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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

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Abr18

2ª Temporada - Retiro Espiritual


Comandante Guélas

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O Milhas, antes da revolução do Comandante Guélas, era o adolescente mais infeliz da vila por ter um gang de dez irmãos como vizinhos, e mais infeliz ficou quando, após a tomada do poder pelo Querido Líder, continuou a ter os mesmos vizinhos. Na rua de cima habitava Mac Macléu Ferreira, dono de uma soberba mota de competição, cujos acessórios eram feitos com tábuas das caixas de fruta que o Zé dos Porquinhos deitava para o lixo. E a máquina era tão potente que ele tinha de ajudar com os pés de cada vez que regressava a casa. Por isso o Comandante Guélas declarou-o “património imaterial da Humanidade”, e o Milhas protestou:

- Porque é que eu vim para este mundo!

E como o calibre dos outros adolescentes da Juventude Guéliana era equivalente, o Querido Líder arranjou um retiro espiritual para a mocidade da vila: São Quintino!

- Não quero que os jovens ponham em causa os severos princípios da moral. Temos de ser um povo eticamente irrepreensível.

E foi numa dessas ocasiões que o Chico Sá viu a vida a andar para trás, pois o Focas conseguiu a proeza de fazer com que uma aldeia perseguisse um veículo cheio de peregrinos, com o intuito de pendurá-los num poste, com o carro incluído. Recuemos um pouco!

O senhor Américo nem queria acreditar no que via. Do Citroen GS Carrinha saía cada vez mais gente, arrumada no meio de uma quantidade infinita de malas. Como já era tradição, antes de qualquer viagem tinham de picar o ponto no “Pica”, o café mais in da vila, o berço da maior parte dos adolescentes nascidos nos anos sessenta, que largaram os biberões por altura da Revolução, e que as únicas pistolas que dispararam foram aquelas com que vieram ao mundo, uma tentação para um Capitão vindo diretamente da Quinta Divisão para tentar ensinar aos petizes a arte de manejar as ditas. Em São Quintino passava-se sempre o mesmo, pregar cagaços atrás de cagaços ao mais jovem elemento do gang dos dez irmãos, que tinha substituído a terrível figura do Papão, tão comum no resto do país, pela do Peru que o obrigava, nas noites em São Quintino, a dormir com a luz acesa. Nestas ocasiões os cortes de energia eram constantes, e a confusão permanente. Recuemos! O senhor Américo agradeceu aos céus quando viu o carro a partir, pois algumas ovelhas negras do rebanho acinzentado iriam estar ausentes da vila, e isso significava alguma paz e tranquilidade. Quando entraram na marginal, o Focas deu um flato tão grande que obrigou os amigos a permanecerem com a cabeça de fora até à praia de Caxias. A condução era feita a meias, não que o Chico Sá, o motorista, saísse do lugar, mas sim porque o Focas, o co-piloto, tomava conta do volante para que o amigo pudesse fumar calmamente um cigarrito. Quando já estavam mais perto de Torres Vedras do que de Paço de Arcos, para descanso desta e azar da outra, o Focas pediu para pararem junto a um café, onde estavam todos os habitantes de uma aldeia. Abriu o vidro e levantou o braço a pedir ajuda. O Chico Sá pôs o ponto-morto, puxou o travão de mão, acendeu um cigarrito e encostou-se à porta. Ninguém questionou a estranha necessidade do amigo em querer entrar em diálogo com os autóctones.

- Por favor, - chamou o com o sorriso mais doce, os olhos mais brilhantes e a voz mais meiga de Paço de Arcos.

Um adulto aproximou-se  do carro dos “camones”:

- Qual de vocês quer levar no cú? – Perguntou a seco, sem preliminares, o mais fabuloso boxista de Paço de Arcos.

