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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

03
Ago19

4ª Temporada - Paradoxos Ontológicos


Comandante Guélas

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1

A sessão do cinema Royal decorria na normalidade, a penumbra e o silêncio imperavam, até que o Mene se levantou com uma violência tipicamente orgânica e aplicou, sem apelo nem agravo, duas valentes bofetadas no cavalheiro que se sentava ao lado da sua querida Milu. Recuemos! A Milu e o Carlos nasceram com uma pequena diferença de minutos, e uma Tita Remédios, solteirona espanhola endinheirada, propôs perfilhá-la:

- São dois, ficas com um e fazes outro, ela passa a ser a minha filha e herdeira.

Os pais não aceitaram, mas por respeito à familiar fizeram-na madrinha e deram mais um nome próprio à Maria de Lourdes: Remédios. Quando as luzes do cinema de acenderam devido à algazarra, verificou-se que o senhor não empernara com ela, conforme a moça se queixara ao seu jovem marido, mas sim que tinha uma perna de pau, que não controlava. Nenhuma das coisas que aconteceram são em vão, o Mene e a Milu deram origem a uma menina, que por sua vez foi mãe do Peidão. Até à chegada do Comandante Guélas ensinavam aos petizes que o tempo era linear, que avançava eterna e uniformemente até ao infinito. Tudo mudou, a diferença entre passado, presente e futuro passou a ser declarada uma ilusão, o ontem, o hoje e o amanhã deixaram de se seguir uns aos outros, passaram  a estar ligados num círculo eterno. As lendas paçoarcoenses estão destinadas a regressar com a perna de pau do homem que hipoteticamente abusara da Milú. Se alguém se cruzar em Paço de Arcos, nos tempos de hoje, na rua, com um coxo, pode ser o regresso de uma figura pública, talvez o Tubarão ou o Balatuca. Por isso o Querido Líder geminou Paço de Arcos com Sagres, e declarou a área do Algarve destino de férias da Juventude Guéliana. Passaram a acampar no parque selvagem junto à praia mais “in” da localidade e ir jantar ao mini-restaurante do Gordo Caixa de Óculos, proprietário de uma Discoteca cujo nome era “Solemente para Amigos”, e onde os “meninos das boas famílias de Paço de Arcos” tinham entrada exclusiva. Uma espécie de “Kadoc”! Só os paço-arcoenses afortunados tinham acesso a mais comodidades: o Cocas, porque ficava na casa dos pais e o Eterno-Noivo, o Boa Cara, porque levava sempre a “roulote”, com a noiva do momento lá dentro. Sagres parecia um acampamento da ONU, ouviam-se todas as línguas. E a confusão era tão grande, que podiam dar de caras, a meio da noite, dentro da suas tendas, com alguma estrangeira bêbada a cheirar a estrume. Mas num dos anos foram presenteados com uma artista do Porto, de nome Balbina. Todos os dias levava para a tenda um estrangeiro novo, que era obrigado a deixar os sapatos à entrada. E pelo tamanho das faluas, tentava-se adivinhar a altura dos franguitos. A comilona falava várias línguas, e tinha um volume de voz que se ouvia à distância, usando a língua pátria nas alturas em que desejava insultar a comida. Foi uma espécie de novela, a “Simplesmente Balbina”, que animou as noites de Sagres durante quinze dias! Ainda rondou a tenda do irmão do Chinoca, mas este estava prevenido com sensores e não gostava de torresmos.

Mas houve mais!

 A tenda do paço-arcoense mais ajuizado, e de nome Peidão, também fazia parte do acampamento da ONU, e era a mais pequena habitação da zona, porque o citado adolescente “não quis gastar muito dinheiro na altura da aquisição”, segundo palavras do Chinoca. E, portanto, ele e a namorada tinham de entrar de gatas. Numa das noites de Sagres muito ventosas, o Graise foi pedir lume ao Peidão e teve de acender o cigarro com a cabeça dentro da habitação.

- Cuidado, que isto é de “nylon” e arde rapidamente, – disse o fumador, sem se aperceber que o aviso tinha acabado de acender o rastilho de acesso aos neurónios do Peidão.

Quando a noite ainda ia a meio, o proprietário da barraca minorca, em sono profundo, sonhou com um incêndio e só acordou quando já estava meio de fora, a olhar para o café que nunca conseguia ver, e com os farrapos da tenda a balançarem ao vento. Tinha saído pelas traseiras.    

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Jul19

3ª Temporada - General Bidon


Comandante Guélas

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28

- Não jogo mais, as luvas estão cheias de minhocas, - gritou o Espalha abandonando o campo após sofrer o décimo segundo golo, lembrando-se do único jogador estático do Futebol PA, o saudoso General Bidon, um atleta consagrado que justificava a atitude dizendo “o que interessa é a colocação no terreno”.

Em 20 de maio de 1498 o navegador paçoarcoense Aurora chegou a Calecute a bordo da nau “Carapau Cociolo”, estabelecendo a Rota dos Ratos que os trouxe para a vila e os fez ser a classe dominante. Na burguesia paçoarcoense, da qual provinha o Comandante Guélas, a igualdade das mulheres pretendida pelos social fascistas liderados pelo Titó, um comunista derrotado na revolução do 28 de maio de 1974, foi um assunto encerrado logo após a conquista do sul da vila: as comunas foram obrigadas a rapar os pelos, a tomar banho e a pôr desodorizante:

- Acabou o cheiro a merda nas fêmeas paçoarcoenses, - declarou a famosa ideóloga do Querido Líder, a matemática e filósofa Dra. Quitéria Barbuda, uma libertária, no sétimo dia após a unificação de Paço de Arcos. – Quem quiser continuar com vastas pintelheiras a cheirar a mijo, só pode ser esposa do Ratinho Blanco, o maior trombeiro nacional.

- E as unhas dos pés? – Perguntou o Bill com o punho no ar, mostrando ainda tiques social fascistas, querendo com esta atitude denunciar a famosa namorada do Bajoulo, a Tita dos Pés Sujos, filha do empresário monárquico conde Xantola que, quando inaugurou o restaurante no “Áries”, prometeu torna-lo na casa “mais famosa de Paço de Arcos”, e por isso contratou o fadista Focas para disparar com paixão uma salva de vinte e um flatos psicadélicos.

