mais Quatro” e o Passionário Charlot, cantando o hino oficial, o “É Motorista” (https://youtu.be/yxs1F_05oP4), ao mesmo tempo que se soltavam as pombas do Manelinho do Estrume, e o Todo Boneco tentava abatê-las com a sua carabina de pressão de ar, que cegara o bóbi, o “pitbull” de cauda enrolada do João da Quinta, Irmão do Zé dos Porquinhos, vizinho da Sesaltina, que lhe ousara um dia insultar a senhora sua mãe com um ladrar de rafeiro. Seguia-se depois o discurso da apetitosa Tita dos Pés Sujos, que trazia sempre um elegante vestido em forma de santola, e umas sandálias sensuais que faziam sobressair as unhas em forma de águia, estilo meninas do Sado. A ela seguia-se o Frank Monka que debitava o nome dos planetas do Sistema Solar. No fim distribuíam-se os questionários para os candidatos da cerimónia do próximo ano. E houve um dia em que a cerimónia de Paço de Arcos coincidiu com a classificativa do Rali de Portugal, Penina à Noite.

- Ide soltar os vossos demónios, juventude, - disse o Comandante Guélas. – A pátria irá precisar de vocês no futuro.

Após o bólide ser engolido pela noite serrada, depois de ter tornado dia, por breves segundos, uma pequena parte do asfalto, e o seu ruído ensurdecedor ter obrigado os demónios a fugirem assustados para as suas casas, tudo voltava a cair na escuridão da Penina. Era nestas alturas que a festa retornava à estrada. Um Tarzan sobrevoou o povo na sua liana, mas o grito tornou-se aflitivo quando ela se partiu logo a seguir a ter atingido a vertical do alcatrão, obrigando o selvagem a uma aterragem forçada, e de costas. As lanternas acenderam-se e descobriram que o morcego era o Xinoca, o acólito mais alcoólico da vila, e que nem um “pio” soltava.
- Se não o tirarmos dali vamos levá-lo para casa em forma de tapete oriental, - disse o Olho Vivo, com uma vista no chinês e a outra no decote iluminado por uma fogueira duma desconhecida.
Bastou passar um copo a transbordar de cachaça pelas suas narinas, para que o preferido do Capitão da Quinta Divisão voltasse à vida e corresse apressado para o seu garrafão, que o aguardava em cima do barranco. O chinês tinha ficado desidratado com a queda. Quando já se ouvia ao longe o roncar de mais um bólide, eis que outro artista aparece no palco, fazendo questão de presentear o público com uma pega de caras. Tinha feito mal os cálculos e acabou por ser atirado à valeta, não com o impacto, mas sim com a deslocação do ar. O Peidão aproveitou mais esta pausa para tentar entrar em contacto com o Zé Pincel via Walkie–Talky, que tinha ficado na base a guardar os “peidociclos”.
- Pincel, aqui Peidão, escuto!
- Rrrrrr…rrrrr.
- Pincel…estás a ouvir-me?
- Rrrr…dão..ou…tomar uns copos.
- …copos???...Guarda o aparelho no bolso..
- Rrrrrr
Finda a comunicação, mais duas horas de prova. Depois foi a terrível descida. O Mac Macléu Ferreira estava mais para lá do que para cá e o seu peso era incomportável com os corpos franzinos dos amigos. A opção tomada foi deixá-lo a dormir na vala e ir buscar uma mota. Quando chegaram à base foram recebidos por um Zé Pincel com o capacete integral na cabeça e em estado etilizado que nem lhe permitia conhecer os amigos, muito menos o paradeiro do aparelho. Desapareceu na escuridão e só ouviram algum tempo depois o motor da sua Zundapp em alta rotação a desaparecer na noite fria e escura da Penina. Foi nessa altura que a estrada foi aberta ao público e os únicos a subirem foram os membros da Juventude Guéliana. O Mac Macléu Ferreira só foi descoberto meia-hora depois, após difíceis buscas ao longo da valeta.
- Ficou sem cara, - gritou o Zé do Fotógrafo, ex- cozinheiro-comando, irmão do Bigornas, gerente da mais importante loja de fotografias da vila de Paço de Arcos, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”.
O mistério foi esclarecido quando olharam melhor para o adolescente caixa-de-óculos loirinho. A cara estava tapada pelo jantar, que tinha saído sem pedir licença. Veio à boleia do condutor mais sóbrio do grupo, o Velhinho, que o levou de imediato para o Hospital de Cascais, porque necessitava urgentemente de uma dose de glicose. O Mac Macléu Ferreira teve direito a uma unidade, enquanto que o seu motorista Velhinho, o sóbrio, gramou com duas. Entretanto na serra procedia-se a outra busca, o Walkie–Talky do Peidão. A sorte estava do lado dos bons. Um elemento do grupo que pernoitava alinhadinho debaixo de uma árvore contou-lhes que umas horas antes tinham sido atacados por um desconhecido, que lhes dissera ser lutador de Karaté e quisera praticar com eles a arte milenar.
- Tivemos de nos defender daquele louco, que para o Karaté não parecia ser dotado, acabando por tentar acertar-nos com este rádio.
O Zé Pincel apareceu no dia seguinte com a cara toda inchada e, segundo explicou, tivera um acidente de mota. No entanto não foi capaz de explicar como é que a mota e o capacete nem um risco tinham. Quanto ao Mac o Velhinho contou que o tinha levado a casa, aberto a porta e perguntado se estava bem:
- Estou rijo, - e avançou, batendo com a cabeça na parede, com tanta força, que a mãe acordou.
O motorista pirou-se, pois não queria que o vissem sóbrio, dava mau aspecto.

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