Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

07
Out20

5ª Temporada - As Miópias do Ar Quente


Comandante Guélas

 

Paço de Arcos Charlot 1.jpg

 

5

Sempre que morria um Grande Paçoarcoense caia uma das pedras ebúrneas da Acrópole da Vila, o Chalé da Merda, e era declarado cuecas a meia-haste. Foi por tantos terem tombado de uma assentada que restaram poucos obrigando o Querido Líder a declarar “Inverno de Malucos”, autorizando a construção da Tapada do Mocho, que se revelou um viveiro de figuras públicas: adotou o Zoio do Pimenta, que se punha nu em frente ao café Picadilly e dizia ser irmão gémeo do Chico Boatos, viu chegar das Províncias Ultramarinas o Ponto de Interrogação, mocado militante que andava sempre com uma viola e só tocava uma música, “wish you were here”, e tantos outros que a História da aviação não esquecerá. Mas quando os céus chamaram Daniel Martins de Almeida estremeceram os colhões de toda a vila, das mulheres e dos homens, e na esperança coletiva ficou um vazio. Nesse dia o Comandante Guélas mandou um ex-comunista falar em Seu nome à vila. O Bill, que viveu com a Catarina Eufémia, e foi vítima de violência doméstica, ela arreava-lhe com o martelo, por isso “foi-ce”, e o cabo da GNR é que apanhou com as culpas, era agora um fervoroso anti maoísta, mudança concretizada no Campo de Reeducação  “O Trabalho Anima”, na Terrugem de Cima, onde os casos difíceis eram sempre isolados numa cave com as cuecas do Bajoulo e as meias do Ánhuca, de onde só saiam depois de terem renegado a escumalha da UEC. Iria fazer mais um discurso ininteligível, característica principal deste paçoarcoense ambíguo, que marcava golos só na própria baliza.

- Perdemos hoje um grande herói, - principiou do cimo do depósito de água no Alto de Paço de Arcos. – Este nosso amigo recuou repoltrear-se no onanismo patriótico da vila comunista, tendo-se tornado mestre de si mesmo, errabundo, nunca sujou as mãos ao cagar, alçando-se no Olimpo da Vila com o seu nobre recacho poético, o “Eh Motorista”. A sua solidariedade era cálida, instintiva, adagial, por isso mordia no adversário sempre que defendia um amigo.

Para não perder o discurso, o Focas, que estava na primeira fila, tal como fizera uns anos antes numa praia em Sagres, junto a um casal de turistas que jogava raquetes à beira mar, abriu um buraco, baixou as calças e começou a defecar. Defecar? Não, o Focas não defecava, cagava, à grande e à francesa! Mais uma vez o Bill ficou a discursar sozinho, enquanto os amigos do Daniel relembravam os seus 40 anos, altura em que resolvera ir ao oftalmologista e saíra de lá com 14 dioptrias em cada olho, ganhando de imediato a alcunha de Clark Kent quando entrou no Bar Cú à Vela.

- Ar Quente? Será por causa das minhas miópias?

O Comandante Guélas, Querido Líder de Paço de Arcos proclamou de imediato uma unidade de refracção exclusiva da vila, a Miópia.

- E não ficará apenas cingida aos olhos, a Miópia abrangerá todos os males da cabeça.

- Então o Milhas tem desde já 100 Miópias, - exclamou o Pontas apontando para o vizinho, que ficou com as sobrancelhas oblíquas, sinal de indignação.

- Porque é que eu vim para este bar, - gritou o visado, correndo para a porta.

O Milhas era um filósofo da vila, autor da monumental obra paçoarcoense “Porque é que eu Vim para este Mundo?”, cujo equivalente espanhol se intitulava “Dom Quixote de la Mancha”, e contava a estória do Cavaleiro Constante e do seu fiel companheiro o Sinai, o único canídeo do mundo com um tufo num olho.

17
Set20

5ª Temporada - Oguedinâguio


Comandante Guélas

 

PA Malta.jpg

 

4

Os portugueses tinham uma relação de domínio sobre a Natureza, enquanto a dos paçoarcoenses era de agradecimento. Agradeciam o Daniel Martins de Almeida, o Ratinho Blanco, o Álhi, enfim, todo o Electrogumitário (https://pacoarcosverdadeirahistoria.blogs.sapo.pt/2a-temporada-o-electrogumitario-5508). Por isso convinha sempre ouvir as palestras do filósofo Perre Pomme-de-Terre no Coreto:

- A nobreza do meu pai, Marquês Petroni, título comprado ao Alice, tornou-me um minucioso relógio, onde os minutos são todos os meus negócios!

As saudades do Bill eram tantas que um grupo de notáveis da vila-Estado de Paço de Arcos fez correr pelas terras do Comandante Guélas um abaixo-assinado a pedir a Nossa Senhora o regresso do dito em vez de chuva. E outros acrescentaram ao pedido o envio imediato do Chico Boatos para Macau, sem possibilidade de retorno. Mas havia um problema, o Bill vivia num vigésimo terceiro andar, só usava elevador para descer e nas ascensões só passava pelos andares ímpares.

- Assim nem a Virgem lhe consegue deitar a mão, - queixou-se o  Caveirinha, um devoto do desempenho futebolístico do referido comunista.

- Agora não dá para ir buscar o nosso querido Bill, começaram a soprar umas bufas e os chinocas desataram a tocar as sirenes de avisos de tufão. É por isso que o Graise está proibido de ir a Macau, punha os amarelos em confinamento permanente com cada bufa que desse, incluindo o Bill.

Enquanto isso na Papilheira o Sarapito, na companhia do Marreco, gabava-se da amizade de 45 anos:

- Vamos comemorar com umas cervejinhas, - propôs o irmão do Tio Kiki.

- Bossus, viens ici payer, - chamou o irmão do padre mais tarado da vila, que já estava junto ao balcão.

- Esqueci-me da carteira em casa!

