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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

18
Nov17

2ª Temporada - O Primeiro "F"


Comandante Guélas

Cogumelos.jpg

 

2ª Temporada

 

Episódio 2

 

- Um dia ainda hei-de ser primeiro-ministro de Portugal, - prometeu o Zézito ao seu namorado paçoarcoense, dando-lhe um beijo lambuzado junto ao coreto da Avenida, outrora quartel general dos vencidos.

As modernices permitiam isto, a influência do Capitão Porão sobre a juventude era grande, havia certas personagens voláteis a quem não era aconselhável hostilizar. Por isso o Nando Maluco continuava a premir o gatilho da sua “Diana”, com a mesma facilidade com que o fazia durante a guerra da secessão de Paço de Arcos de Cima. O Comandante Guélas prometia agora os três pilares do seu regime, os “Fs” que iriam pacificar a população, e que enterrassem de vez a alienação que a comunistada tinha sujeitado o povo do sul.

- Comuna é comuna, nunca muda, mesmo se se pintar de branco - gritava de cada vez que via o Titó na estação.

Os seus discursos anti social fascistas cruzavam-se sempre com os disparos da sua menina. Mas o Titó mudara, deixara de vender o “Avante”, e só usava a gare para apanhar o comboio para Cascais quando ia passear com a sua amada Blandina, irmã do Frederico dos Jornais, que ficara com as frações vencedoras da lotaria, que o Milhas rejeitara. Com acesso a uma conta burguesa, este ex-general do exército derrotado do Sul de Paço de Arcos afastara-se do proletariado e abraçara agora a causa capitalista. Ao fim da tarde o Coreto da Avenida era aberto ao público para que todos pudessem participar no programa de reabilitação  fomentado pelo Querido Líder, o “Verdade e Consequência”!

- Estou morta por dentro, mas de pé como as árvores, Espalhinha – costumava confessar a agora Marquesa Maria das Bicicletas, ex - La Pasionaria, consumidora comunista das ervas do retornado Alice.

O título nobiliário fora-lhe vendido pelo Pierre Pomme-de-Terre, que lhe garantia que a assinatura que autenticava o documento era do seu estimado pai de sangue azul. E como a vila era agora democrática, graças ao Comandante Guélas, ela foi a primeira paçoarcoense a entrar em greve, por incitamento do sindicalista Bill, tendo-se recusado a dar à bomba durante uma semana.

- Liberdade, Fraternidade e Igualdade, - pedia o Milhas, sem muito sucesso, pois nem os irmãos o queriam reconhecer como tal.

Mas algo estava para acontecer, e não foi pouco. Foram tantas as vezes que o Lopes, canídeo do poeta oficial o senhor Daniel Martins de Almeida, evacuara junto à base do busto do Patrão Lopes na Avenida, que acabou por nascer uma plantação de Armillarias que um dia, devido às suas características de bioluminiscências, um fogo-fátuo iluminou uma noite escura, na altura em que o Craveiro Lopes passeava aos “ésses” com a sua amada Quitéria Barbuda, e o amante desta, o Russo:

- Vê Filipe, o velho está a  peidar-se, é milagre, é um sinal do Além.

Saíra o euromilhões ao novo regime, Paço de Arcos também tinha a sua Fátima, e três testemunhas no mesmo estado etílico dos pastorinhos. Foi este o primeiro “F” (de flato) da gloriosa vila de Paço de Arcos.

09
Nov17

2ª Temporada - Ventos de Mudança


Comandante Guélas

Ventos.jpg

 

 

Segunda Temporada

 

Episódio 1

 

O atentado ao Filho do General, alguém arremessara de um quinto andar uma bilha de gás contra o seu carocha, após uma visita de cortesia, à meia noite, a uma mulher casada, mostrou ao Comandante Guélas, o agora Querido Líder de Paço de Arcos, que a vila ainda não estava pacificada:

- A comunistada estrebucha, mas ainda consegue comer Super Maxis!  

