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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

25
Fev18

2ª Temporada - Os Sapatos do Coronel Osório


Comandante Guélas

 

Sapatos.jpg

 

15

 

Sempre que há uma revolução algures no mundo, o número de casamentos aumenta. Paço de Arcos não foi excepção à regra! A seguir ao do Peidão foi o do Focas, que estava com casamento marcado e a despedida prometia ser longa. Os seus queridos amigos começaram por lhe arremessar um dos seus sapatos para a varanda do coronel Osório, um militar da brigada comunista do reumático, que já se encontrava mais para lá do que para cá, depois de ter dividido com a esposa um jantar no café do senhor Américo. O militar ainda ouviu o impacto da falua made in senhor Coutinho no estor, mas confundiu o barulho com um tiro disparado pelo John Waine no filme que estava a dar na televisão. O que iriam dizer os futuros sogros quando o Focas aparecesse lá em casa para ir buscar a noiva e se apresentasse com um pé calçado e outro com uma meia “CD” rota? O casamento do Focas não poderia ser posto em risco, porque o Pilas já estava a preparar a festa, idêntica à do casamento do Peidão, em que trotou o dia todo, gatilhou nos extintores e abanou a fruta para as tias quando estava de cuecas em cima da prancha mais alta da piscina antes de saltar e gritar, “o que vocês querem está murcho”.

- Temos de ir buscar o sapato do pobre Focas, senão ele ainda se constipa, - disse o Velhinho, recuperando o equilíbrio depois de se apoiar numa árvore.

O jovem adulto escolhido para ir tocar à porta do militar, estava virado para a loja de electrodomésticos do Ligóia com o sexo cansado de fora a debitar mijo, muito mijo.

- Não dou, - gritou peremptoriamente o coronel Osório, não aceitando a explicação que colocava o sapato do Focas na sua propriedade devido a um golpe de vento traiçoeiro.

A hora para ir buscar a noiva aproximava-se. Como o andar onde morava o Velhinho era o de cima, um segundo plano foi montado, e consistiu em pescar a barcaça. Mas na varanda utensílios ligados ao mar só havia uma poita.

- Eu sou capaz de pescar um tubarão com uma linha de cozer, - atirou o Velhinho, chegando-se ao parapeito da varanda com a cana na mão.

Olhou para baixo e viu três sapatos, apesar de todos só verem um. Quando o isco começou a descer para ir salvar o sapato do Focas comprado na sapataria do senhor Coutinho, o pescador teve uma fraqueza nas mãos, devido à cevada que lhe forrava o interior, e deixou cair com estrondo a âncora em cima do objecto do noivo. O coronel abanou e deitou-se no chão em posição de defesa. Nova reunião, novo porta-voz, mas agora um com um ar mais convincente e da zona: o Pierre Pomme-de-Terre, o futuro Vale e Azevedo da vila!

- Não, - tornou a gritar o militar da velha guarda para o adolescente arraçado de leitão com anjo barroco, de carne tenrinha e sorriso virgem.

O Focas não teve outro remédio senão pedir emprestado o sapato de cor diferente ao seu futuro cunhado o Proveta, que o esperava no rés-do-chão, e não saiu da porta de entrada, sem acender as luzes, alegando uma reunião extraordinária com o padre. Saiu a correr e a coxear, mas com os sogros a babarem-se de orgulho por tão devoto enteado. No entretanto o gang reunira-se de emergência e aprovara por unanimidade a proposta do marido mais responsável da zona, o senhor Peidão, que lançara uma fatwa para a meia-noite: encher a varanda do coronel Osório com todos os sapatos velhos de Paço de Arcos e arredores. E a lei foi cumprida, durante meia-hora choveu granizo na varanda do militar. No dia seguinte o Osório foi visto pelo Paivinha, um paçoarcoense de 300 Kg, e pelo Boca Negra, o Fernando Jorge, com um enorme saco de plástico atestadinho de sapatos, a caminho do contentor da praceta.