Por momentos todos ficaram num estado sem tempo, imóveis e mudos, sem vontade e sem pensamento. O Chico Sá, que já estava meio a dormir, acordou sobressaltado, o buço do aldeão levantou-se e atrás dele veio o lábio, ficando à mostra o único canino existente. No fundo dos seus olhos viam-se clarões raros, os amigos, primos, tios, pais, sobrinhos e vizinhos, absorveram a pergunta. O Focas manteve o sorriso angelical, porque o tempo ainda não passara por ele, o amigo motorista correu em pânico para o acelerador, depois de ter engolido a beata, as amígdalas do autóctone eram agora visíveis por todos, os vidros das portas subiram a todo o vapor, a populaça começou a reagir. De repente toda a aldeia ganhou uma velocidade de movimentos, unida às raízes da sua raiva, pela urgência de uma justiça rápida que pendurasse os forasteiros e o carro no poste mais próximo.

- Arranca, - gritou o Focas quando sentiu o bafo da aldeia.

A confusão era tão grande que o Chico Sá não conseguiu enfiar, durante breves, mas potencialmente fatais, segundos, alguma mudança. Fugiram in extremis com um exército circunspecto e severo no seu encalço, disposto a cometer um crime.

 

 

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Abr18

2ª Temporada - Diplomacia Guéliana


Comandante Guélas

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O Chalé da Merda, mesmo sem termas, mas com cromados art déco e um aroma inebriante, era um dos locais que aproximava os paçoarcoenses de tudo, ou quase tudo, o que mais desejavam para sentir que estavam de férias na Cruz Quebrada. Após a revolução que levou ao poder o Comandante Guélas ganharam uma vontade indómita de desbravar novos caminhos, por isso os nomes de três dos mais prestigiados agentes fazem agora parte do livro  da Verdadeira História de Paço de Arcos: Mocho, Charlot e Pingalim! Quando o velho Pontas abriu a rádio do seu UBER eléctrico, comprado com parte do dinheiro que o amigo Peidão desviava do Futebol PA, e que por isso tinha táxi de borla conduzido pelo Janeca, sorriu ao ouvir a bife May, o equivalente britânico à Tita dos Pés Sujos, a acusar os russos de terem feito um ataque químico. “Novichok” era o nome do produto, um menino quando comparado com o “Litopone” paçoarcoense, que pusera a Costa do Estoril nos anos setenta e oitenta com um cheiro a maresia.

- Estes russos não percebem nada de química!

Só tinham feito duas vítimas, o Sergei, um Bajoulo eslavo, e a filha Iulia, com equivalência à Mula do Ártico, enquanto que o “Litopone” atacara sem piedade tias e comunas. E foi numa excursão a Cascais que, mais uma vez, tudo aconteceu, por culpa do Max que não deixou alguns paçoarcoenses de boas famílias entrar na discoteca da Estalagem do Farol. Transformar alcoólicos…perdão…acólitos, em diabinhos, não era muito aconselhável. Com o acesso ao espaço de dança barrado, tiveram de ficar pelo bar, que estava cheio de queques que debitavam “você” a torto e a direito. O Pontas e o Peidão não queriam! Entraram na casa de banho individual, um abriu o saco com o pó e o outro despejou o Ácido Muriático. Como de costume o conteúdo começou em efervescência, o saco foi colocado atrás da retrete e o duo saiu calmamente. Sabiam que o efeito só começava a sentir-se cinco minutos depois. Sentaram-se junto ao Rodrigues, o dono de tudo. Ainda tiveram tempo de ver o Espiga e o futuro presidente do Futebol PA, meninos do coro de outra freguesia, a entrar no bar, super-tios e à procura de uma mesa. Mas tudo se precipitou como o habitual. Um cheiro a merda repentino abateu-se sobre o espaço e todos olhavam com preocupação uns para os outros. Ninguém ousou levantar-se pois tornava-se de imediato suspeito. E ter fama de bufar-se como um elefante não caia nada bem naqueles queques de Cascais. O cheiro crescia e o futuro presidente do Futebol PA olhava para todos os lados com um ar indignado. Até que mostrou a sua raiva:

- Peidaram-se, algum de vocês peidou-se à grande e à francesa, - e olhou de cima para baixo para os meninos de bem. - Seus porcos.