E tinha razão! As suas lagostas ostentavam sempre grafittis surrealistas, arte urbana, langonhas amarelas extraídas do fundo da juventude, lançadas com amor pelos amigos anacrónicos do Focas, queques pseudo-desenquadrados do norte da vila, nas noites quentes de verão, disparados pelas frinchas dos vidros. O Comandante Guélas tornara-se um homem perfeito, assim como o seu regime!

Mas voltemos ao presente. O Espalha deixou cair uma lágrima quando o Pontas informou a vila que o General Bidon, herói da guerra de sucessão paçoarcoense, tinha dado o último grito do Epiranga, “independência ou morte”, e morrera. Uns dias antes quem se encontrava perto dele estranhou, os seus olhos estavam diferentes, até os óculos pareciam desbotados, o olhar já não era meticuloso, estava desleixado, enquanto que o dedo médio da mão direita, que apontava com frequência para o teclado do telemóvel, estava murcho. E gaguejava! Mas o primeiro sinal de inquietação dos amigos foi o grandiloquente devaneio teórico, acompanhado de salamaleques, que os informou que apoiava o Comandante Guélas na guerra contra a Comuna do Bill, extinta há mais de 46 anos. Mas o anticlimax de timbre dantesco aconteceu quando um som intenso saiu pelas calças e causou uma tensão dramática entre aqueles que compunham a mesa, e o General Bidon gritou com escárnio, em tom de desafio. Só parou nas urgências do hospital! O Espalha estava inconsolável com a perda, lembrava-se dos tempos em que o amigo estudava com afinco na Faculdade de Medicina, via-o todos os dias no comboio para lisboa com a pastinha de executivo, que ele imaginava carregadinha de calhamaços, até ao dia em que se abriu e caiu uma laranja e o jornal “A Bola”. Eram quatro irmãos com mais de 100 kg, o Paivão, o Paivinha, o Toy e a Paivona. A menina após um festival de danças na Ginástica Rítmica do Clube Desportivo de Paço de Arcos, onde dançou ao som da banda sonora do Fernão Capelo Gaivota, passou a ser conhecida como o Bacalhoeiro. O Espalha chorou!   

 

 

07
Jun19

3ª Temporada - Vestígios Biológicos


Comandante Guélas

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27

 

A República Independente do Alto de Paço de Arcos cheira a cultura, em qualquer lugar há vestígios genéticos daqueles que um dia juraram fidelidade ao Comandante Guélas, o Querido Líder desta Vila-Estado. No largo da estação, mais precisamente nas ruínas do primeiro Centro Comercial da Costa do Estoril, o Áries, ainda se sente, nas noites de Lua Nova, o clarão dos flatos, que iluminavam de espanto a penumbra, prenúncio de que o Focas estava a parir num dos cantos um dos formosos cagalhões que o tornaram célebre, e que selaram as mais fundas e leais amizades guélianas. Foi ele que cometeu o primeiro crime, não de sangue, do jovem país, mas de merda, ou ambiental como se diz hoje em dia, quando o Zé do Carula abriu a porta da casa de banho do seu café, e esta ficou colada à parede por causa do cagalhão monstruoso que o Focas fizera atrás da porta. Confidenciou ao padre, que casou o irmão Serapito pela 40ª vez, que em pequenino tinha um monstro dentro de si, na tripa, e que após a vitória do Comandante Guélas resolvera soltá-lo, e este tomou-lhe conta do intestino e nunca mais parou de fabricar tronco majestosos.

 

Outrora no sítio de Paço de Arcos onde hoje em dia existe o “Elefante Azul” desenrolou-se uma cena digna de Farwest, contada nos livros de História da Vila-Estado, em que os protagonistas foram dois paçoarcoenses de gema, o Choné e o Dic, este último o único Ser Humano do planeta a ter o mesmo nome que o seu cão, não por o ter dado ao canídeo, mas sim recebido. O destino pôs-lhes uma égua no caminho, em vez dos caracóis que andavam à procura, e as hormonas do Choné estoiraram:

- Vou montá-la!

O Dic humano controlou-se, já tinha passado por aquilo e deixara marcas no Dic canídeo, o nariz dividido em dois! O Choné tentou montar pela direita, mas ela respondeu-lhe com vários coices, parecia a Tita dos Pés Sujos. Entrou pela esquerda e só teve tempo para uma rapidinha, um galope diagonal pelo campo de trigo, pois os gritos da égua chamaram a atenção do dono que veio de forquilha na mão a gritar:

- Essa é minha, e nem o meu primo Conan Vargas tem autorização para montá-la!

A leitaria do senhor Manuel, que servia meio-gordo em taças, era um local exceptional, mas inconveniente. A Fonte da Avenida era um local de culto, dizia a lenda que a formosa Tita dos Pés Sujos costumava cortar as unhas dos pés e atirá-las para a água que, com o passar do tempo, se tornou um local de desejos, uma escarreta, um milagre.

Na Casa das Pedras, junto à marginal lá para os lados de São Pedro do Estoril, que foi mandada construir em 1904 pelo comandante e capitão-de-fragata Manuel de Azevedo Gomes, da família do sargento-de-Bóia paçoarcoense Horta, que numa festa na casa da Káti, uma figura arredondada, de cabeça de ovo, com uma sugestiva boca muito grande, foi torturado pelo impiedoso Zé Pincél, que o acusou de blasfemar contra o tamanho das mamas da dona da casa, que iria ser futuramente sua namorada, depois do Peidão lhe ter trincado os lábios no seu primeiro linguado, foi onde o Janeca e o Taka Takata juraram ter visto, após um charro comprado ao Grilo, o fantasma do primo do João da Quinta, dividido em dois pelo rápido de Lisboa, e mijado nas calças, despejando para sempre o seus ADN naquele espaço.

- Mas o cu e as pernas estavam na casa do Dr. Cebola, o castelo que fica do lado do mar para os lados de São João do Estoril – contou mais tarde o maior traficante de droga da vila. – É a prova de que a minha erva é a melhor da Costa do Estoril.

