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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

27
Jan18

2ª Temporada - A Festa do Criolina


Comandante Guélas

 

 

Festa PA.JPG

 

Episódio 11

 

No Coreto da Avenida, o Speakers’ Corner paçoarcoense, dois cidadãos discutiam com veemência:

- Quem manda no futuro é o presente e não o contrário, - gritava um retornado de nome Carlos da Tapada.

- O futuro não existe, já que só passa a existir quando é presente, - discordava o Choné, puxando a franja para o lado.

- Pois fica sabendo que me fixo no futuro, porque é nele que vou viver o resto da minha vida, jogando futebol, - retaliou o preto branco.

Mas o beatle Choné estava imparável:

- Iluminarem o caminho, tirando das trevas os que ali andam perdidos, não é fácil. Há um monte de burros comunas na parte de baixo da vila, mas o nosso Comandante Guélas com a sua paciência infinita, e muita tranquilidade, conseguirá mostrar-lhes o caminho certo. Mas se não conseguir, só com muita porrada.

O retornado retaliou:

- És muito limitado, aconselho-te a estudares Letras, porque nas Ciências nunca terás hipóteses. É evidente que podes ir ao futuro e vires-te, como conseguiu Einstein após esgalhar muito o frango. Se andares à velocidade da luz e levares um pau com uma vela pendurada à frente, logo estás mais rápido do que a luz e para voltares, apontas o pau para trás. Tem de ser uma vela do Zé da Antónia, porque as do Severino Seco são fraquinhas.

Mas a vila estava mais virada para o farrobadó do que para a intelectualidade. Por isso as festas mais famosas de Paço de Arcos eram repartidas por dois colossos, o Criolina do Sul e o Bakaus do Norte, o que ia todos os verões para o Algarve montado na sua Honda 50 “foder à cagão”. O Criolina contratava sempre o Choné para explorar o bar, e insistia em manter a zona recreativa na total escuridão, incluindo a luzinha vermelha do gira discos, que era tapada com um bilhete de elétrico. Por isso quem levasse a namorada não a podia perder, porque caso acontecesse, só a conseguia encontrar aos apalpões. E muitas vezes quando a descobria, ela já estava a lambuzar-se com outro.

- Foi sem querer, - justificavam-se a maior parte das meninas desonestas.

No Pica o Nando Maluco pedia, com a sua gentileza característica, algo ao ouvido da namorada:

- Bombom, fazes um favor ao Nandinho?

- Tudo o que quiseres, meu Petit Patapon!

- Tira-me o lenço que está no bolso, para limpar as mãos sujas de óleo da mota

Ao mesmo tempo que a jovem introduzia a mão direita no bolso esquerdo do namorado, mexia o chá com a outra, e sorria para a tia que estava à sua frente.  Não encontrou o lenço, mas sim uma cobra desaçaimada!

- Há quanto tempo é que namora com esta jóia de rapaz? – Perguntou a idosa com o cabelo eriçado como o Moisés quando desceu da montanha.

O Nando Maluco teve o dom divino de deixar a sua marca em Paço de Arcos, por isso a vila em termos religiosos foi sempre muito rica. O facto mais parecido com uma aparição de que há registo na gloriosa vila de Paço de Arcos, foi quando o Espalhinha, não sob o efeito do vinho como os pastorinhos, mas sim por simples ingenuidade fez a pergunta fatal na catequese:

- Senhor padre, os Arcanjos têm asas?

O estalo que levou do representante do Senhor, não o nosso Querido Líder, mas Outro do andar de cima, foi tal, que o pequenito ficou a ver estrelas, a ouvir gambozinos, e há quem diga que a partir dessa data o cabelo encaracolou. Com a conquista da vila o Comandante Guélas declarou que Deus era um “mamífero gasoso”, por isso havia muitos candidatos ao lugar, daí a proliferação de igrejas: Mormons, IURD, Igreja dos Últimos Dias na Praia de Santo Amaro, os Milhas, os Filhos das Fontainhas

20
Jan18

2ª Temporada - Gambozinos


Comandante Guélas

 

Paco Arcos rua.jpg

 

Episódio 10

 

Os gregos diziam que depois do amor todo o macho é triste menos o galo … e os paçoarcoenses! Quando o Fritz Moca, filho de pai alemão, acordou, reparou que o corpo estava a ser consumido pelo sol, tal qual a madeira pelo caruncho. Recuemos no tempo! Na vila também dava pelo nome de Lixívias, assim o denunciava a cor germânica, por isso não sabia o que era uma ida à praia.