- Quem deu este peido com toda a certeza que deixou molho e está colado à cadeira, - reforçou o Espiga.

A debandada foi geral, a sala ficou vazia num instante, o “Litopone” fazia jus à sua tradição. O Max já tinha sentido o cheiro e tentava disfarçar com “Haze” que foi substituído por “Xeltox” quando o outro acabou. A mistura tornou-se irrespirável, o Pontas teve de mostrar solidariedade ao Rodrigues:

- Selvagens, são uns selvagens.

- Isto é inadmissível, mas eu já seu quem eles são.

- Sabe?

- Eram aqueles que estavam ali em pé a caluniar os meus clientes. O cheiro só apareceu quando eles entraram.

- No hotel do meu pai eram tomadas medidas drásticas, - disse o Pontas.

- Hotel?

- A sua cara não me é estranha, - exclamou o monhé, de nome Praji, olhando para o Pontas. - O senhor é filho do Administrador da Compave!

O Pontas contava agora ser filho do proprietário de quase todos os hotéis de cinco estrelas da capital e à conta disso tornara-se convidado Vip do Rodrigues, com bar aberto em todos os recantos da Estalagem. A partir daqui o Pontas passaria a ter direito a continência do Max, que lhe abriria a porta para ele não sujar as mãos e a mesa reservada junto à janela panorâmica. Ainda houve tempo para ver um casal de gringos a chegar à estalagem cheio de malas e a fugir em pânico quando se aperceberam do cheiro estonteante a merda. Por isso a May deveria ser acusada de mentir, porque o primeiro ataque químico em solo europeu desde o fim da II Guerra Mundial foi feito no Cine-Teatro de Paço de Arcos enquanto decorria o filme social fascista “Solaris”, oferecido pelo Bill aos camaradas. O marreco projectista abandonou o posto de comandos em cinco minutos!

 

 

 

 

 

15
Abr18

2ª Temporada - O Snipper


Comandante Guélas

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O João da Quinta tinha um primo com menos habilitações académicas, ou seja, nunca fora à Escola. E para agravar a situação, era surdo-mudo. À conta destas deficiências era o único que conseguia passar a ponte Salazar com o “peidociclo”, e de borla, porque quando a funcionária o tentava informar de que as motas de cinquenta centímetros cúbicos eram proibidas naquele local, a cabeça do primo inchava de raiva, ficando vincada na testa a placa que lhe tinham posto após o último desastre, em que marrara contra uma árvore depois de ter descido um barranco com a sua Zundapp. Para se safar daquele bajoulo vestido de preto e a cheirar a estrume, mesmo depois dos ventos da ponte lhe terem feito uma limpeza a seco, abriam-lhe a cancela e ele lá ia à sua vida. Por isso para este surdo-mudo de um só neurónio não havia barreiras para o seu “peidociclo”. E como era um homem livre às vezes aparecia de surpresa na casa do João da Quinta e abancava durante algum tempo. Não dava muita despesa, porque água nem para beber e se fosse preciso dormia aconchegado com as ovelhas. Quando aparecia significava que estava de boas relações com a sua Zundapp 50, porque quando ela resolvia não pegar atirava-a por um barranco e lá ficava a máquina durante uns dias, até as saudades apertarem e o mecânico lhe explicar que sem gasolina a sua querida não funcionava. Durante a estadia na quinta onde a família do primo vivia e trabalhava, tinha uma casa-de-banho particular: o terreno baldio junto à casa onde vivia o adolescente mais responsável da zona, o menino Peidão, que assistia diariamente, impávido e sereno, a este ritual do primo do seu amigo, que nem para cagar tirava o chapéu. Parecia um urubu, todo vestido de preto. A sorte do primo, surdo-mudo de um só neurónio, do João da Quinta, mudou na altura em que o Peidão ganhou uma espingarda pressão-de-ar Diana 38, que fez dele o primeiro snipper do Comandante Guélas. Logo na primeira “chumbada” saltou o chapéu do cagador, que ia caindo, com o impacto, para cima do produto, pois tentara agarrar o penico que estava na cabeça e que fugira, vá-se lá saber porquê. Ajeitou-se e voltou à posição de cócoras, sinal de que ainda tinha a tripa com favas. Na segunda chumbada desequilibrou-se e desceu o morro com as calças arreadas, desaparecendo no meio das alcachofras. O Peidão empoleirou-se na varanda mas não o viu. O tiro parecia ter sido fatal. Quando o adolescente se preparava para guardar a “Diana 38” viu um vulto a erguer-se furioso com o fato pintado de picos, chapéu na cabeça e a gesticular, correndo em direcção à quinta. Nunca mais usou o exterior da quinta para largar os feijões, tendo optado pelo conforto e segurança do cercado das ovelhas.