17
Fev18

2ª Temporada - Quatro Rodas


Comandante Guélas

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14

Após a conquista da vila de Paço de Arcos  pelo glorioso Comandante Guélas,  os momentos de glória, reduzidos quando a comunistada era quem mais ordenava, multiplicaram-se, sinal de que a nova juventude estava em efervescência. Por isso o Rali de Portugal teve um dia, por breves instantes, dois pilotos paçoarcoenses, que atuaram durante a ligação entre Lisboa e Cascais, via Marginal. O povo esperava-os e eles distinguiam-se no meio do trânsito normal porque traziam os faróis acessos e ambos tinham capacete na cabeça. Na face do Conan Vargas cintilavam os olhos a anunciar uma tarde de fama. Havia na Marginal uma atmosfera luminosa, um brilho. O condutor do Ford Escort branco já tinha o filme dentro de si, via-se de penico branco na cabeça, comprado na Dona Maria das Bicicletas, com os máximos ligados, o grupo sanguíneo na porta, “O - RH menos” (“Ó” de Óscar, “RH” não sabia o que era e “menos” era a nota que tinha apanhado a comportamento no Liceu de Oeiras), e o barulho das fêmeas a sobrepor-se ao seu tubo de escape e, acima de tudo, a gritarem pelo nome artístico: Óscar! Conan Vargas era uma criatura nocturna que dava “oito seguidas sem ver a luz do Sol” . Quando o nosso herói se sentou ao volante do carro, lembrou-se que na noite anterior tinha sido o co-piloto do Pilas, que batera o recorde da vila ao entrar “prego a fundo” pelo lado do bar “Marginalíssimo” e ter passado pelo “Manuel da Leitaria” a 140. Desta vez tinha ao seu lado o jovem adolescente com o cognome de Peidão, uma jóia de menino, que reparou que o piloto estava com a mesma cara, o mesmo cabelo e um olhar alucinado só reservado para estes breves momentos de fama.
- Quando o Conan se despistou em Carcavelos, na curva do sanatório, estava com este olhar, - foram estas as palavras de incentivo do Bigornas ao mesmo tempo que entregava os capacetes à equipa paçoarcoense número dois, uma vez que o Pilas já tinha arrancado com o Velhinho.
Se estava ou não alucinado quando desfez o carro da mãe, um Renault 16 com a matrícula BU-13-78, o Peidão não sabia, mas o relato do desastre feito pelo irmão do Zé do Fotógrafo era muito completo. O Conan tinha acabado de tirar a carta e queria impressionar as fêmeas lá para os lados do “Santini”. Como o seu “chaço” de certeza que causaria má impressão nas meninas queques de Cascais, inventou uma desculpa da falta de gasolina e de um exame da quarta classe imprevisto, e a mãe emprestou-lhe o carrinho que ainda estava em rodagem:
- Guia com cuidado, - avisou-o.
- Eu não sou burro! – Rugiu o Conan Vargas.
Encheu o carro de amigos e partiu a todo o gás. O Bólide ia com a língua de fora quando fizeram a curva, começaram a rodopiar e a bater em tudo o que era obstáculo. O Bigornas meteu as mãos na cabeça, segundo contou, e preparou-se para o mergulho no esgoto. Como é que iria safar-se no oceano se, como dizia o teórico Focas, “quando alguma vez cair numa parte funda só poderá pedir socorro com os pés, pois a cabeça funcionará como uma poita”. Não era por acaso que tinha o cognome de “Bigornas”. Tiveram sorte, Deus ainda não os queria lá em cima. O carro não foi cortado ao meio, porque bateram no poste junto ao motor, já depois da bagageira ter ficado desfeita quando atacara o muro do Sanatório. A vítima mortal foi o poste de iluminação de pedra, pelo qual pagou uma indemnização de 30 contos.
Este pensamento varreu-se da cabeça do Peidão na altura em que o carro partiu, a fazer muito barulho, mas em passo de caracol. As fêmeas não estavam longe, encontravam-se distribuídas por toda a Marginal e o Conan queria sentir o cheiro de todas elas. Foi a sua consagração, já se via o agente secreto Óscar, à medida que o carro avançava com os faróis acesos, os pilotos de penicos na cabeça e o povo a aplaudir em êxtase uma das equipas do rali mais famoso do mundo. Mas nem Holliwood, nem Bolliwood, pois a única vez que Conan Vargas apareceu na televisão foi no anúncio ao “WC Pato”, em que se levantava da posição de cagador, abanava a mão junto ao nariz e era salvo por um perfume inebriante saído do autoclismo.