As relações entre o Torpedo e o Pitrongas foram sempre muito conflituosas. Mesmo depois do primeiro ter tido um ataque cardíaco enquanto bebia água na sarjeta. O segundo insistia em subir a rua José Ferrão Castelo Branco em vez de ir dar a volta por Caxias. A teimosia era tanta, que teimava em vir sempre a cavalo da sua Honda 50 de cor preta, desenhada para gente normal e não para um flamingo de um só neurónio. E o mais grave era que o barulho do escape apanhava sempre o Torpedo em sono profundo, um canídeo com um acordar difícil. Nestas ocasiões encaminhava-se estremunhado para o passeio, agachava-se e esperava pela ave rara.

 

Taka Taka Taka

 

Roncava a dita do Pitrongas, que atingia a vertiginosa marca de 30 Km/h. Mas havia um problema. O canídeo chegava aos cinquenta, fruto de muitos treinos durante as fugas ao motorista da quinta ao lado, o senhor Manuel, quando cinco dos seus dez donos resolviam encher a porta da Sesaltina de lixo e carregar na campainha.

 

Taka Taka Taka Taka

 

O escape parecia agora uma charanga, sinal de que o Pitrongas estava perto da curva, já com o pisca direito ligado, que indicava ir dar uma seca à tia. A simbiose mota/condutor dava o aspecto de um morcego e as pernas em abdução pareciam asas. Os ramos das árvores dobravam-se com a força do vento. O Torpedo absorveu um largo trago da sua baba, enquanto que na outra ponta da rua o pai do João da Quinta deu um gole no vinho carrascão, que era a única maneira que tinha para se manter vivo. Tudo se demorava: o barulho do escape do Pitrongas e o bater ansioso do coração do Torpedo, com a boca tingida pela raiva e as lágrimas a escorrerem-lhe pelo focinho, fruto de um ódio de estimação. Até que uma sombra esguia, projectada pela luz do candeeiro da retaguarda, se estampou no passeio. Era o anúncio de mais uma noite estragada para o Pitrongas. Quando a mota e o flamingo se aproximaram da curva, não eram mais do que uma mancha escura que fazia lembrar um sapateiro viúvo com uma luz laranja, estilo pirilampo, a piscar para a direita. Os olhos do Torpedo concentraram-se na figura rabiscada do motorista. Nesta pequena curva, que tinha logo uma contracurva e um entroncamento no meio, havia naquele momento um conjunto de tensões. Quando o cheiro do Davidoff do Pitrongas chegou ao nariz do rafeiro, os seus neurónios entraram em curto-circuito. Uma raiva profunda perpassou-lhe ao longo da coluna vertebral, eriçando-lhe os pêlos, ao mesmo tempo que o intestino entrou em terríveis convulsões, cujo barulho era abafado pela charanga do Pitrongas. Foi a potência do escape do canídeo que o atirou, de boca aberta, de encontro ao tornozelo do costume, o esquerdo, e lhe arrancou, como já se tinha tornado hábito, parte da meia da marca “CD”.

22
Abr19

3ª Temporada - Cavalos e Cavaleiros


Comandante Guélas

 

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26

 

A historia oficial de paço de arcos, ensinada nos manuais escolares, contava que a Maria, bastarda de D. Dinis tinha sido freira em Odivelas, e montada pelo tetra avô do Comandante Guélas, dando alguns séculos depois origem ao fabuloso Ratinho Blanco, cliente habitual do senhor Bandeira, barbeiro oficial da Vila-Estado. Por isso o Menino Guéliano só tinha autorização do Querido Líder para montar a cavalo no Guincho, exceto nas meninas, que tinham de ser exclusivas da vila, para não haver degenerescência genética. E foi numa dessas alturas que a Macaca entrou no café “Iolanda”, que servia à Dra. Quitéria Barbuda vinho branco numa garrafa de sumol com uma palhinha, e perguntou quem é que queria ir montar. Assustaram-se! Mas quando disse que eram cavalos quatro imberbes levantaram os braços:

- Mas tu já alguma vez andaste a cavalo? – Perguntou o  Peidão ao Xinoca.

- Eu tenho uma “Maxi Push”.

Mas havia um obstáculo a ultrapassar. O amigo da Macaca, um desconhecido de Nova Oeiras , estava dentro do Renault 5 todo bonito, com chibata, botas de montar e cara de cu.

- Eles podem vir connosco?

O matador olhou para os quatro meninos de “boas famílias” e percebeu que, ou iriam todos, ou arriscava-se a ter de mudar um pneu. Teve bom senso. A excursão rumou para a aldeia de nome “Areias”, onde seriam alugados os animais. Quando os bichinhos foram entregues o Xinoca quase que saiu à carga, porque pensava que “Cavalo” e “Peidociclo” era tudo da mesma família, e por isso acelerou a fundo.

- Têm a certeza que o vosso amigo sabe andar de cavalo? – Perguntou o dono do picadeiro ao ver o rapaz com cara de oriental a trote e a bater violentamente com o traseiro na sela e a enredar as rédeas nas pernas.

- Ele está habituado a montar as éguas em pêlo, - explicaram-lhe.