- Sou alérgico aos raios, - explicava aos amigos.

Mas a única excepção quase que o ia enviando para o Além. Foi no Algarve, na ilha de Faro, quando os amigos o expulsaram da tenda porque piava à noite. Ao acordar no dia seguinte o Balacó deu de caras com o Fritz Moca a dormir debaixo do astro rei, e com o lombo a borbulhar. Bastou encostar um cigarro ao amigo, que este acendeu-se de imediato. Foi despachado imediatamente no comboio correio diretamente para a vila, para se evitar um conflito diplomático caso o germanófilo batesse as botas. Quando se despediu do Fritz Moca o Balacó queimou-se na altura do aperto de mão. Foi visto anos mais tarde pelo Espalinha como porteiro do Silver Gold.

Não era o único estrangeirado de Paço de Arcos, no verão aparecia sempre o Frank Monka, um chico esperto filho de emigrantes nos states, que julgava que o país se situava na África Subsariana, e que foi convencido por um autóctene da existência de fauna exclusiva na praia Velha:

- Gambozinos??

- E dos grandes! – Respondeu o Tio Mino, afastando as mãos. – Comem à noite, e vou-te ensinar a caçá-los.

Durante todos os dias dos três meses de verão o Frank Monka equipou-se com um camaroeiro, e embrenhou-se pelo vasto areal da praia Velha, na esperança de levar uma fera destas para os states, à medida que era molhado pelo tutor e amigos, que lhe atiravam, escondidos, com baldes de água.

No ringue da Avenida o General Bidon, filho de militar, um precursor do Futebol PA, jogava à bola com os amigos e, como sempre, mantinha-se fixo na sua posição de médio campista:

- O que interessa é a colocação no terreno!

Estudou medicina durante dez anos, sempre no primeiro ano, apanhava o mesmo comboio da manhã todos os dias, com a sua pastinha de estudante universitário na mão, onde levava os calhamaços de anatomia. Calhamaços de anatomia? Não, porque um dia fechou mal a dita, e esta abriu-se com estrondo na carruagem, deixando cair um jornal “A Bola”!

Quanto ao Coquicha, que morava junto ao Castelinho, não tinha jeito para os estudos, mas isso não foi impedimento para tirar a carta, e com a vermelhinha na mão ter uma carreira fulgurante como motorista. Começou com uma cunha na Câmara e acabou chauffer bêbado do Zézito na Presidência do Conselho de Ministros, após o que se reformou e rumou para o Alentejo, onde foi cavar batatas. Jogou hóquei no P.A.

13
Jan18

2ª Temporada - O Benemérito


Comandante Guélas

 

Mulheres Histéricas.png

 

Episódio 9

 

A cidade de Betânia lá para os lados do Médio Oriente tinha o seu herói, o Lázaro, ressuscitado quatro dias depois de morrer por um hippie de túnica branca, cabelo comprido e barba rija, que estava de passagem. A vila de Paço de Arcos também tinha um ressuscitado, o Choné, duas vezes, para o Futebol P.A. E foi nesta condição de ressuscitado famoso com que entrou no Electrogumitário determinado a entregar mais alguns nomes de figuras públicas.

- Tenho aqui uma lista, - e estendeu o papel à funcionária, a Espirro de Punheta.

“Alcunhas com mais de 50 anos: 21, sapateiro, avô do Montanelas e da Ministra; 110, dono da carreta de castanhas em frente ao cinema, pai da Ester, mulher do Metropolitano, tipo de calções que vivia ao lado do Pica; Luís Caguiné, avô dum Vieira do hóquei; Luís da 40, tio da Maria Otelo, mulher do talhante do mesmo nome; Tuy (menino Artur) e Moedinha; João Pé Leve, do Posto Náutico CDPA; Espia Feia, alcunha posta pelo Pica; Bezelina, neta do 21 e prima do Montanelas”.

Foi de imediato conduzido ao gabinete do Curador, o Bexigas, um calmeirão de um metro e sessenta, que o levou em mão própria ao Diretor, que diariamente despachava cartas na Sede do Clube Desportivo de Paço de Arcos. Chegavam sempre a ele através do cheiro intenso a perfume que exalava nas redondezas, e desta vez não foi excepção.

- A vila agradece de todo o coração a sua nobre contribuição para a Galeria dos Paçoarcoenses Famosos!