07
Abr18

2ª Temporada - Cultura &Teatro


Comandante Guélas

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Logo após a revolução do Comandante Guélas a primeira decisão do ministro do Turismo, Engenheiro Mocho, foi equiparar as Fontainhas à Côte d'Azur!

- Temos mais areia do que eles, e a juventude fode que se farta no marégrafo!

Matede das crianças paçoarcoenses era da “Geração Fontainhas”, que representa o produto da transição entre os “bons costumes” do Antigo Regime e os “livres costumes” da Revolução. Foi numa bonita noite de Verão que o ministro da Cultura decidiu presentear os automobilistas que circulavam na Marginal com um entretinimento!

- O povo gosta de pão e circo!

O palco tinha uma árvore, um calhau e uma sebe que a tapava pela metade. Do outro lado era a estrada. O João da Quinta foi o artista convidado por ter um Q.I fora do normal, há muito que descobrira que os carrinhos de choque, que funcionavam com fichas de cinco escudos, também aceitavam moedas de 10 escudos:

- Sai mais barato, - dizia.

Trepou para cima do calhau, pôs a ponta da corda que estava presa à árvore à volta do pescoço, e fingiu estar enforcado.

Passou o primeiro, passou o segundo, mas não passou o terceiro carro, que fez uma travagem tão brusca, que ia provocando logo ali um acidente. O “defunto” nem se mexeu, tal era a convicção. O condutor saiu do carro pé ante pé, não fosse acordar o “morto”, mas não passou do passeio, talvez com medo de incomodar o eterno descanso daquela costeleta que não abanava, apesar de estar uma noite muito ventosa. A seguir parou outro, e outro, até se formar uma pequena multidão. O “zumzum” da assistência abafou um flato inconveniente do “morto”.

- É melhor chamarmos a polícia, – disse alguém.

Mas naquela altura chamar a polícia era um pouco arriscado, pois à noite os agentes não gostavam de ser acordados, e logo por causa de um mero presunto atado a uma árvore, que nunca iria fugir.

- Mas primeiro vamos tentar salvá-lo, – aconselhou alguém de dentro de um carro, e já com meia-hora de espectáculo.

Quando o João da Quinta já estava a ficar com “cãibras” e à rasca para fumar, alguém avançou decidido para o enforcado, de apelido. A alguns centímetros do artista e ao preparar-se para lhe tirar a pulsação, deu-se o milagre: o presunto puxou dum cigarro e pediu-lhe lume. O cagaço do herói foi tão grande que quase ficou ao colo do que estava atrás. Por momentos parecia que estavam todos num velório. Mas depressa o terror se transformou em ódio e gritaram:

- Cabrão!

Foi o sinal de alarme para o ex-enforcado, que largou o púlpito e deu corda aos sapatos, indo no seu encalço uma multidão de fãs enfurecidos, decididos a fazer-lhe a folha.