Mas de uma maneira geral respirava-se felicidade, todos os dias, à semelhança do ritual da Guarda Real em Londres, o Pedrinho Marítimo Litoral, Litoral da parte do pai, corria para a água, vindo do lado do bar, a cantar “Vicky apaga a vela”. O Tino transformou a taberna, situada num daqueles sítios onde iam aqueles que não podiam ir a outro sítio, e onde o frio de fora se juntava ao frio de dentro, numa casa de pasto que tinha como missão destronar o seu vizinho galego, dono do restaurante dos regimes, do novo e do antigo. E não era o único, porque o Senhor Xantola já andava na estrada, com o mesmo objetivo. O ex-sargento dos Comandos entrou a matar, oferecendo soberbos peixes amarelados, gostosas carnes esverdeadas, mergulhadas em molhos brilhantes, uma precursão do atual Sushi, com a cor vermelha proibida, onde o freguês podia optar por batatas cozidas cruas ou batatas fritas encharcadas no óleo do próprio cozinheiro, pratos estes decorados com saladas mornas e gordurosas, enfim, um serviço de primeira cuja conta vinha sempre num prato de alumínio amolgado, onde muitas vezes abundavam pequenos pêlos encaracolados, para dar um toque chic. Nas sobremesas, que antes eram feitas numa cave clandestina, constava uma panóplia de gostosos sabores: “Bolo de Bolacha” da Sesaltina, feito com os restos das bolachas que o Zé dos Porquinhos comprava para o Bóbi, na drogaria do Zé da Antónia, e que tinham sempre a decorar as penas da última galinha abatida; “Baba de Camelo”, produzida na Terrugem de Cima pela mãe do Ánhuca ao fim de semana, altura em que ele tomava banho e mudava de meias, peças estas com que a senhora aproveitava para fazer massa de pasteleiro, usando só farinha, porque o molho já lá estava; “Doce da Avó”, receita exclusiva da Maria das Bicicletas, cujo ingrediente principal era o óleo que o Cabrita lá ia mudar todas as quintas-feiras; “Delícia de Amêndoa”, feita com as crostas que o Pingalim gamava à tia. O Carlos Ponta cresceu com os amigos neste ambiente cultural e, segundo o especialista de lulas Mac Macléu Ferreira, “a restauração ficou para sempre hibernada no In deste jovem cabeçudo”, pronta a despertar ao menor sinal, o qu aconteceria durante o fogo de artifício na ainda distante viragem do século, onde iria manter os pratos, mas trocando-lhes os nomes, “Treco Lameco”, “Creme Brulée”, “Pistôn de Foie Grás”, “Cracker Cake”. Mas voltemos aos anos setenta e ao sargento. Estava imparável, pois em frente a este formoso restaurante abriu também um “Salão de Jogos”, com a última novidade em máquinas da terceira geração, vindas diretamente do fornecedor oficial, o senhor Zé de Porto Salvo, nome de todos os desvarios e de todas as errâncias, de todas as grandezas e de todas as decadências, uma espécie de Vale de Azevedo autóctone. Mas o “Manuel da Leitaria” também dava cartas a todos, juntamente com o snob “Papagaio”, cuja especialidade era meio-gordo à taça, que o Pontas mudou mais tarde para “White Express”, enquanto que o “Bachil” arrasava com as célebres “Bifanas à Casa”, que gritavam mergulhadas num molho borbulhante castanho amarelado, que no novo milénio iria chamar-se “Steaks plongé dans punhétê”, para já não falar do tão afamado “Kitanda”, especialista em “Pombo Abafado”, um produto do campo exclusivo da Avenida que os filhos do Manelinho do Estrume, um autodidata amante deste tipo de aves, que engravidou a filha depois da mulher ter fugido após o décimo quinto parto, alimentavam diariamente com sementes desviadas da gaiola do Ligóia. Mas o Tino sobrepôs-se, porque conseguiu juntar o princípio da realidade ao princípio do prazer, e por isso havia zangas, despiques, rixas, litígios, zaragatas, amizades que se reconstituíam no fim da noite, com as garrafas a voltarem a esvaziar-se. Não havia pausas, os clientes por vezes caiam, levantavam-se e regressavam, bebiam e estavam contentes, assim permitia a nova era.

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