O Marreco estava traumatizado há muitos anos, porque o Carlos Ponta devia-lhe ainda 5 escudos pedidos à porta do Jorge Silveira, e o Pica 14 escudos, por isso ainda não se conseguia reformar. Quem andava em roda livre era o filho do Presidente, o Presidente Júnior, futuro Presidente do Futebol PA, que bastava dizer o apelido à bófia, para que eles lhe fizessem uma continência, seguido de cumprimentos ao seu “paizinho”. Por isso quando ia de mota para a noite de Cascais a prego a fundo, levava a sempre cabecinha ao lé, e era só escolher a festa a que queria ir, bastava mostrar o BI: Costa Gomes! Uma recusa era motivo para acusação de “fascista”. Na Curva dos Raposos havia festa na casa dos pais, que estavam na Bélgica a descansar dos filhos. E ainda por cima era ano do Mundial. O Morris Mini do avô pegava com ligação direta, depois de um gamanço de 5 litros de gasolina, e guinchava nas ruas das redondezas cheio de tenrinhos, como o Capitão porão gostava, mas só alguns do pica alinhavam. Mas havia mais! Na doca de Belém os raposões também tinham um barquito, que também era gamado pelos filhos e amigos, que rumavam em direção a Cascais para fazer shows de sku, pois o único que conseguia chegar ao Ski era o Má-Cara! Mas a estória do dia tinha a ver com História. Na sede do Clube Desportivo de Paço de Arcos o empresário Pierre Pomme-de-Terre revelava, em primeira mão, que a Tita dos Pés Sujos, musa do Bajoulo, chamava-se na realidade Anastasia Nikolaevna, filha do último Czar da Rússia, assassinado pelos amigos do Bill.

- O meu táxi, o meu táxi, roubaram-me o táxi, - gritou o Carinha da Avó entrando de rompante na reunião.

O Marginalíssimo e o Bar Cu à Vela eram antros de política e de futebol, onde gente de todo o calibre discutia todos os assuntos com a língua afiada e a alma a ferver. Por vezes o caldo entronava: o Bigas aparecia de pistola, o Carinha da Avó sacava de uma faca e o Frederico, não o dos jornais, com muletas. A batota das noites sempre ajudou a aumentar os pecados dos dias. O Drenos, dono e senhor do balcão do bar do Tolas Monas, tinha sempre o cuidado de passar a sarda, carregada de quinino, no fiambre da tosta mista dos clientes, tornando-as superlativas, transcendentes, precursoras da comida gourmet. O senhor Daniel Martins mandava no Cu à Vela, e protegia-o com unhas e dentes, neste caso com uma vela e Sheltox, cujo líquido o transformara num conguito. O ganha-pão do Carinha da Avó tinha sido vítima de todas estas movimentações políticas e futebolísticas, o Pontas entrara para o lugar do condutor, o Frederico, não o dos jornais, para o lugar do morto, e tinham desaparecido no meio do nevoeiro com o Nissan Bluebird HL-07-37. O Bill viu os meliantes e fez queixa à PIDE, Polícia de Investigação e Defesa da Esquerda, que transmitiu a informação ao dono, que também era do Comité Central. A retaliação não se fez esperar, o Serapito e o Carinha da avó roubaram o barco do Carinhas e zarparam para o Bugio. Mas a corrente e a ondulação eram tão fortes que a gasolina só deu para metade do percurso. Felizmente o Álhi acionou os socorros e os náufragos foram salvos. Caso não o tivesse feito Paço de Arcos perderia para sempre dois dos seus queridos filhos, a seguir ao Milhas.  

30
Jul20

5ª Temporada - A Pescaria (3)


Comandante Guélas

 

Fininho rua.jpg

3

- Pesseguinho, - chamou o senhor António de Barros quando viu passar junto à sua banca de panos, na Rua Direita, o jovem Laranja, atleta de alta competição da seleção de andebol da República Independente do Alto de Paço de Arcos, dirigida pelo carismático Comandante Guélas, que anexara a parte de baixo e se declarara Querido Líder.

Quando o Bill chamou pelo Avô Leão, herói de Paço de Arcos e marinheiro afamado, companheiro de carteira do Patrão Lopes, ambos alunos do Professor Lebre, trisâvo do Professor Coelho, já estava a meio do rio Tejo, a nadar de costas, com os sete netos na barriga e um canhão de bronze na peitaça, para a pesca da petinga. De regresso à vila-Estado, a questão da alemã era se esgalhava ou não esgalhava o ganço do Sarapito, que vinha em estado alcoólico no banco de trás do carro do Pilas, que dirigia o bólide em coma alcoólico, tendo como copiloto o Velhinho, o mais sóbrio. Triunfou o prazer, agarrou-se com unhas e dentes ao frango do amigo, e só o largou quando este lhe começou a queimar a mão. Do prédio dos Grilos, onde fazia limpezas, saiu apressada a Quitéria em direção à gare, local onde levantou as saias e fez a mija do costume. Mas no prédio nº 155, onde também limpava as escadas, dava sempre confusão, pois havia um grupo de rapazes que se juntava no último andar para se meterem com ela, que os ameaçava com a escova de arame, altura em que alguns tinham um gostinho. O seu amante António Filipe, que nascera em 1918 em Requeixo, Aveiro, e que viera viúvo para a Costa do Estoril, ganhara a alcunha por causa da visita que um dia o Presidente de todos os portugueses fez à vila, e quando se encontraram o chefe de estado disse-lhe que era muito parecido com ele. E assim nasceu o Craveiro Lopes de Paço de Arcos, o equivalente ao Beato Salú de Évora. Mas a rapaziada andava danada para a brincadeira, escrevera “caralho” numa tabuleta da carripana que ele puxava, carregada de linhas e tecido que vendia na praça, e a polícia prendera-o, a ele e à sua fiel companheira de quatro patas, a Laurinda. Quando regressou à vivenda de madeira na Terrugem de Cima, deu-lhe uma cólica tão grande que não teve outro remédio do que ir descarregar o conteúdo intestinal na quinta do Leacock, e por sorte não acertou no novo filho que a Maria Adelina abandonara no meio das ervas. Era a quarta criatura, o anterior ficara numa escada em cascais, e o seguinte iria diretamente do hospital para adoção, e a mãe sairia esterilizada. Os pais, a Amélia da Silva e o Luís Costa, tinham tido cinco moças, a Isabel Virgínia, a Maria de Lourdes, a Rosalina, a Graça, a Adelina e a Arminda, mas não havia ninguém que batesse o Manelinho da Carroça, dezassete rebentos, sem ver a luz do sol, tal como o Conan. O Caveirinha deliciava-se com as obras do Espanhol da Rampa, o maior pintor da vila, mentor do Zé Maria Pincel, e para impressionar a Espirro de Punheta fazia considerações sobre o autor:

- Este pintor transportava vinho nas latas de tinta!