O trombudo tomou a dianteira passando com um ar de desprezo por todos os amigos da Macaca. A sorte devia-se ao facto de os cavalos estarem habituados a andar uns atrás dos outros e assim o do Xinoca teria poucas hipóteses de fugir. Atravessaram a rua e embrenharam-se nas dunas. Alguns metros mais adiante tiveram de reduzir para passo, pois era necessário poupar o rabo do chinês. Mas aconteceu o primeiro dos “previstos”, quando um ramo baixo lhes apareceu pela frente. Todos puxaram pela rédea esquerda e contornaram o arbusto, excepto o Xinoca que seguiu em frente e chocou contra o obstáculo. Passou o bicho e quase ia ficando o cavaleiro, caso não se tivesse deitado sobre a cabecinha do cavalo, folgando as rédeas e soltando os chinelos de quarto dos estribos. Ainda houve tempo para apostas, ganhando a opção “queda”. Valeu o sangue frio do trombudo que encostou a sua montada e segurou o animal. Pausa, o chinês estava mais inclinado do que a Torre de Pisa, e à medida que ia descaindo puxava as rédeas, arriscando-se a sentar o alazão no colo. Quando o líder o informou dessa hipótese, tirou as mãos e caiu na areia fofinha. Pôs-se logo ali uma dúvida: como é que ele iria montar, uma vez que não havia a escada do picadeiro? Veio-lhe à memória o capitão da Quinta Divisão e da falta que ele lhe fazia naquele momento. Caso fosse um dos presentes, mandá-lo-ia agachar e ele obedeceria. Depois bastaria saltar-lhe para a espinha e montar. Mas a realidade era outra! O Xinoca teria de se desenrascar, nenhum dos presentes queria fazer de militar de Abril. Foi o que fez, meteu o bichano na parte baixa de uma duna e saltou-lhe para cima. Como o tempo já estava a escassear, foi necessário recorrer ao galope, porque senão nunca chegariam à Praia Grande. Ao chegarem ao Guincho cada um escolheu o seu ritmo e, de uma maneira geral, a carga foi a velocidade que imperou. Quanto ao Xinoca, optou por parar, largar o volante, enrolar um cigarrinho, ao mesmo tempo que dava folga ao rabo. Só que este tipo de cenas não eram as mais aconselháveis no momento, porque o animal cheirou o chão deitou-se de imediato, atirando o adolescente com cara de oriental de pantanas, tendo no entanto ainda conseguido dar a última “passa” antes de aterrar. O trombudo, que estava na outra ponta da praia, nem queria acreditar no que via. O cavalo do Xinoca parecia um cão a coçar-se no chão e quando a festa acabasse de certeza que iria a Cascais tomar um copo. E quem tinha deixado o Bilhete de Identidade, aliás o único a levá-lo, tinha sido ele, como prova que eram todos “meninos de boas famílias”. E o seu Renault 5 não valia nem metade de um burro sarnento, quanto mais um cavalo inteiro. Ficaria de certeza a lavar cavalariças o resto do ano e estragaria as suas botinhas com brilhantina. Meteu “prego a fundo” e conseguiu chegar a tempo. Quanto ao Xinoca, queria era regressar a pé, alegando já ter o traseiro em chamas e não querer ser confundido com algum revolucionário tresmalhado. Conseguiram convencê-lo a dormir nessa noite de barriga para baixo, para que as marcas no mealheiro desaparecessem.

 

16
Mar19

3ª Temporada - Dia da Raça


Comandante Guélas

 

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25

 

Na gloriosa Vila-Estado de Paço de Arcos, terra do Comandante Guélas, onde o Querido Líder esmagara os comunistas, seres que tinham a inteligência reduzida ao mínimo e a transpiração elevada ao máximo,  no Dia da Pátria, o da Raça Paçoarcoense, eram entregues os Diplomas de Paçoarquiano, àqueles que tinham conseguido superar a prova das 20 perguntas patrióticas. A cerimónia decorria sempre na Praça Daniel Martins de Almeida, o Poeta-Trovador que cantara vezes sem conta o Hino Paçoarcoense, onde a sua Estátua substituíra a do patrão Lopes.

 

1 – De que se alimentava a Miss Eunízia? 2 – Qual o paçoarcoense que disse que “em Portugal existe uma fábrica de entortar bananas”? 3 – Quem era o noivo da Sapa? 4 – Onde nasce o esparguete? 5 – Onde vivia o Ratinho? 6 – Quem foi o primeiro paçoarcoense a fazer a travessia nocturna a nado entre o pontão baixo na Praia Velha e os Socorros a Náufragos? 7 – Qual era o nome do Guélas? 8 – Qual a primeira residência oficial do Charlot? 9 – O Labumba era gordo? 10 – Quem era o Keida que morreu com um tiro nos cornos? 11 – De que país era originário o Fritz Moka? 12 – O  Frank Monka habitava na vila? 13 – Qual o nome do primeiro Caçador de Gambozinos de Paço de Arcos? 14 – Como se chamava a discoteca em que o Fritz Moka foi porteiro? 15 – Qual o nome próprio do Tóquinhas? 16 – Em que país estava emigrado o Frank Monka (“eu andarem à procura de tus e não encontrarem”)? 17 – Quem é que dizia “Espera aí que já cospes” nas cenas de beijos no cinema? 18 – Nome completo do Bolinhas? 19 – E a frase “ó Ferreira queres um sofá ou uma cadeira” quem a disse?

A cerimónia era sempre bela e elegante, com glamour, graça e interesse, que se iniciava sempre com um dueto entre o “Carlos Ribeiro Mais Quatro” e o Passionário Charlot, cantando o hino oficial, o “É Motorista” (https://youtu.be/yxs1F_05oP4), ao mesmo tempo que se soltavam as pombas do Manelinho do Estrume, e o Todo Boneco tentava abatê-las com a sua carabina de pressão de ar, que cegara o bóbi, o “pitbull” de cauda enrolada do João da Quinta, Irmão do Zé dos Porquinhos, vizinho da Sesaltina, que lhe ousara um dia insultar a senhora sua mãe com um ladrar de rafeiro. Seguia-se depois o discurso da apetitosa Tita dos Pés Sujos, que trazia sempre um elegante vestido em forma de santola, e umas sandálias sensuais que faziam sobressair as unhas em forma de águia, estilo meninas do Sado. A ela seguia-se o Frank Monka que debitava o nome dos planetas do Sistema Solar. No fim distribuíam-se os questionários para os candidatos da cerimónia do próximo ano. E houve um dia em que a cerimónia de Paço de Arcos coincidiu com a classificativa do Rali de Portugal, Penina à Noite.

- Ide soltar os vossos demónios, juventude, - disse o Comandante Guélas. – A pátria irá precisar de vocês no futuro.