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Abr18

2ª Temporada - O Dia em que Paço de Arcos parou


Comandante Guélas

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Quem se encontrava perto do Bigornas estranhou, os seus olhos estavam diferentes, até os óculos pareciam desbotados, o olhar já não era meticuloso, estava desleixado, enquanto que o dedo médio da mão direita, que apontava com frequência para o teclado do telemóvel, estava murcho. E gaguejava! Mas o primeiro sinal de inquietação dos amigos foi o grandiloquente devaneio teórico, acompanhado de salamaleques, que os informou que o próximo jantar seria no Salão Nobre da Jomarte, extinta há mais de vinte anos, o local onde todos os paçoarcoenses costumavam mudar o óleo…das motas. A ocasião serviria também para apresentar a nova fotocopiadora, a mais avançada da Península Ibérica, que iria fazer descontos para estudantes e militares. E tudo isto foi dito em registo telegráfico. Notaram também uma estranha tendência para a olectiva, enquanto que o seu apurado sentido gráfico tinha desaparecido.

O Bigornas era um paçoarcoense de quem quase tudo se sabia sobre a sua educação, desde a colecção completa da “Gina”, até ao “Curso de Gestão” (114 volumes), passando pelo “Major Alvega”. A Jomarte tinha-o iniciado na leitura e no amor, fora um estabelecimento estonteante, efervescente, cultural e socialmente, conservado pela força poderosa das imagens, e tudo mudou quando um dia uma misteriosa Kika lhe entrou pelo estabelecimento comercial “adentro”, não para tirar a fotografia da praxe para o passe da Linha do Estoril, mas para o engatar no transporte de uma bilha de gás, desde a “Leitaria Vitória”, que vendia meio-gordo à taça, até casa. Tornaram-se companheiros, almas gémeas, amigos e irmãos, até que o gás acabou e a amante se evaporou. A sofisticada loja “Jomarte”, cujo lema era “traz que eu compro”, entranhou-se nas memórias da vila, onde só um museu a poderá agora transformar em arte. Todas queriam ter um tal vizinho à distância de uma braçada, porque os horizontes culturais deste ícone de Paço de Arcos eram cultivados… Casa-Jomarte-Pica.

O olectiva de timbre dantesco aconteceu quando um som intenso saiu pelas calças e causou uma tensão dramática entre aqueles que compunham a mesa, e o Bigornas gritou com escárnio, em tom de desafio, indo por isso passar a noite ao Hospital da CUF. Durante a madrugada, que deveria ser de repouso, a luz vermelha do gabinete da enfermeira acendeu com estrondo, indicando que o Bigornas estava com alguma necessidade.

- Desculpe estar a incomoda-la, – disse o paciente da Jomarte, usando uma voz sensual, e continuou. – Importa-se de levantar-me o coiso?

- O “coiso”??? – Pensou a mocinha, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio por debaixo da bata, que lhe eriçou todos os pêlos adormecidos. – Seria que o paciente de meia-idade, anafado e caixa de óculos, estaria a convida-la para o deboche, a pedir-lhe que lhe tirasse o ranho à cobra?

- Vá lá senhora enfermeira, estou aqui às voltas e não consigo adormecer.

- O “coiso”, senhor Cruz? – Perguntou a senhora, já com a voz um pouco alterada.

- Carregue lá no botão para me subir a cabeceira, “faxfavor”.

Após satisfeita a necessidade nocturna, o Bigornas voltou à carga:

- E agora, já posso fumar um cigarro?

O que se pode dizer de mais seguro sobre o que se passou, é que a feijoada atingira o seu mais alto grau de condimentos, não sendo por isso ousado concluir que um “gigler” da bomba do Bigornas entupira, fazendo lembrar os velhos “rátés” dos peidociclos da Praceta. Mas bastou uma assopradela, bem colocada, no “coiso” do Bigornas, feita por pessoal experiente, para pôr de novo na estrada, sem restrições, este James Dean de Paço de Arcos. A “travadinha” do senhor Bigornas convidou a vila a retrospetivar a sua obra, tentando descobrir o lado poeta e metafísico desta personagem de culto da vila de Paço de Arcos, sem referências espaciotemporais precisas. E a sua Jomarte representou a força telúrica de um grupo, o seu potente folclore, visto como algo exótico e novelesco, que a prendeu a um circulo vicioso, a uma realidade que girou à volta do seu proprietário e que só teve um fim no horizonte: o trespasse compulsivo!

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