E como estava numa onda de cultura, levou a amiga a conhecer os azulejos do Chafariz Velho:

- A água que sai desta bica vem da Quinta do Barro, propriedade do Julian Philip Leacock, um abastado inglês que se naturalizou paçoarcoense depois da vitória do Querido Líder. Um dia entramos neste túnel para te mostrar o meu gambozino.  

No alto mar, na Cova do Vapor, dois paçoarcoenses da elite de pesca brava lutavam furiosamente contra um peixão que ameaçava afundar o bote do Pilequinhas. Estavam ambos, o Dr. Cinzento e o Toquinhos Castanho, pendurados na cana do médico:

- Cheira-me a merlin, - gritou o pescador responsável pela montagem de metade dos painéis solares da vila-estado que produziam eletricidade clandestina.

- É um espadarte, - sentenciou o doutor responsável por arrebitar as mamas de metade da terra do Comandante Guélas.

Nem merlin, nem espadarte, mas sim um fabuloso robalo com 120 gramas e com uma camisa de vénus encravada na cauda. Mas o dia não era para descanso, o guizo da cana do montador clandestino começou a guinchar e ambos se precipitaram para o carreto.

- Cheira-me a atum, - tornou a gritar o Toquinhos Castanho.

- É uma anchova, - sentenciou o Dr. Cinzento.

No anzol estava uma fataça, com uma das inúmeras cigarrilhas que o médico atirara para o rio ao longo do dia, na boca.

 

 

24
Jul20

5ª Temporada - A Seleção (2)


Comandante Guélas

Rato.jpg

2

Em Paço de Arcos há mortos muito mais vivos do que muitos vivos. Na Folha Oficial da República publicara-se a verdade histórica, a Quitéria da Silva e a Maria Emília eram filhas do mesmo pai e da mesma mãe; o senhor José, arrumador de carros do restaurante “Os Arcos”, era meio-irmão da Quitéria e a Maria Emília era meia-irmã, da parte da mãe, do Silvino Pereira, pai do Carlos Pereira, o Pipi, nascido em 1/05/1943, irmão de Maria Helena. Quando o Alvarinho do Bairro dos Corações, o Pau Preto, dono do barco Carau Carau, chegou à praia vestido com a t-shirt branca que ostentava a palavra “CHEFE” escrita a vermelho vivo, o Banheiro e o Cabo do Mar fizeram-lhe continência, sinal de que a máxima autoridade da zona era ele. Cumprimentou o Rato, o porteiro, que abria e fechava a zona, e que no século seguinte, já careca, iria por 3 filas de cabelo, com risco, mas como a colheita do médico Preto será no caniche do Conan, ficará com carapinha. O Alvarinho jogava hóquei, por isso apresentava-se todos os dias no clube com uma tanga azul, cor africana, besuntado com óleo Johson e cabelo sempre seco para poupar na laca Elnett. Era vizinho da menina Regina, a única costureira da Costa do Estoril que morreu solteira e virgem, porque o amor da sua vida, o Sarapito, com quem ia muitas vezes à matiné no cinema, nunca ousou fazer-lhe o que fazia à preta do Marginalíssimo.

- Sou um príncipe para todas as jovens que procuram os meus serviços, - costumava dizer.

Mas havia uma coisa que o Sarapito não sabia, que o senhor António Marques Filipe, mais conhecido por Craveiro Lopes, viera de Aveiro, sem carta de condução, ao volante de um Ford Anglia 100 cinzento, modelo sem bicos de peixe, no mesmo dia em que Quitéria Barbuda, que trabalhava no Couraça a descascar eucalipto, esteve para casar por procuração com um jovem que estava em Angola. As meninas de Paço de Arcos eram as mais felizes da Costa do Estoril. Os moços tinham a fama de trombeiros, por isso as meninas de Oeiras e de Caxias andavam loucas. O cheiro da maresia da Praia Velha tanto se entranhou nos seus habitantes, que acabou por causar mutações genéticas: a língua do Sarapito tocava no nariz! O cargo de Chefe de Praia foi mais tarde entregue ao João da Esmeralda, sobrinho da D. Esmeralda de Silva Lopes, sobrinha do terceiro, e último, Patrão Lopes. Mais tarde as façanhas destes dois heróis da Praia de Paço de Arcos iriam ser tocadas ao piano por outro Lopes, o do J Pimenta, hoquista e professor da primária, que patinava muito direitinho, dando a sensação de ter um cabo de vassoura espetado pelo cu adentro, com os cabelos compridos que não conseguiam voar por serem alisados com azeite, incluindo a franja. Na Feira de Paço de Arcos a Mulher Serpente, que era bruxa nas horas vagas, viu-o numa bola de cristal:

- Vais aprender piano após os cinquenta, estou a ver-te a caminhar na Rua Lino de Assunção, com cabelo à professor Pardal, boina de artista, cachecol vermelho, mala a tiracolo, depois de teres jogado cartas na Sede do Clube e tido uma reunião com o Grilo e o Mário Jorge, mano do João Manuel da turma da Maré Mansa.

Quem andava à beira de um ataque de nervos era o Barbatolas, guarda-noturno da Avenida, que não deixava os putos andarem de bicicleta no jardim, nem jogarem à bola, correndo com eles à pedrada e aos tiros. Um grupo de rapazes contra-atacara e enchera a porta do coreto cheia de sacos de lixo. Mas os mitos da vila caiam como baralho de cartas, o Zé Luís afinal não era filho do Russo, era primo direito do Casemiro e irmão do Pedro Pescador, não o da Bíblia, mas irmão de uma rapariga que vivia no Largo dos Fornos em frente ao jardim.

A notícia do dia era a chegada da seleção de jovens que fingiam ser estudantes, vice-campeã de Andebol, de Bordéus, onde ganharam à equipa da casa, empataram com os Girondinnes e foram derrotados pelo Metz, que jogou com os seniores. O Careca foi expulso porque chamou “filho da puta” ao árbitro, descendente português, e o Zeca mostrou ser conhecedor da língua francesa na rua das putas:

- Cambien une fudeca?  