Após o bólide ser engolido pela noite serrada, depois de ter tornado dia, por breves segundos, uma pequena parte do asfalto, e o seu ruído ensurdecedor ter obrigado os demónios a fugirem assustados para as suas casas, tudo voltava a cair na escuridão da Penina. Era nestas alturas que a festa retornava à estrada. Um Tarzan sobrevoou o povo na sua liana, mas o grito tornou-se aflitivo quando ela se partiu logo a seguir a ter atingido a vertical do alcatrão, obrigando o selvagem a uma aterragem forçada, e de costas. As lanternas acenderam-se e descobriram que o morcego era o Xinoca, o acólito mais alcoólico da vila, e que nem um “pio” soltava.
- Se não o tirarmos dali vamos levá-lo para casa em forma de tapete oriental, - disse o Olho Vivo, com uma vista no chinês e a outra no decote iluminado por uma fogueira duma desconhecida.
Bastou passar um copo a transbordar de cachaça pelas suas narinas, para que o preferido do Capitão da Quinta Divisão voltasse à vida e corresse apressado para o seu garrafão, que o aguardava em cima do barranco. O chinês tinha ficado desidratado com a queda. Quando já se ouvia ao longe o roncar de mais um bólide, eis que outro artista aparece no palco, fazendo questão de presentear o público com uma pega de caras. Tinha feito mal os cálculos e acabou por ser atirado à valeta, não com o impacto, mas sim com a deslocação do ar. O Peidão aproveitou mais esta pausa para tentar entrar em contacto com o Zé Pincel via Walkie–Talky, que tinha ficado na base a guardar os “peidociclos”.
- Pincel, aqui Peidão, escuto!
- Rrrrrr…rrrrr.
- Pincel…estás a ouvir-me?
- Rrrr…dão..ou…tomar uns copos.
- …copos???...Guarda o aparelho no bolso..
- Rrrrrr
Finda a comunicação, mais duas horas de prova. Depois foi a terrível descida. O Mac Macléu Ferreira estava mais para lá do que para cá e o seu peso era incomportável com os corpos franzinos dos amigos. A opção tomada foi deixá-lo a dormir na vala e ir buscar uma mota. Quando chegaram à base foram recebidos por um Zé Pincel com o capacete integral na cabeça e em estado etilizado que nem lhe permitia conhecer os amigos, muito menos o paradeiro do aparelho. Desapareceu na escuridão e só ouviram algum tempo depois o motor da sua Zundapp em alta rotação a desaparecer na noite fria e escura da Penina. Foi nessa altura que a estrada foi aberta ao público e os únicos a subirem foram os membros da Juventude Guéliana. O Mac Macléu Ferreira só foi descoberto meia-hora depois, após difíceis buscas ao longo da valeta.
- Ficou sem cara, - gritou o Zé do Fotógrafo, ex- cozinheiro-comando, irmão do Bigornas, gerente da mais importante loja de fotografias da vila de Paço de Arcos, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”.
O mistério foi esclarecido quando olharam melhor para o adolescente caixa-de-óculos loirinho. A cara estava tapada pelo jantar, que tinha saído sem pedir licença. Veio à boleia do condutor mais sóbrio do grupo, o Velhinho, que o levou de imediato para o Hospital de Cascais, porque necessitava urgentemente de uma dose de glicose. O Mac Macléu Ferreira teve direito a uma unidade, enquanto que o seu motorista Velhinho, o sóbrio, gramou com duas. Entretanto na serra procedia-se a outra busca, o Walkie–Talky do Peidão. A sorte estava do lado dos bons. Um elemento do grupo que pernoitava alinhadinho debaixo de uma árvore contou-lhes que umas horas antes tinham sido atacados por um desconhecido, que lhes dissera ser lutador de Karaté e quisera praticar com eles a arte milenar.
- Tivemos de nos defender daquele louco, que para o Karaté não parecia ser dotado, acabando por tentar acertar-nos com este rádio.
O Zé Pincel apareceu no dia seguinte com a cara toda inchada e, segundo explicou, tivera um acidente de mota. No entanto não foi capaz de explicar como é que a mota e o capacete nem um risco tinham. Quanto ao Mac o Velhinho contou que o tinha levado a casa, aberto a porta e perguntado se estava bem:
- Estou rijo, - e avançou, batendo com a cabeça na parede, com tanta força, que a mãe acordou.
O motorista pirou-se, pois não queria que o vissem sóbrio, dava mau aspecto.

24
Fev19

3ª Temporada - Capitalismo Paçoarcoense


Comandante Guélas

 

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24 

- O Francisco Barlatotas encontrou o filho do marquês!

A notícia do “achamento” do Pierre Pomme-de-Terre no Peru caiu como um milagre na vila de Paço de Arcos, terra do Comandante Guélas, o Querido Líder.

- Está no Peru, e é Diretor-Geral da Pinetree Group!

Um orgulho, mais um Património Imaterial Paçoarcoense tinha sido localizado e estava agora disponível no Facebook. Afinal a licenciatura em engenharia não tinha sido comprada no Brasil, como confidenciara uns anos antes ao Focas, mas sim fruto de um estudo árduo no Instituto Superior Técnico. Porque todos os paçoarcoenses eram feitos de substâncias químicas, a sua tentativa de uniformização pelo Bill revelou-se um desastre, por isso o Comandante Guélas ao aperceber-se da diversidade e mutabilidade dos habitantes conquistou a vila, reciclou os comunas e declarou a independência. Os paçoarcoenses modelos eram aqueles que nunca poderiam ser decompostos noutros mais simples. O Pierre Pomme-de-Terre era o vértice da pirâmide do empreendedorismo da gloriosa vila de Paço de Arcos: O Restaurante O Tino; a oficina do Cabrita; a Maria das Bicicletas; a Laura da Praça; a Blandina dos Jornais; o Manel da Dany; o Freitas da Minhoca; o Manelinho do Estrume; os barbeiros João Balão, António Balão, Inácio, Bandeira; Florêncio; John Lena; o Joaquim do Café Bachil, onde o Manel Carteiro nas horas vagas aliviava os recrutas que iam apanhar o comboio; o Miguel Padeiro, um bexigoso com uma Honda 750 transformada em “Easy Rider”; o restaurante "O Pombalino" do Alfredo e do Chinês; os “3 Porquinhos”, a Zona Vermelha da vila, no Jota Pimenta; as papelarias do senhor Silveira e do Inácio das bombas de Carnaval; a drogaria da preta; o Silvério e o Hércules com o seu negócio sazonal, a sua banca de lima (bolas de cera com água dentro), a 5 tostões cada; o Manuel Escangalhado da leitaria; o Cara Alegre da “Oceânia”; o Joaquim e o Jorge da “Iolanda”, que serviam sempre um “leitinho” à Dona Quitéria Barbuda numa garrafa de Sumol, com uma palhinha; o Braz da farmácia, que parou o seu BMW na marginal para “ajudar menina aqui sozinha”, que afinal era o Choné com um casaco preto a fazer de saia e a cabeleira da mãe, que tinha os amigos escondidos prontos para fazerem uma emboscada, mas que desta vez não saíram do local porque reconheceram o carro, deixando a pobre “menina” entregue aos fetiches libidinosos do farmacêutico, que prometia levar o Choné às nuvens, mesmo depois de ele ter tirado a cabeleira e chamar-lhe “paneleiro”, tendo o Braz ameaçado que iria fazer queixa à progenitora; o sapateiro 7 Solas; o Joaquim da Lisboa Comercial; o Severino Seco; o gasolineiro Manuel António; a drogaria do António, onde o senhor Peidão, o maior bombista da terra, se abastecia de Litopone e Ácido Muriático; o Bar Marginalíssimo do Tolas e do Jeremias; a Papelaria do Manuel Ante, que se chamava “Campos Pereira”; o sapateiro Carlos Ribeiro, da Banda Popular “Carlos Ribeiro mais 4”; a Fateca; a Sapataria Coutinho, “ó senhor Coutinho queria aquele sapato dos Baptistas, sff” (“venho descalço e vou lindinho”); a Casa João que “vende meias e botão”; Taberna O Papagaio, que deu à vila 2 formosos poetas, Pinguim e Pingalim; o Animatógrafo do Lúcifer; a Casa Chico; a Leitaria Vitória que, como era tradição em todos os estabelecimentos deste ramo, vendiam meio-gordo à taça; Leitaria Marginal; Marmelada; Casa Mário e Casa Adelina; e a fechar, o célebre Café Picadilli, que deu à vila o seu futuro e o Pica. Em todos estes estabelecimentos comerciais, o famoso Pierre Pomme-de-Terre deixou calotes, por isso de cada vez que se desloca às origens, fá-lo de noite, porque metade da vila continua ainda a querer enforca-lo!    