 

 

10
Fev18

2ª Temporada - Olá Fresquinho


Comandante Guélas

 

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13

 

Mais uma vez o Cine-Teatro de Paço de Arcos não deixava o crédito em mãos alheias e apresentava ao exigente público paçoarcoense, pela vigésima vez, o fabuloso filme com Bruce Lee “O Sinal do Ko Lhão”. Quando deu de caras com enorme cartaz pendurado na porta, o Menino Élinho deixou-se encartar pela pose desafiadora do chinês, espécie só vista no ecrã, e por momentos encarnou no herói, vendo-se no coreto da Avenida, vestido de pauliteiro de Miranda, a aviar os filhos do Manelinho do Estrume. Regressou à realidade quando sentiu o toque do Gilinho no ombro a avisá-lo que a campainha já tinha tocado. Mas não subiram sem antes se abastecerem de saborosos amendoins, cujas cascas seriam arremessadas mais tarde para a plateia, interceptando primeiro a luz da projecção, para assim criar efeitos especiais na tela. Até nestas modernices da actualidade a gloriosa vila de Paço de Arcos foi pioneira! Quando as luzes se apagaram o público reagiu, e os pirilampos dos guias-bilhetes acenderam-se em sinal de advertência.

- Álhi, Tópitói, - gritou alguém, avisando os espectadores da presença do mais célebre bombeiro da vila, que zelaria pela segurança do recinto.

Os “Filmes Castelo Lopes” deram as boas-vindas aos presentes e nas cenas das apresentações todos ficaram a saber que o Roberto Carlos iria aparecer numa longa metragem a cores, seguido dum fabuloso Zorro a preto e branco, numa sessão 2 em 1, estratégia comercial, também pioneira da vila mais famosa da Costa do Estoril. O Nico, que estava sentado entre o Menino Élinho e o Gilinho, aproveitou a escuridão momentânea e atirou, não uma casca de amendoim, mas sim uma escarreta misturada com pedaços do fruto e da crosta, ambos torrados. O primeiro intervalo chegou, e Bruce Lee nem vê-lo. O Paulo Abelha já ressonava, e o Ruizinho do Pombalino estava com o rabo dorido, mesmo estando sentado na zona mais in do Cine Teatro de Paço de Arcos. A correria ao bar foi a do costume, havia proibição de fumar na zona do público, não uma medida ambiental, mas uma exigência do bombeiro que temia que uma fagulha pudesse incendiar aquela mistura quase irrespirável de cholé, sebo, sovaco, bufas, arrotos, e outros gases potencialmente inflamáveis. Quando a campainha tocou, a correria foi geral, vinha aí o Bruce. O Menino Élinho endireitou-se e ainda teve tempo para simular um golpe de karaté, que passou a rasar o nariz do Gilinho. Como era de prever, a cena do “Sinal do Ko Lhão” começou com uma troca de beijos entre um camponês esfarrapado, que todos sabiam ser o herói, e uma linda chinoca vestida com umas cortinas, minada de pó-de-arroz e com uns pauzinhos cravados no cocuruto, cena esta que alternava com a da chegada dos maus, que desciam a montanha que circundava a aldeia, a galope. As bocas estavam coladas, e todos os movimentos alternavam com as línguas, que não se viam.

- Espera aí que já cospes, - gritou o Todo Boneco, como já era tradição, do meio da plateia.

Os pirilampos acenderam-se e o prevaricador foi avisado de que para a próxima era convidado a sair.

- Álhi, Tópitói, - gritou outro mais acima.