16
Jul20

5ª Temporada - Os Pioneiros da Sustentabilidade (1)


Comandante Guélas

 

Pioneiros.jpg

 

 1

No Centro de Estudos Dr. João da Quinta, na Rua das Pias, na Terrugem de Cima, paredes meias com a Universidade Dr. Ánhuca, um grande cientista expunha a sua teoria sobre como evitar a extinção da raça paçoarcoense ao Comandante Guélas, o Querido Líder da vila-Estado de Paço de Arcos:

- O conceito PMV, População Mínima Viável, diz que cada espécie tem o seu limite, o número mínimo de indivíduos necessários para prevenir a extinção.. Para os humanos esse número é de 160. Cento e sessenta pessoas bem escolhidas só poderão ser paçoarcoenses, os genes mais evoluídos para salvar a espécie humana. Dou como exemplo os fabulosos manos Titi Pampilheira e Marreco que nunca vão ao mesmo casamento porque só têm um fato, que é propriedade deste, que o comprou ao Bandeira, e uma camisa, do primeiro casamento, em que o Pierre Pomme-de-Terre esteve vestido com uma toalha de mesa a atirar queijos da serra para a mesa do presidente da ITT, que estava em amena cavaqueira com o Daniel José Martins Di Aumeida, a falar de política internacional. O meu plano é fazer um atentado tão grande de Litopone, que extinga de uma vez por todas o cancro do comunismo. Uma espécie de quimioterapia, rebenta com as metástases, sacrificando-se os outros, excepto os 160 eleitos.

E contou. Pretendia alugar o Peugeot BM-18-34 e motorista, em substituição do BU-13-78, que acabara de arrancar um poste na marginal no valor de 31 contos, cujo seguro só pagou 30, tendo a mãe do Conan Vargas pago os mil escudos restantes, cujos restos do bólide que acabara de sair do stand iriam ser vistos anos mais tarde numa pilha num ferro-velho em Beirolas. Para o lugar do morto contratara um paçoarcoense com currículo, o Chico Boatos com a farda 3, porque era o único oficial de dia da vila que fizera um auto-teste de álcool que acusara 2.8, quando se viu ao espelho e se apercebeu que queria matar uma melga com um míssil anti-aéreo. Mas havia mais! Os investigadores da equipa do Dr. Bigas tinham descoberto que o tempo parara uma nanofração de segundo no dia do nascimento do senhor António Filipe, em 1918, em Aveiro, Requeixo, mais conhecido na vila como Craveiro Lopes. Como resultado a força das marés divergiu, sendo esta a explicação para os fenómenos de meteorologia intestinal do Focas, do Velhinho e do Graise. A notícia do dia falava da condenação do Sarapito, um fim de semana no Algarve com o Janeca, o cão com três patas, o Constante, numa viagem com o Milhas a guiar, janelas fechadas para poupar combustível, e o Rato no banco de trás, ao colo da enfermeira ucraniana, que lhe iria dar de mamar, e tudo isto porque ofendera gratuitamente um dos heróis da guerra da vila, o captor do social-fascista Bill, o capitão Fininho.  A Ester e a Arlete confidenciaram que o Milhas, criado por elas juntamente com os irmãos, dizia que a qualidade dos genes dos Pinto Correia tinha acabado nele. A partir daí fora sempre a descer. O congresso acabou com as palavras sábias do João da Esmeralda, descendente dum herói de Paço de Arcos:

- Como paçoarcoenses somos poderosos. A forma como usamos esse poder, é uma escolha nossa. Como disse a grande Dra. Quitéria Barbuda, “Ontem é passado, o amanhã ainda não chegou, temos apenas o hoje. Por isso, vamos a isso!”.

Eram seis os ilustres descendentes do Patrão Lopes, em cuja base da estátua estava enterrado o cão mais famoso da vila, cujo nome tinha o seu apelido, e que se casara em primeiras núpcias com a Melita. Seis ilustres descendentes, a bisneta Esmeralda, o Vilas, o orador, o João Fiscalista, a Aninhas Carro Elétrico, casada com o Ruca do andebol, e a irmã dela, conhecidos como os  Patroleiros, que se encarregavam de manter viva a memória do herói, contando diariamente no Coreto as aventuras do “Grande Timoneiro Paçoarcoense”.

- Os verdadeiros descendentes do Patrão Lopes vêem-se pelas orelhas, - dizia o Luís de Espanha, o maior especialista do patrão.

O João da Esmeralda por conseguir ficar mais preto que o Preto durante o verão, era sempre nomeado “cidadão fora do horário” (Chefe de Praia) pelo Querido Líder Chefe, para mostrar que o Guélanismo era amigo do multiculturalismo.

 

 

 

 

09
Jun20

4ª Temporada - O Tubarão (13)


Comandante Guélas

 

Tubarão.jpg

13

O Professor Coelho, docente oficial do Comandante Guélas, costumava dizer aos seus alunos que a Batalha do Chalé da Merda era equiparada à Batalha das Navas. Na primeira tinha sido derrotado o Califado Vermelho do Bill, no segundo o Califado Almóada. Paço de Arcos era berço de oradores prolíficos, a ciência dizia que os genes dos sofistas gregos tinham reaparecido nesta vila da Costa do Estoril após a conquista do Comandante Guélas. Numa manhã solarenta regressava o Pontas calmamente pela marginal, vindo da Baixa, na carrinha Nissan pick up FQ-22-20 quando, na zona de Alcântara, vê o Tubarão a pedir boleia ao pé da fábrica de açúcar. Travou a fundo, mas a moca impossibilitou-o de identificar o condutor. Até que:

- Fo fo fo fo foda-se, és tu Pontas? Paraste, já vinha para te fazer a carteira. Depois é que vi que eras tu.

- De onde vens Tubarão?

- Foda-se, não dormi nada, sempre a ressacar, fodi dinheiro a um gajo e vim ao casal comprar uma " quarta". Dois contos era o que tinha de arranjar. Mas preciso de mais para logo.

O Pontas sabia que para ter cultura geral, também tinha de questionar os filósofos:

-Uma quarta? O que é isso?

- É uma dose. Um quarto de grama de "brown".

- Brown?

- Sim. Brown sugar.

O jovem estudante sabia que os filósofos paçoarcoenses falavam torto com significados direitos, o Tubarão metia na veia açúcar mascavado.

- Deixei-o em casa. Ao lado do Palácio, - reforçou o mestre.

Por ser único, o Tubarão destacou-se no meio universitário, se lhe faltavam palavras nos discursos, utilizava sons. E um dia quando estava a contar um filme, mais especificamente a cena com um carro da polícia, foi traído pela emoção, encravou na palavra carro, e só conseguiu avançar quando imitou a sirene. 

- Ó Pontas! Os te te te te te teus pais sa sa sa são médicos na na na na não são?

- Sim!

- Então de de de de devem ter lá em cccc. ccc .. cc . casa bué de remédios... não?