 

15
Fev19

3ª Temporada - O Senhor Xantola


Comandante Guélas

 

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23

Após a conquista da vila de Paço de Arcos, o Comandante Guélas, o Querido Líder, declarou o liberalismo como a política económica oficial do país, e logo apareceram na linha da frente os melhores empresários de todos os tempos, que iriam revolucionar o estilo de negócios da Costa do Estoril: Manuel da Leitaria, Papagaio, Maria das Bicicletas, Cabrita, Pierre Pomme-de-Terre, e tantos outros que nunca se perderão nas memórias do tempo.

- Esta ainda há-de ser a casa mais afamada de Paço de Arcos, – prometeu o senhor Xantola, ajeitando as patas do caranguejo grande, pescado junto à saída do esgoto do “Chalé da Merda”, o Centro Cultural, e comprado livre de impostos, como era e continua a ser tradição nos restaurantes da zona.

- É para lhes dar um ar sensual, – explicou o Xantola ao atento Focas. – Assim, o cliente fica com água na boca e entra, tendo direito a ser atendido pela minha filha Tita-dos-Pés-Sujos, sob visão atenta do seu noivo Bajoulo, que está ali na mesa das imperiais desde ontem à noite. Vai dar um genro de peso!

- O marketing é perfeito, o senhor irá com toda a certeza roubar a clientela ao seu primo galego. O Bajolinho é uma jóia, é um descanso para qualquer pai, – disse o Focas, atirando de mansinho uma santolinha para o aquário dos peixes.

Mas como os exames estavam perto, o estudante Focas despediu-se do senhor Xantola e foi para casa fazer o exame nacional, roubado uns dias antes e agora na posse de todos os estudantes de Paço de Arcos. Só saiu depois do jantar, para se juntar ao grupo de amigos que o esperava no “Áries”, o Centro Comercial junto à estação, onde também se situava o novo restaurante que pretendia fazer sombra ao velho e famoso restaurante “Os Arcos”. A noite iria ser longa, aproximava-se uma “direta”, no dia seguinte um grupo partiria em direção a Chaves, para desceram o rio Tâmega até Amarante. Só o motorista, tinha recolhido aos aposentos, excitado com a aventura em que se ia meter, não a de descer o rio, mas sim pelo facto de ir passar uma semana com um grupo de adolescentes tenrinhos. Quando a torre da igreja deu as badaladas da meia-noite, o Focas juntou-se aos amigos. Pelas duas da madrugada começou a retirar da parede um cartaz que anunciava a vinda dos “Tubes” a Cascais, e embrenhou-se nas catacumbas do espaço comercial. Apareceu dez minutos depois com algo embrulhado no papel. Parecia um bolo, um tronco de chocolate. Chocolate?! Chocolate não era, mas sim o conteúdo intestinal do velho Focas, o maior cagador de Paço de Arcos e arredores.

- E agora, o que é que faço a isto?

Os amigos recuaram e veio-lhes à memória as férias passadas em Sagres e aquele dia em que o Focas tivera uma dor de barriga e resolvera a questão abrindo uma cova à beira-mar, ao mesmo tempo que assistia a uma partida de “beach-ténis” entre dois turistas. Tentaram atacá-lo durante o ato fisiológico, mas quando estavam a um metro do cagador ele voltou-se repentinamente, agarrou no cagalhão e atirou-o. Felizmente nessa noite não estava nos planos desperdiçar tão formosa escultura. Resolveu espalhá-la pelos vidros do restaurante do senhor Xantola e tapar-lhe as fechaduras. O cartaz dos “Tubes” também ficou colado! Até às dez da manhã o material secaria e o proprietário, mais a sua bela filha, a Tita-dos-Pés-Sujos, iriam ter uma surpresa, e das grandes. Mas a festa não ficou por aqui! As frinchas entre os vidros não estavam tapadas e houve um concurso de escarretas, cujo objectivo era decorar as carapaças das Santolas cozidas que ocupavam a montra. Até com mijas participaram!

No dia seguinte estavam longe, muito longe, e com toda a certeza que as culpas iriam cair direitinhas no já célebre Cocciolo. 