Mais avisos, seguidos de outros gritos, até que o público mais culto se manifestou, pedindo silêncio. Foi nessa altura que o gangue do “Pim Ga Lim” chegou às casas e partiu tudo, excepto o Bruce Lee, que conseguiu fugir e jurou vingança.

- Conta comigo, – gritou o Menino Élinho entusiasmado.

- Para quê, só se for para o jantar, – provocou o Gilinho.

- Duvidas que eu partia o Pim Ga Lim todo se o apanhasse no Coreto?

- Tu nem uma porta partes, – gritou o Ruizinho do Pombalino.

- Lá fora falamos. Aposto uma caixa de gelados!

O desafio estava lançado, depois da vingança do Bruce Lee viria a desforra do Menino Élinho. E não demorou muito, pois o Bruce Lee parecia estar com pressa e rebentou num abrir e fechar de olhos com toda a província natal do Pim Ga Lim. E uma vez na Avenida o desafiu foi lançado:

- Aposto que não és capaz de deitar aquela porta abaixo, - desafiou o Gilinho, apontando para a barraca dos gelados “Olá”.

Não obteve resposta porque o Menino Élinho saiu a correr em direcção ao alvo, ao mesmo tempo que se via no ecrã em câmara lenta. A guardar a casota estava o Pim Ga Lim e lá dentro encontrava-se prisioneira a fabulosa Sapo. O estrondo foi enorme, mas nada cedeu. O Gilinho riu tanto que acabou por se desequilibrar e bater violentamente com a cabeça na porta, que saltou dos ferrolhos. Por breves segundos o grupo ficou paralisado, os gelados estavam ao alcance de todos. E foi isso que aconteceu! A barraca foi tomada de assalto e cada um agarrou numa caixa.

- Agarra que é ladrão, - gritou um popular.

Foi a debandada geral, o Gilinho e o Menino Élinho seguiram em direcção à sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos, enquanto que os outros optaram por outros caminhos alternativos. Mas de uma coisa ninguém prescindiu: dos doces, pois correram e chuparam ao mesmo tempo, diz a lenda! Mas voltemos aos heróis principais. Ambos entraram pelo clube, é um facto, mas actualmente divergem na modalidade que se estava a jogar, o Gilinho diz que é damas, o Menino Élinho opta pelo xadrez, pormenor que nos dá a idade actual destes paçoarcoenses. Este deu logo de caras com o primo Albertino, que desafiou de imediato para um jogo, mas que lhe disse para ir montando o tabuleiro enquanto comprava tabaco. Para a história da vila ficou registado que o Menino Élinho tinha sido visto a jogar xadrez sozinho, talvez devido aos efeitos nocivos de algum gelado marado. A perseguição aos outros elementos do Gangue do Karate prolongou-se pela noite dentro, e teve como cenário a linha do comboio. Quem assistiu a toda esta cena foi um par de namorados sentadinho num banco do jardim, a Marina da casa galega e o Pinando!

03
Fev18

2ª Temporada - O Menino Élinho


Comandante Guélas

 

 

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Episódio 12

 

 