- Têm os armários cheios.

- Se mmmmmm. mmmmm... me trouxeres todos os qq qqqq qqque que que o nome aca.. aca.. acabarem em" x", eu compro!

O Tubarão, tal como o Luther King, também tinha um sonho, um armazém recheado de medicamentos terminados em “x”.

- Me me me me... mandrax, te te tás a ver? Xa xa xa xá xá nax. Traz tudo acabado em X, que eu compro!

E também o Lexotan, o único acabado em “L”, que fazia sucesso no meio da academia dos assistentes do professor Alice. É justo dizer que o Tubarão foi uma espécie de Da Vinci paçoarcoense: dançarino, nos dias em que dizia ser o  Travolta de Paço de Arcos; precursor nas tatuagens, confidenciou um dia que até a pichota tinha desenhos; pescador, nos tempos livres da química ia à pesca com o seu amigo Balacó, e um dia até o surpreendeu equipado a rigor com jardineiras impermeáveis do pescoço aos pés. Caiu à água e ficou de cabeça para baixo, tipo bóia! O Pontas ia tão embevecido por tanta eloquência, que nem reparou no Porki, que tinha o dedo mindinho da mão direita torto, cabelo cheio de azeite e dentes amarelo-torrado, a atravessar a rua. Por pouco espalmava o noivo da sobrinha colorida do Sá Carneiro. Deixou o mestre Tubarão junto à mota do Rebelo sempre a trabalhar, durante horas, ao ralenti, enquanto ele bebia imperiais durante a tarde toda no Pombalino. E quando alguém se aproximava do bólide, de imperial na mão dizia: "esta máquina veio do México”. Mas a novidade do dia tinha sido o pedido de casamento do Bolinhas, junto à bola de Nívea, aos pais da Sapo.

- E o que é que tu fazes, ó rapaz? – Perguntou o futuro sogro.

- Nasci rico, a minha família tem minas de açorda e de sabão no Alentejo.

O senhor prometeu ir pensar, e os amigos do Bolinhas reforçaram o pedido, fazendo uma guarda de honra na Avenida à mãe e à filha, com o futuro noivo à frente a implorar a autorização da sogra. Mas Paço de Arcos além de filósofos também tinha outras musas, a Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, irmã da Batata, a Tita dos Pés Sujos, a Espirro de Punheta, e tantas outras que tornaram os verões de Paço de Arcos ainda mais quentes. Não se namorava no Coreto, porque cheirava a mijo, mas esgalhava-se muito nas Fontainhas!

Fim da 4ª Temporada

01
Jun20

4ª Temporada - O Suicídio Assistido (12)


Comandante Guélas

Pinguim.jpg

12

Quando o Chico Sá, também conhecido como Caveirinha no Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR), onde era agente, passou numa motorizada, com uma donzela à garupa, em direção a umas moitas, a notícia da promessa de “Suicídio Assistido” do Pinguim, marcada para as 16H00 numa das torres da Direção de Faróis, já percorrera toda a vila-Estado, e o Pierre Pomme-de-Terre não tinha mãos a medir na venda de bilhetes e programas.

- Vou atirar-me para o mar, e nunca mais me veem, - prometeu o corredor oficial do Cabrita e empresário da restauração.

Longe dali o Choné e o Presidente, donos da única bola de futebol e do respetivo clube, o Futebol PA, andavam pelos bares a angariar futuros jogadores:

- Conheci-o numa festa de tias no Restelo, e bastaram quinze minutos de conversa para ver que será um bom avançado centro. Quando sair da moita falamos com ele,

Mas o homem do dia era o Pinguim, até no “Suicídio Assistido” Paço de Arcos foi pioneiro. No programa dizia que o ponto de encontro com os amigos seria junto ao Coreto da Avenida, e que a decisão do futuro suicidado se devia à rejeição da sua pessoa pela Tita dos Pés Sujos:

- É uma ingrata, prefere a mota do Bajoulo à minha Casal 5 de competição, com que participei no Campeonato do Mundo, - confidenciou uns dias antes aos manos Pingalim e Papagaio.

Foi recebido como um herói pelos amigos, a festa era semelhante às de Cabo Canaveral quando os “amaricanos” lançavam os foguetes. Os mais íntimos trouxeram pedras, e encheram-lhe os bolsos e a camisa:

- A zona mais funda é junto à doca, e com este peso vais direto para o fundo, - aconselhou o amigo do peito.

- Eu penso que as pedras são poucas, precisas de mais! – Disse-lhe outro.

Quando o Pinguim deu início às festividades, parecia que estavam na procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Tudo o que o jovem Luís de Espanha aprendeu sobre motociclismo devia-o ao mestre Pinguim:

- As motas de competição têm óleo nos pneus. Não sabes nada acerca destas máquinas! – Explicou um dia, dando uma festa à Casal. – É muito rápida.

E como bom amigo que era, deixou o adolescente com cabelo à caniche dar uma volta.

- Mais alguma pergunta sobre motociclismo? Não? Então até amanhã, tenho de ir treinar cedo para o Autódromo.

Foi mais tarde visto no topo da bola de Nívea na praia de Paço de Arcos a fazer treino mental para o campeonato nacional de motociclismo.

O Dr. Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta, o maior biógrafo paçoarcoense do Pinguim, autor da magistral obra “Voando sobre um ninho de papagaios”, escreveu, “por ser maluco chegou ao topo como guarda-redes de hóquei, com banco na seleção, mas devido a ter levado com uma bola nos cornos perdeu o lugar na caderneta de cromos da modalidade, vendida na Dáni. Ganhou medo às bolas, incluindo as suas, por isso passou a urinar de olhos fechados e a atravessar a pé a ponte do comboio de Santo Amaro de Oeiras”.

- Era guarda-redes da minha equipa em juvenis, e subimos a seniores logo na primeira época, mas eu não consegui aguentar o ritmo e o Choné levou-me por caridade para o Futebol PA, - contou o Fufa.

- Fui colega dele. – Confidenciou, com uma lágrima no canto do olho, o Caveirinha. – Um dia apareceu na aula com um farol que tinha gamado de um dois cavalos, e disse-nos que era a nova namorada!

- Sempre que andava de comboio levava uma coleção de 100 bilhetes usados, - contou o Luís de Espanha, também com um olho húmido, - molho este que usava quando o pica-bilhetes lhe pedia o do dia. Tirava um a um, à medida que dizia “este não é, este também não” e a meio chegava sempre ao destino.

