Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

31
Jul17

1ª Temporada - A Praceta


Comandante Guélas

Comandante Guélas 1.jpg

 

A Nossa História

Primeira Temporada

 

Episódio 1

 

“Sempre que uma linha de comboio divide uma localidade ao meio, há sempre uma parte de cima e uma parte de baixo.”


Fernindó, filósofo Paçoarquiano


Estamos no ano 2008 depois de Cristo, toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois da Revolução dos Cravos. Com medo que as tropas do Comandante Guélas conquistassem todo o território português, o Conselho da Revolução aceitou a independência de Paço de Arcos, pondo como condição que não dissessem nada a ninguém e que criassem uma equipa desportiva, o Futebol PA, para disfarçar!

I

A Praceta

Jomarte.jpg

 

A fila na “Jomarte” já dava a volta à praceta quando o dono da “Leitaria Vitória”, que vendia “meio-gordo” à taça traçado com gasosa, resolveu ir dar lustro às maçãs vermelhas, que enfeitavam o passeio. Ele sabia que mal os raios do Sol batessem nos citrinos, eles refletiriam a luz e atrairiam ao seu estabelecimento todas as velhas pirosas da região. Era o chamado “efeito mosquito”, técnica de marketing que o Bigornas da Loja de Fotografia odiava, porque ele detestava clientes, pois representavam interrupção na leitura dos livros de quadradinhos. Mas as pessoas teimavam em engrossar a fila da porta da sua loja, única em toda a freguesia. A primeira escarreta do senhor Vitório bateu com violência na maçã e respingou para cima das couves. Seguiu-se a fase do “dar lustro” com uma cueca reformada, que deixou a fruta com o brilho esplendoroso de um diamante. Meia-hora de cuspidelas depois já a “Leitaria Vitória” estava atafulhada de velhas com o “cabelo em riste”, atraída pela fruta reluzente.
- Taradas, – disse o senhor Bigornas ao ver o desenho assinado pelo Vilhena.
No balcão da “Jomarte” alguém tossiu ao ouvir a voz do proprietário. Até o podiam chamar que ele só viria quando acabasse a leitura. Em frente ao “Café Picadily” o senhor Américo atirou uma carica à cabeça de uma velha que acabara de sair, que nem notou que o objeto ficara colado à laca.
- Parece que vão à bomba da gasolina, enfiam a mangueira de pressão no cu e depois da gatilhada o cabelo sobe, – disse o Daniel Martins de Almeida, trovador.
No estabelecimento comercial do Ligóia a “ficha-tripla” era o que se estava a vender melhor. Em frente à porta, mas do outro lado do passeio, o Grilo passou apressado, com os bolsos carregadinhos de “produto”, para ser consumido no jardim, junto ao parque infantil, com o seu colega Taka Takata, que um dia fora considerado o melhor aluno do Liceu de Oeiras, com nome no Quadro de Honra, mas que se passara devido ao excesso de hóstias que as tias o tinham obrigado a engolir na infância. Passara da gravata à crista-de-galo num abrir e fechar de olhos, e tudo graças à Revolução dos Capitães, que tinha introduzido os charros no país. Na curva da esquina, junto ao Café do senhor Américo, o coronel Osório, um militar da velha guarda, levava um cartão vermelho da esposa, que cheirava a pó-de-talco e a naftalina. Uns metros abaixo, lá para os lados da Avenida, conspirava-se no coreto. O senhor Pierre-Pomme-de-Terre transmitia as ordens que trouxera do monte, mais propriamente da barraca da Dra. Quitéria Barbuda, na Terrugem. A revolução estava em marcha, a República Independente do Alto de Paço de Arcos (RIAPA) iria tornar-se uma realidade, custasse o que custasse. Só estavam à espera que a anarquia do pós-25 de Abril refinasse e que a lei caísse de vez nas ruas. Até lá, todos se deviam preparar, pois cada um teria o seu papel especial.
- Têm de ir receber instruções ao café do Manel da Leitaria.