 

 

       

 

09
Fev19

3ª Temporada - O Primo do João da Quinta


Comandante Guélas

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22

O João da Quinta tinha um primo com menos habilitações académicas, ou seja, nunca fora à Escola. E para agravar a situação, era surdo-mudo. À conta destas deficiências todas era o único a passar a ponte sobre o Tejo com o “peidociclo”, e de borla, porque quando a funcionária o tentava informar de que as motas de cinquenta centímetros cúbicos eram proibidas naquele local, a cabeça do primo inchava de raiva, ficando vincada na testa a placa que lhe tinham posto após o último desastre, em que marrara contra uma árvore depois de ter descido um barranco com a sua Zundapp. Para se safar daquele bajoulo vestido de preto a cheirar a estrume, mesmo depois dos ventos da ponte lhe terem feito uma limpeza a seco, abriam-lhe a cancela e ele lá ia à sua vida. Por isso para este surdo-mudo de um só neurónio não havia barreiras para o seu “peidociclo”. E como era um homem livre às vezes aparecia de surpresa na casa do João da Quinta e abancava durante algum tempo. Não dava muita despesa, porque água nem para beber e se fosse preciso dormia aconchegado com as ovelhas. Quando aparecia significava que estava de boas relações com a sua Zundapp 50, porque quando ela resolvia não pegar atirava-a por um barranco e lá ficava durante uns dias, até as saudades apertarem e o mecânico lhe explicar que sem gasolina a sua querida não funcionava. Durante a estadia na quinta onde a família do primo vivia e trabalhava, tinha uma casa-de-banho particular: o terreno baldio junto à casa onde vivia o adolescente mais responsável da zona, o menino Peidão, que assistiu, impávido e sereno, a este ritual do primo do seu amigo, que nem para cagar tirava o chapéu. Parecia um urubu, todo vestido de preto. A sorte do primo, surdo-mudo e com um só neurónio, do João da Quinta, mudou na altura em que o Peidão ganhou uma espingarda “porção-de-ar” Diana 38, tornando-se um snipper. Logo na primeira “chumbada” saltou o chapéu do cagador, que ia caindo, com o impacto, para cima do produto, pois tentara agarrar o penico que estava na cabeça e que fugira, vá-se lá saber porquê. Ajeitou-se e voltou à posição de cócoras, sinal de que ainda tinha a tripa com favas. Na segunda chumbada desequilibrou-se e desceu o morro com as calças arreadas, desaparecendo no meio das alcachofras. O Peidão empoleirou-se na varanda mas não o viu. O tiro parecia ter sido fatal. Quando o adolescente se preparava para guardar a “Diana 38” viu um vulto a erguer-se furioso com o fato pintado de picos, chapéu na cabeça e a gesticular, correndo em direção à quinta. Nunca mais usou o exterior da quinta para largar os feijões, tendo optado pelo conforto e segurança do cercado das ovelhas. Até ao dia em que não ouviu o rápido para Cascais, e o João passou momentaneamente a ter dois primos surdos mudos de um só neurónio.

 

15
Jan19

3ª Temporada - O Relógio


Comandante Guélas

Relogio.png

 

21

 

Uma mulher jovem, fininha, com as unhas dos pés iguais às do Pitrongas, de pé junto a uma janela aberta da Pensão Moreira, por onde entra a luz da manhã e o cheiro a maresia do Chalé da Merda, abstrai-se na leitura de um pequeno poema escrito numa folha de papel higiénico da Leitaria Papagaio:

 

“Numa noite de copos,

Com o meu chouriço rijo,

O teu nome escrevi,

Com um jacto de mijo!”

 

Numa vila em que quase ninguém escrevia cartas de amor, o Bajoulo era a excepção, e a Tita dos Pés Sujos a sortuda. Eram raros os momentos da história da Humanidade semelhantes aos vividos na vila de Paço de Arcos, após a vitória do Comandante Guélas, que trouxera à luz o que estava na sombra, com a expulsão do solo sagrado, tal como fizera o marquês de Pombal com os jesuítas, a comunistada abjeta. E ainda por cima também havia um marquês na vila, o Petroni, pai do Vale e Azevedo da zona, o Pierre Pomme-de-Terre. O Querido Líder de Paço de Arcos proibira os homens de mijar sentados, como faziam os comunistas:

 

“Cada um mija como pode, pois o mais difícil na arte de mijar em pé, não é o manejo dos seus instrumentos, mas a cumplicidade entre as mãos e os olhos, que permite a pontaria com que cada um atinja o alvo, ao mesmo tempo que larga um peido”.

 

E foi numa noite de Verão que um grupo de betos do Picadili resolveu ir inaugurar um novo espaço de diversão, a piscina do Serapito. O local cheirava a novo e as mudanças da numerosa família estavam para breve, ou seja, o espaço ainda se encontrava vulnerável. A água azulinha convidava a uns mergulhinhos, mas os turistas não vinham preparados para o evento e por isso tiveram de improvisar. Foram todos nus. Todos?! Todos não, o mano mais velho do Citron foi o primeiro a inaugurar as instalações. Caiu no erro de ir espreitar para o fundo da piscina sendo de imediato arremessado lá para dentro. Ficou furioso, dizia que tinha avisado que estava na digestão, talvez da cerveja, mas foi de imediato confrontado com a dura realidade, pois se tivesse de lhe acontecer algo não era por estar aos berros à procura de um culpado que faria o tempo voltar para trás:

- Paciência, também já viveste muito, - sossegou-o o amigo Pontas.

- É melhor morreres de congestão do que cortado ao meio pelo rápido de Lisboa, como aconteceu com o primo surdo-mudo do João da Quinta, - reforçou o Peidão, outro amigo de longa data.

A festa estava animada, havia “bombas” por todos os lados e montes de terra e palha a alterar o outrora paraíso azul. Até já o “condenado à morte” participava nos saltos, mas todo vestido por causa da digestão. Havia mais água fora do que dentro, a relva acabada de plantar fora engolida pela lama, havia pegadas por todo o chão branco imaculado e os adolescentes carregadinhos de cerveja vertiam águas constantemente, tendo o cuidado de o fazer para dentro dos vasos. A quantidade de cevada descarregada iria com toda a certeza alterar o código genético das futuras rosa vermelhas que, com o choque, passariam para amarelo escuro. Por volta das três da manhã o João Pestana veio buscar os meninos rabinos, chegando muitos deles a casa sem acessórios. No dia seguinte o pai do Serapito, proprietário do espaço privado, teve um ataque de caspa. A piscina parecia mais o lago dos patos da Avenida, havia um cheiro intenso a mijo, e do rijo, e o limoeiro resolvera produzir cuecas, uma delas com marcas profundas, sinal de que o Bajoulo também participara na festa. No chão algo brilhou, era um relógio, a única prova decente. Lembrou-se que tinha deixado um dos filhos a guardar a casa, o mais corajoso, e acordou-o. Confrontou-o com a situação e teve de agarrá-lo de imediato, porque ele ameaçou descer as escadas e matar os prevaricadores.