- Tinha como lema de vida uma ideia de Lavoisier, “nada de perde, nada se cria, tudo se transforma”, - disse emocionado o Fufa, seu colega de carteira. - Transformou uma camisola do colega da frente, com uma malha saída, num novelo de lã. E também me lembro dele como Homem-Aranha, porque um dia saiu pela janela de uma aula de Religião e Moral no primeiro andar, no Liceu Nacional de Oeiras.

Como homem dos sete ofícios, trabalhou na AC Santos da Avenida da Liberdade, chegou quase ao topo da carreira de paquete, mas como visionário que era, e só se conhece mais um, o Musk, o Pinguim trocou a carreira de sucesso pelo sonho de uma vida, o motociclismo, tendo dado logo nas vistas, sendo imediatamente contratado pela equipa mais poderosa da altura, a Lolita Veloz, que o equipou a rigor.

- Assisti a todos os treinos dele, - confidenciou, com lágrimas nos olhos, o Fufa. – Tinha uma característica única, enquanto todos os outros corredores metiam as mudanças diretas, ele fazia ponto de embraiagem.

E o Fufa estava na bancada no dia da primeira e única prova oficial do Pinguim, como representante da Casal:

- Ainda estou a vê-lo com fatinho de cabedal e capacete, - disse, assoando o nariz com emoção. – A carreira do Pinguim no motociclismo resume-se a uma reta, pois despistou-se logo na curva Citroen, e partiu a máquina toda.

Um homem assim é mais raro do que um génio, o pai teve enorme influência na sua esmerada educação, era o famoso empresário do Papagaio, com exclusividade na recepção do material roubado nas redondezas. Ele e o Carvalho da Ourivesaria eram unha com carne, por isso tudo o que era ouro ou prata passava para o outro lado da rua. A prisão do pai Papagaio e o atentado ao sócio, um tiro na perna, coincidiu com a ascensão do Pierre Pomme-de-Terre. Quando a vítima regressou do hospital mudou de ramo e abriu a Petisqueira do Gould. Como os traumas do Pinguim foram seguidos, a bola nos cornos e a injusta prisão do querido pai, mudou-se para Porto Salvo e tornou-se um cabeleireiro famoso, estilo Variações. Para não pagar bilhete, como forma de protesto contra o sistema, passou a apanhar, ou o comboio de mercadorias, ou a ir do lado de fora do de passageiros. Voltou a Paço de Arcos, comprou o café da moda, “O Bachil”, acumulou dívidas no jogo, e no dia em que o pai o esperava em Pinheiro da Cruz, praticou um “suicídio não assistido”, apanhando os amigos desprevenidos. Quanto ao “Suicídio Assistido” desistiu, mesmo com o povo a incentivá-lo, mostrando que era senhor de uma textura fina de um comportamento determinado pelo livre arbítrio.

 

27
Mai20

4ª Temporada - Pinga Amores (11)


Comandante Guélas

Pinga amor.jpg

11

Dizem que em Paço de Arcos há muitos gémeos que não sabem que o são, porque partilham o mesmo fígado, e só quando o garrafão se parte é que eles se separam. Foi isso que aconteceu entre o Chico Boatos e o Zé Maria Pincél no momento em que este se casou com a Macaca. Sempre que há uma mudança de regime pela força, o povo reage com um babyboom. Paço de Arcos não foi excepção, mas ficou-se pela intenção. Só o Manelinho da Carroça é que somava e seguia, pois para ele a mulher não passava de uma ovelha, por isso cobria-a em todas as ocasiões, estivesse a cagar ou a lavar roupa nas pias da Terrugem de Cima. Acabou por perde-la para um polícia:

- Vi-a a correr e a deixar cair o último puto das saias!

Em Paço de Arcos houve nesses tempos revolucionários várias adolescentes que deram cabo das cabecinhas de muitos rapazes. E o problema chegou às mãos do Delegado de Saúde da vila-Estado, o Dr. Focas das Docas:

- Isto já me cheira a pandemia, quanto mais perto chegam do Arvoredo, mais tesão têm os miúdos.

- O Zé Cagalhão passa a vida debaixo da janela da Lena Lentes no Mustang do pai, que abana por todos os lados - informou o enfermeiro Alpedrinha preparando as injeções para os dardos.

- Vamos ter que tomar medidas de confinação!

- E anda por ali um gordo de óculos com comportamentos suspeitos.

- Um gordo de óculos?

- Dizem que é o que tira fotos para os passes dos estudantes.

- O Bigornas? Não, o problema dele chama-se Kika, e a menina só o chama quando tem falta de gás butano.

E tinha razão, o Bigornas estava dobrado sob o peso de uma bilha, que a alemã insistia que levasse para o primeiro andar. O Monhé acumulava filmes para adultos e não saía de casa. Fora apanhado na caixa do supermercado com o Mac Macléu Ferreira, o produto não ostentava o preço, e a moça teve de perguntar  ao chefe:

- Silva, qual é o preço desta cassete?

- Qual é o título?

- Garganta Funda, doze anos depois!

O Milhas não largava a porta do restaurante do pai da Huga Huga Lagosta; o Zé Maria Pincél fazia contas à carteira da Macaca. A gota que fez transbordar a paciência do Dr. Focas das Docas foi produzida pelo Graise, quando informou os amigos de que aquela festa era “só para orientados”, ao mesmo tempo que dava um beijinho carinhoso na sua namorada, uma indonésia anã!

- Terá Sísifo sido alguma vez feliz? – Gritava sempre o Bajoulo de cada vez que ia buscar a Tita dos Pés Sujos.

Foi nestes breves segundos existenciais de lucidez, que o poeta oficial de Paço de Arcos escreveu os mais belos poemas: “Numa noite de copos / Com o meu chouriço rijo / O teu nome escrevi / Com um jacto de mijo!”.

O único amor que o Bill sentia era pelo partido, por isso sempre se sentiu atraiçoado por o terem obrigado a casar-se com a causa guéliana, mas precisava dela para conseguir sobreviver naquele meio hostil aos trabalhadores. Foi por isso que um dia o Taka Takata se aproximou dele na Praceta, vestido de varredor:

- Camarada Bill junta-te ao meu grupo terrorista: “AL-TAKA!