No centro da conspiração de Paço de Arcos de Baixo (PAB), terra ocupada pela comunistada burguesa, que erguera a bandeira vermelha no cimo da maior árvore do jardim da Avenida, estava o senhor Tubarão, com a promessa de nomeação a general quando a RIAPA se tornasse realidade. Palavra de honra da potestade de Paço de Arcos de Cima (PAC), o glorioso Comandante Guélas. A figura imponente deste futuro militar era agravada por um par de óculos só de uma lente, para assim estar mais parecido com um militar do exército prussiano. Um vulto pequenino e coxo passou apressado pelo grupo de cinco pessoas e fez, meio escondido, o “V” da vitória, não fosse algum informador ir bufar-se à Dona Maria das Bicicletas, braço direito do suíno da papelaria.
- Está para breve a nossa vitória, – disse com convicção o anafado Pierre Pomme-de-Terre, que todos sabiam gostar de alardear heroísmos, mas que na hora decisiva nunca iria dar o corpo ao manifesto. – Mas para que seja uma realidade, têm de encher isto num peditório pela causa, – e entregou uma latinha redonda a cada um, com um caranguejo desenhado e uma frase emendada, “Luta Paçoarquiana Contra a Comunistada (LPCC). – O cabo Bajoulo irá recolhê-las no final do mês. Agora ide e que o Comandante Guélas os abençoe que eu não tenho troco.
A Leitaria do senhor Manuel só vendia meio-gordo branco à taça, traçado com um pirolito, como era tradição na vila desavinda. Situava-se numa encruzilhada, perto da casa do Mocho, um chefe tribal apoiante do cimo, que tinha às suas ordens todos os chulos do Pimenta, o bairro mais elegante da região. Quando os mandatários do Pierre Pomme-de-Terre entraram no café do senhor Manuel da Leitaria, o Balatuca acabara de dar um murro no vidro da máquina de flippers, tendo esmagado o crocodilo que puxava as bolas, quando se pressionava o segundo botão direito.
- O “tilt” parou isto tudo, – resmungava. – Eu só levantei as pernas da frente da máquina.
Mas a revolução escrevia-se torto por linhas direitas, e o Janeca (que charrava cigarros de chocolate) já tinha abafado as bolas, que tinham ficado a descoberto depois do vidro quebrado, e distribuíra-as pelos cinco agentes acabados de chegar.
- São munições para quando chegar o dia D.
Na esquina da Dáni o Ánhuca abriu o saco dos berlindes e cada um depositou o produto. Feito isto o “burro”, nome de código, rumou ao Alto em direção aos territórios do seu mestre Comandante Guélas. As bolas foram entregues ao Craveiro Lopes, mas como a nódoa também cai no melhor revolucionário, o senhor arremessou-as à cabeça do seu grande amor, de nome Quitéria Barbuda, que caiu redonda dentro da banheira, em cima de uma galinha que estava a chocar meia dúzia de ovos, que desapareceram pelo cano abaixo. Estava tão cego pela grandeza que o meio-gordo tinto lhe tinha dado, que o mensageiro Ánhuca teve de fugir a sete pés para não ir fazer companhia às duas galinhas, a Quitéria e a genuína. Dissimulado na distância estava o Manelinho do Estrume, agachado atrás de umas silvas, vítima de uma feijoada exagerada que o obrigava a pulvilhar o entulho de uma obra clandestina antiga. Assim permaneceu resguardado até ver desaparecer no horizonte o vizinho, a esbracejar sem nexo nem sentido, porque reagia mal quando o acusavam de ter pertencido à PIDE. Afinal a atitude que tivera contra o seu grande amor devia-se a um equívoco: as palavras que a Quitéria pronunciara no preciso momento em que o Ánhuca lhe entregara as bolas dos flippers tinham sido “pica, pica, pica”, enquanto atirava milho para o galináceo e não “pide, pide, pide”. Ser um revolucionário era uma arma de dois gumes – ou matava ou heroicizava.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D