E estendeu-lhe uma cerveja. Mas a secretária já tinha dado a novidade às amigas, o “Ressuscitado” estava no clube. Por isso quando saiu do espaço tinha uma manifestação da elite feminina católica de Paço de Arcos: Sapo, Baleia Azul, Espirro de Punheta, Aninhas Carro Elétrico, Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, Olívia Palito, Sóni, Lucinda Careca, Crespa, Tita dos Pés Sujos, Branca de Neve, Odete Estica, Beringela, Espia Feia e Bezelina, que ostentavam um cartaz que dizia, “O Choné é Lindo”!

06
Jan18

2ª Temporada - O Pulsar da Vila


Comandante Guélas

 

Paulo Portas 2.jpg

 

Episódio 7

 

Paço de Arcos era a Meca dos Malucos, por isso o conceito de “normalidade” diferia do resto de Portugal. Na agência do BES em Paço de Arcos, que transformara muitos pescadores em doutores, o empresário do salão de jogos do Centro Comercial Áries, o senhor Pio, entregava ao caixa Zézito Circunferência, Almôndega de Bigode para os amigos e Laranjina C para os íntimos, um saco de moedas de cinco tostões marteladas.

- A rapaziada consegue assim equipará-las às moedas de cinco escudos, e as máquinas aceitam-nas.

Era a prova de que os genes do Alves dos Reis faziam parte do código genético dos paçoarcoenses. Na noite anterior algo de grave acontecera na casa do Bakaus durante uma das inúmeras festas: durante uma quebra de luz a lâmpada ultravioleta que ele gamara a uma das máquinas do Pio, fora roubada!

- Ninguém sai daqui, - gritou o DJ com cara de papagaio, bloqueando a saída. – Vai haver revista, um de nós é um larápio!

Novo apagão, mas desta vez da responsabilidade da mãe, que lá de casa avisava que já estava na altura de terminar o evento. E de novo alguém gritou na escuridão:

- Abre essa merda, Getrudes!

Quando a iluminação voltou, o dono porteiro apercebeu-se que os dançarinos tinham aproveitado a ocasião para se servirem de borla no bar, montado no anexo em baixo. O desaparecimento da ultravioleta tornou-se um mistério, e nasceu o mito, que apontava o dedo ao Zé do Fotógrafo porque a melhoria na qualidade das fotos da Jomarte para os passes mensais na Linha do Estoril melhorou substancialmente, deixando os dentes dos clientes mais brancos.

Como o Comandante Guélas era um admirador confesso da rainha Isabel II (“faz-me lembrar a Quitéria Barbuda do Craveiro Lopes” – dizia frequentemente), fez da Avenida o seu Hyde Park, e do Coreto o Speakers’ Corner. O espaço estava neste dia ocupado pelo Jó Jó Obélix, que fazia uma demonstração da arte de jogar à bola com limões, ao mesmo tempo que discursava para a multidão:

- E se viessem os índios? Vocês não estão bem a ver, se vierem os índios? Como é? Estamos preparados para eles? Desafio 3 para 3 no Largo da Sede Social do CDPA. Ganha quem meter o limão dentro da sala!

No Pombalino o Rebelo matava a sede, há já várias horas, embalado pelo ralenti da sua mota que o esperava na rua:

- Esta máquina veio do México!

Só se distraiu quando a Piranha, a rapariga de pescoço torto que morava no prédio do Bolinhas, passou airosa na rua, junto à Maria das Bicicletas, que estava a mudar o óleo ao Cabrita atrás da bancada, acompanhada pelas suas amigas, a Tita dos Pés Sujos, a Odete Estica, a Branca de Neve, a Terra à Vista e a Berinjela.

- Levava-as todas na minha mota ao Baile da Couve, - desabafou ao 7 Solas, o amigo da perna curta.

O Bagacinho riu-se, não por gostar de meio-gordo branco, mas por ter sempre a ponta do nariz vermelha e levemente abatatada. O 7 Camadas um portosalvense com seis camadas de estupidez e uma de merda, ajavardou:

- Espera aí que já cospes!

Nessa noite o sapateiro com perna de pau, responsável pela boys band mais famosa da vila, o “Carlos Ribeiro mais 4”, iria esgalhar na festa do Mercado de Oeiras, e uma semana depois na Festa do Cachucho no mercado de Paço de Arcos. O Siririco, o dono retornado do Cine Teatro, arrasava a concorrência com um filme do Bruce Lee.

- Este não vou perder, - disse ao Menino Élinho o Zé Boga, irmão do Menino Ni (ou Niganan), que sonhava ser comandante de um barco em Porto Santo, mesmo tendo uns glóbulos oculares estilo camaleão.

 

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