Mas a cabeça do Bill estava longe dali, o que presenciara na ex-roulote de cachorros do senhor Carlos & Pedro Pomme-de-Terre, atual Mocho, o Bruxo, estacionada junto do Coreto, pusera em dúvida os seus ideais comunistas, sentira o bafo de Deus. Recuemos. Pierre-Pomme-de-Terre anunciava a Parusia, na altura em que jovem comunista saia de mais um comício. O apóstolo dizia que aquele que se escondia dentro da roulotte dera-lhe como prova um cálice com pingos de mijo extraídos da relíquia paçoarquiana, as veneradas Cuecas do Bajoulo, a última tentação da Tita dos Pés Sujos, nascida na Quinta do Ferreiro, em Moscavide, e benzida pela Quitéria Barbuda, a mulher martirizada pelo Craveiro Lopes, com visões vínicas, afetada pelo Sumol de Laranja com palhinha dada pelo Jorge Vira Bicos da Iolanda.

- São dois pingos grandes e três mais pequenos, - gritou Pierre Pomme-de-Terre abrindo os braços para a multidão.

Foi nesta altura que o Bill se benzeu pela primeira vez, e os que o rodeavam gritaram “milagre”.

05
Mai20

4ª Temporada - O Terrorista (10)


Comandante Guélas

Bill.jpg

10

Quando a “Limousine de Luxo” CI-90-20 do Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR) passou pela porta do Papagaio, dirigida por um agente com um cabelo à caniche, a deslocação do ar deitou os guardanapos, as pevides e os tremoços do Pinguim abaixo, levantou as saias da Maria das Bicicletas, deixando à mostra o Cabrita que estava a mudar o óleo, e o Todo Boneco gritou da porta do Manuel da Leitaria:

- Espera aí que já cospes!

Era a senha para avisar da presença de um comunista. Até um cartaz a anunciar o espetáculo no coreto do grupo “Laranjão e mais três”, autores da famosa música “O Leproso”, foi arrancado da parede por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro de um intestino.

- O Focas anda aí! – Gritou a Tita dos Pés Sujos, escondendo-se debaixo das cuecas do seu Bajoulo.

- Porque é que eu vim para este mundo? – Interrogou-se o Milhas, tirando a cautela das mãos da Blandina, pagando e fugindo, deixando lá o Velinho, perdido nas divagações filosóficas da escolha do número da sorte.

O Carocha virou bruscamente para os lados do Cine-Teatro e parou junto ao Chalé da Merda, onde já o aguardavam o Citroen AV-11-94, o Opel EU-13-12, o Mini FF-62-88, o Citroen GZ-65-33, o Peugeot BM-18-35 e o Renault BU-13-78, o GS-21-11, o Chevrolet da Proteção Civil FC-79-02, o AT-66-70, o Escort LA-91-40, o DI-81-76, Alfa Azul, o EH-87-44, Alfa Branco, HS-35-32, Alfetta, com o pai do Bajoulo, conhecido como o Paiol Móvel do Comandante Guélas, o BU-91-40, o BU-13-78, e o INEM, na pessoa do Dr. Rof, um FIAT 217 Branco com duas matrículas, uma à frente e outra atrás, FC-75-25 e FR-43-07, para confundir o inimigo. O briefing do Luís de Espanha foi rápido e conciso:

- O social fascista Bill sequestrou a cidadã Espirro de Punheta e refugiou-se aqui no Centro Cultural de Paço de Arcos, ameaçando abusar da menina se o Focas não pedir desculpa ao camarada Rodrigues pelo cagalhão que fez atrás da poltrona no Farol. O meliante está cercado, por terra, ar e mar – e apontou para os carros, para a saída de esgoto da Praia Velha, bloqueada pelo zebro de dois metros cujo motor tinha 1 burro de potência, do fuzileiro Horta Correia e para os pombos no fio da puxada elétrica clandestina do Tubarão que cruzava o espaço aéreo da área do crime.

Segundo a estatística do Centro de Estudos João da Quinta pelo menos 10% da população andara no CI-90-20, incluindo o Lopes, o mais famoso cão da vila, propriedade dum dos Latifundiários Culturais da vila-Estado, Daniel José Martins de Almeida, nascido no dia 29 de outubro de 1955 e com morte anunciada para o dia 22 de março de 2008, segundo dissera a Mulher-Serpente da Feira de Nosso Senhor Jesus dos Navegantes. Na praceta havia um mini branco, IE-37-52, que lhe fez sombra, propriedade de um capitão que tinha gostinhos em ver adolescentes a guiá-lo, ajudando os petizes a pôr as mudanças. E um dia a “Limousine de Luxo”, que tinha uma autorização para circular nos tempos “negros do fascismo”, por ser da mesma cor dos carros da PIDE e do Exército, apareceu no meio do Jardim da praceta, “desem querer” (Charlot) e o João Gordo informou os clientes da promoção:

- A quem levar 1 Kg de carne os filhos têm direito a brincar dentro daquele carro, colocado pela CMO, como no Parque do Alvito.

Recuemos no tempo. Uns dias antes o Focas, acompanhado dos seus amigos Pontas e Serapito, tinha ido divertir-se para os lados de Cascais, mais propriamente para a discoteca da Estalagem do Farol, o equivalente à Riviera Francesa, e a uma dada altura teve uma cólica fortíssima que o obrigou a arrear um formoso cagalhão atrás de um dos sofás, limpando o cu a um livro que estava em cima de uma mesa, “O Capital”, de Karl Marx, pertencente a um jovem pseudo-intelectual da UEC de nome Bill. O cheiro era tão intenso que o Pontas desmaiou num canteiro durante a fuga. A negociação estava num impasse, a Espirro de Punheta gritava desesperada:

- Senhor terrorista não és homem não és nada senão abusares de mim.

- Agarrem-me ou eu salto para as cuecas dela, - gritou o Bill empunhando uma bandeira do PCP.

O desbloquear da situação só poderia ser resolvido pelo único expert em diálogo e reconciliação, o inspector Zé Maria Pincél.

- Este vai conseguir, ele sabe o que faz!

Zé Maria Pincél torturou um dia o Horta na casa da Katy quando começou a namorar com ela, depois de ter levado uma dentada durante um linguado do seu ex, o Peidão, por eventuais crimes cometidos no infantário, onde o Horta lhe chamou “gorda”, obrigando-o a ajoelhar-se e a pedir-lhe desculpa. Aliás a fama de ter um sentido apurado de justiça manteve-se ao longo da idade adulta, quando barrou a entrada ao Caveirinha na quinta da Macaca, acusando-o de ter invadido o espaço no passado. Quando confrontado com a verdade, também participara no delito, respondeu com a lógica que lhe era característica:

- Eu já previa ficar noivo desta gostosona, como tal não invadi, porque já era proprietário!