- Calma filho, já não está lá ninguém.

Mostrou-lhe o que tinha descoberto no chão e ele provou ao pai que o único mano capaz de ter amigos com cebolas daquelas era o Serapito. Foi de imediato à outra casa confrontar o outro filho com o achado e depois de ele ter feito um checklist mental das manias dos amigos, chegou à conclusão de que só um é que poderia gastar tão pouco na comprar de um relógio:

- O Peidão, esse relógio só pode ser do Peidão, e com toda a certeza que virá buscá-lo.

- Peidão?! Então o menino tem amigos com esse nome?! Não foi essa a educação que lhe dei. Vou reforçar-lhe as idas à missa.

Nesse dia foi abordado pelo suspeito que queria o relógio de volta e estava decidido a ir pedi-lo ao proprietário. Foi um encontro cordial, o jovem afinal não era um pecador, prometeu não participar em mais invasões, aliás não seria mais necessário pois o pai do Serapito tinha-lhe posto o espaço à sua disposição. Reparou que o estranho nome daquele amigo do filho não condizia com a figura angelical que lhe pedira perdão pelo ato anti-social dos seus amigos que ele, como Menino da Luz, tentara evitar mas fora impotente perante a turba de selvagens que lhe tinham passado por cima e arrancado o relógio de pulso. 

21
Dez18

3ª Temporada - Como Tu Sabes


Comandante Guélas

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20

O dia do aniversário do Focas chegou e na vila de Paço de Arcos a agitação pairava no ar! Os lugares já estavam marcados no restaurante e a ASAE tinha passado a casa de pasto a pente fino, não fosse o Pontas ir servir atum do Jamor ao Mac Macléu Ferreira, filetes das Fontainhas ao Boa-Cara e polvo da Terrugem ao Proveta. A primeira surpresa da noite foi o avistamento do Serapitola, que parecia o Álvaro Cunhal em versão negativo. Tinha autorização para mastigar, mas falar nem pensar. O Cocciolo pediu o livro de reclamações para protestar contra as comemorações dos cinquenta anos do sobrinho do Isaltino, pois largara um masso de notas por meia dúzia de croquetes e um saquinho de favas fritas.

- Pensei que eram as entradas e para não perder a fome esperei a noite toda pelo jantar.

A um canto da mesa o Conan mantinha o recorde de cobrições, agora com os episódios de incontinência incluídos. Todas as semanas abandonava fêmeas da Costa do Estoril. De repente o telemóvel do aniversariante tocou:

- Allô Focas, aqui engenheiro Petroni.

- Engenheiro Petroni?!!! – Perguntou o Focas fazendo um zapping à memória das amizades, incluindo os defuntos, não conseguindo, no entanto, descobrir algum “Engenheiro Petroni”. – Deve estar enganado.

- Grande Focas vejo que já estás com esclerose, eu sou o Engenheiro Petroni e gamámos….crescemos juntos com figuras ilustres, como o Mocho, o Balatuca, o Pingalim, o Milhas, o Peidão, o Graise, o Velinho, o Pilas, o Maneleiro, o Marreco, o Xinoca, o Pontas, o Rato, a quem me esqueci de pagar o compressor…

- Pierre Pomme-de-Terre, já podias ter dito.

- Como tu sabes acabei engenharia, a minha filha anda no Britânico, como tu sabes…

E o Focas agravou o seu estado de espírito com esta aparição difusa e imprevista de um amigo do alheio. Como é que ele poderia saber do currículo actualizado do Pierre Pomme-de-Terre se o último que lera fora há 35 anos quando ele fugira para o Brazil com o diploma incompleto da Infantil (fugira da sala 4 depois de ter pedido emprestado os guélas dos colegas e a carteira da educadora Meca, para ir comprar “Gorilas” ao Kitanda), levando no seu encalço o chefe Bigodes e todo o seu pessoal, o padre no encalço das esmolas, o carteiro dos cheques dos reformados, obrigando a vila a dividir-se ao meio, uns para o engavetar e outros para o enterrar. O Pierre Pomme-de-Terre agora o senhor Engenheiro Petroni, representava um certo neo-romantismo amigo do alheio, que se tinha estabelecido entre o final do século XX e o início do século XXI. A vinda desta figura carismática paço-arcoense representava o regresso às fontes das tradições da vila, particularmente no que dizia respeito ao mítico cheque careca. A mesa em “U” agitava-se, havia quem tivesse perdido a tranquilidade. As carteiras começaram a ser guardadas e todos viram o senhor Rato a cravar, com raiva, a faca da carne no atum do Mac Macléu Ferreira, e tudo por culpa das recordações de um compressor trocado por um cheque careca do filho do marquês. E o engenheiro Petroni sabia disso, viu-se na resposta que deu ao aniversariante quando este lhe perguntou onde estava:

- Em Macau a fazer o projecto para as futuras Torres Petroni que vou erguer no lugar do Tino, com as fundações do próprio.

Com a vinda deste mecenas de sinal contrário vinha outro tipo de discurso, desta vez mais elaborado:

- Focas amigo, diz aí ao pessoal que eu agora já tenho outra “armadura estrutural”, no passado fiz muita “argamassa” que tenciono agora compensar com um “cálculo estrutural” à maneira, que “arquitrave” as “incrustações” do antigamente, prometendo um autêntico “baldrame”, estás a topar?

O Focas nem teve tempo de responder, pois o (in)desejado continuou:

- Não te preocupes, convido-te desde já para um almoço sem limites aí no restaurante onde estás a jantar, e tudo por minha conta, e explico-te detalhadamente o que disse em cima.

O Pontas, pelo “sim” pelo “não”, encerrou de imediato o estabelecimento e pôs trancas nas janelas.

 

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