Dizia a lenda que as paçoarcoenses que queriam engravidar teriam de passar por debaixo da ponte nas Fontainhas, mas não era o Diabo que estava lá, mas sim o Todo Boneco com a sua pressão de ar, saindo sempre do local aprovado com louvor e distinção. Por isso o Menino Élinho nasceu com um sonho entranhado, em que se via sentado ao volante dum Porsche Carrera, tendo acrescentado mais tarde à lista um soberbo Opel Manta 1900. Assim, acelerava em tudo onde se metia, desde o carro a pedais até às máquinas de flippers do Manuel da Leitaria, tendo gripado várias. Muitas foram as vezes em que o que o Professor Coelho deu de caras, não com a tabuada, mas sim com desenhos de Ferraris. O seu corredor favorito era da terra e dava pelo nome de Pinguim. O irmão do Pingalim corria em duas rodas, “no autódromo do Estoril, e por convite” explicava, e para não deixar dúvidas mostrava sempre as cartas que lhe eram enviadas, com selos nacionais e remetentes estrangeiros, pormenores que só um chato como o Carlos Ponta ousava denunciar. Assim, para o Menino Élinho o Pinguim era um modelo, estilo Elvis Presley, que era impossível igualar, a não ser que a modalidade competitiva fosse outra: as 4 rodas! Já se via na Feira Popular em parceria com o Pinguim numa dupla imbatível e famosa, um numa mota e outro num Ferrari, dentro do Poço da Morte, ambos vestidos com fatos de leopardo e máscaras do Zorro. E foi numa destas ocasiões que as aulas da Escola do Coelhinho tiveram de ser interrompidas: o Menino Élinho fizera um desenho, em vez da tabuada dos 3, de dois artistas vestidos de tigre à porta do Café do Papagaio! O Professor Coelho fora obrigado a ausentar-se do estabelecimento de ensino para ir falar com o padre, alegando que o jovem paçoarcoense deveria estar possuído pelo demo, pois o desenho, além de pornográfico, atentava contra a moral e os bons costumes da vila, pois mostrava dois meninos muito amigos com vestidos femininos. Mas, contra tudo o que era de esperar, o clérigo mostrou um interesse guloso em conhecer os jovens, e o Professor Coelho fugiu assustado para a toca, que já estava num rebuliço tão grande, que o tecto da Papelaria Dani ameaçava ruir a qualquer momento. O tempo passou e o Menino Élinho cresceu, muito à conta das batatas fritas da Dona Rosa, vendidas em saquinhos compridos de papel encerado, produzidas na fábrica “Pim Pam Pum” na Avenida, e das “Bolas de Berlim” transaccionadas pelo Senhor José na praia, e guardadas com carinho na sua caixinha branca de duas gavetas. Mas o sonho nunca esmoreceu, e já crescido andava sempre a acelerar no Opel 1204 Caravan do pai, pensando estar no seu eterno Porsche Carrera, muitas vezes substituído por um Opel Manta 1900, conforme a alucinação do momento. Mas para ter acesso ao Opel Caravan teve de fazer uma cópia das chaves e ia busca-lo sempre à noite quando os pais já estavam recolhidos e convencidos de que o seu Menino Élinho tinha obedecido ao “Vamos Dormir” da RTP. Nem tudo foram favas contadas, pois muitas foram as ocasiões em que ao regressar a casa o Fangiocoelho deu de caras com o lugar ocupado por outro carro. Nestas ocasiões a manhã do pai nunca era pacífica, pois o senhor jurava que tinha estacionado o carro ali e ele estava acolá. “Estás a fazer confusão”, explicava de imediato o filhote, todo preocupado. O ponto alto desta preciosa carreira atingiu-o numa certa noite no Largo do Jardim, às 4 horas da manhã, na companhia do Maia e da Tina. Andava a mostrar aos amigos o seu próprio bólide, quando o casal de pombinhos que o acompanhava lhe pediu para os deixar dar uma volta sozinhos, um possível ensaio para a vida futura de casados. O menino Élinho saiu do carro, puxou de um cigarrito, e foi logo encadeado pela figura mítica do neto do Bruce Lee, o Kovac’ Olhões, trazendo-lhe à memória a visita de cortesia que anos antes fizera com guerreiros amigos à barraca dos gelados ali tão perto. Nem ouviu o chiar dos pneus, sinal de que o Maia tinha colado o acelerador ao chão do bólide e a sua Tina às costas do banco. Quando o carro passou por ele a deslocação do ar apagou-lhe o cigarro, mas o Kovac’ Olhões era mais forte do que o vento, e por isso o Menino Élinho nem se apercebeu dos pedidos de socorro do seu querido pópó. Mas um barulho infernal trouxe-o de novo à realidade. Foi quando o Maia se despistou e entrou pelos caixotes de lixo que estavam em frente da Sede do Real Clube de Paço de Arcos.

- Até a traseira do carro empinou, - explicou a Tina, ao mesmo tempo que tentava endireitar o vinco do pára-choques frontal.

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