As portas do Chalé da Merda abriram-se de rompante, saindo de lá um terrorista em pânico, perseguido pela Espirro de Punheta que o ameaçava comer até ao tutano. O jovem só sabia tomar decisões erradas, abraçara o comunismo, e escolhera raptar uma meia-fêmea faminta. O Comandante Guélas condenou-o a um internamento no Campo de Reeducação dos Milhas, dirigido pela Ester e a Arlete!

01
Mai20

4ª Temporada - O Mistério do Fritz (9)


Comandante Guélas

Lourenço.jpg

9

Quando o Milhas abriu a carta mal sabia que estava a escancarar a Caixa de Pandora, que na vila-Estado de Paço de Arcos dava pelo nome de Caixa do Alice, o primeiro cidadão vítima dos amigos do Bill a trazer para o local a folha mágica dos retornados.

- Uma fotografia?

E se o presente fosse de algum admirador secreto? No verso estava a identificação das oito pessoas: da esquerda para a direita, o Manuel Almeida, fadista que cantava sempre grosso, o Humberto, o Lourenço, irmão do anterior, o Fritz, um desconhecido, o Rocha, fadista, o Rodrigo, fadista e o Julinho do Arreda. O Milhas elevou as sobrancelhas e gritou:

- Fritz?? Mas sempre ouvi falar dele como um homem loiro! Isto só pode ser uma armadilha do Espalha, a gozar comigo e com o meu muro. Porque é que eu vim para este mundo?

Estava lançada a confusão lá para os lados da Quinta da Moura, onde um humilde cidadão em quarentena acabava de ser atacado por algo mais poderoso do que o Covid: o Fritz! E para agravar isto tudo o Laranjão, pai do Zé das Cápsulas, tinha convidado o Milhas para a Bio DanZa no Clube Desportivo de Paço de Arcos, onde no antigamente o Rato exibia mortais nos saraus.

- Estás a chamar-me panasca, - protestou o Milhas. – Mas porque é que o pessoal do Futebol PA me persegue? Porque é que eu vim para este mundo?

Quem lhe mandara a fotografia sabia os danos que iria sofrer. Olhou para o Lourenço e lembrou-se do Ferramenta, um admirador convicto, tal como ele, do Sandokan, que criara uma personagem mística, o Avô Leão, parecido com o Carinha da Avó, que tinha ameaçado de morte o Milhas, no Marginalíssimo, com uma enxada.

- Fritz?? Mentiroso, - gritou o Milhas na direção, não de Meca, mas da casa do Espalha.

O Luís de Espanha sabia que o Milhas nunca seria capaz de reconhecer o Fritz antes do acidente de mota com o Lourenço, que já tinha aviado o Ferramenta no seu Matra Simca, que lhe mudara toda a panorâmica da tromba, e por isso a cabeça do ex-vizinho iria começar a borbulhar, da mesma maneira que acontecia quando via o Vasquinho, o baptistinha que era ameaçado de cada vez que não queria comer a sopa:

- Olha que eu vou chamar o Zé da vizinha!

O Milhas tornou a olhar para a fotografia

- Será o Vasquinho, o amigo do Bufas? O Cara Alegre? Não, esse era anão! Foda-se Espalha, estava eu aqui tão quietinho, que mal é que te fiz? Porque é que eu vim para este mundo?

Mas havia outra armadilha na fotografia, além do Fritz, o amigo do Lourenço, que acabara de se finar a ver televisão, e vivia na altura na Amoreira, e presentemente em Paço de Arcos. Por isso o milhas arrebitou de novo as sobrancelhas quando deu de caras com ele:

- Quem é este??? O Nortadas em modelo fashion?

O Luís de Espanha não olhava a meios para atingir os fins, desestabilizar o ex-vizinho Milhas, com esta dúvida existêncial pretendia que o amigo tivesse necessidade de telefonar ao Fininho para esclarecer as dúvidas que lhe iam torrando lentamente a alma.

- Calma Zé, não te deixes destabilizar pelo arquiteto de meia-tigela. A foto foi tirada no Dom Rodrigo em Birre, o Rodrigo está aqui e deve ter uns 78 anos.

A custo lá ligou ao Fininho, e este respondeu sem qualquer tipo de dúvidas:

- É o Fritz Moka!

Desligou com raiva!

- O Fritz?? Burro Zé, burro, mas ainda tinhas dúvida de que lado é que estava o Fininho? Ele embirrava comigo mesmo quando não ia jogar, não era agora que iria contrariar o Espalha?

Uma coisa o Milhas tinha a certeza, o Fritz era loiro, parecia um alemão, e não acreditava que mudaria a cor do cabelo depois do desastre. Resolveu telefonar ao Choné.

- Não é o Fritz, foi meu vizinho durante quinze anos, - respondeu o jogador careca e coxo com convicção.

- Eu tinha a certeza, - gritou o Milhas com as sobrancelhas arqueadas. – Isto é um complot do Espalha e do Fininho para destabilizar a minha quarentena. São piores que o Covid, só malta muito má é que me envia uma fotografia com quarenta anos.

O Milhas sabia que tinha uma conexão mística inversa com o Fritz Moka, ele havia ganho 3500 contos na lotaria de Santo António de 1983, vendida pela Blandina, cujo número foi recusado pelo Velhinho por estar sóbrio, tendo escolhido outro, e o Fritz perdido oitenta escudos a jogar à lerpa a tostão. O Milhas demorou tempo a recuperar do ataque vil do Espalha e do Fininho, por isso ainda telefonou raivoso para o Marreco:

- Bossu, deves 5 coroas ao Pontas, que pediste emprestado à porta do senhor Silveira em 1975, e depois piraste-te para a Bélgica!

- Esqueci-me da carteira!

Como o Bossu morava no Bairro Social do Rosário em Cascais, mas dizia que vivia na Quinta da Marinha, o Milhas desligou com desprezo.

- Espero que encontres o Espalha e o Fininho!

Sentou-se recuperado no sofá, puxou para o seu colo os jornais da vila-Estado, o Praia Velha Times, semanal, e o Charlot-Niús, diário, e começou a ler a coluna de opinião do Bill de Gatas: “Espíritos vieram cá abaixo e disseram que a minha avó morrera de bubadeira”!

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D