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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

19
Mai18

3ª Temporada - Incidente diplomático


Comandante Guélas

Motociclista 1.jpg

 

2

 

Ia o social fascista chefe Bigodes calmamente na sua “Casal Boss”, na rua Lino de Assunção, quando ao seu lado apareceu o célebre ariano Mac Macléu Ferreira numa “Zundapp 50” com escape de rendimento, óculos ao vento e cabecinha ao léu.

- Alto e pára o baile, – gritou o agente da autoridade da esquerda para o motociclista de direita, que o ousara provocar.

- Vai-te catar ó Bigodes, vocês já não mandam nada na parte de baixo da vila, aposto que não me apanhas?

- O quê, dúvidas da minha “Boss”?!

- Julgas que esta “Zundapp” é aquela com “cranage e banco de competição”, feitos com restos dos caixotes do Manel da Fruta, em que eu subia a minha rua, com a ajuda dos pés? A revolução do Comandante Guélas mudou tudo! – Gritou o maior moticlista paçoarcoense, com longínquos antecedentes familiares, oriundo da célebre montanha da Terrugem de Cima.

- Ainda tenho na secretária as queixas dos teus vizinhos, a protestarem pelo barulho do teu escape de rendimento às 5 da manhã. Hoje vais pagar por tudo!

- Prescreveram com a subida do Querido Líder ao poder, e a morte da longa noite comunista!

E deu-se início à perseguição mais famosa de Paço de Arcos. À frente o ariano Mac Macléu Ferreira desafiava o social fascista Chefe Bigodes, que tentava apanhar o Fangio de Paço de Arcos por detrás.

- Lembro-me perfeitamente da cena, - disse um dia o Ratinho Blanco, que tivera a sua primeira experiência sexual com a Rufina, a ovelha do senhor Manuel da Quinta do Leackoque, ao Sete Escadas, numa entrevista na “Voz de Paço de Arcos”

- Quando te apanhar parto-te a bilha, loirinho fascista!

Para trás ficara a passagem de nível, aproximava-se agora a rotunda da Estação. Mac respeitou a Lei e foi pelo lado certo, o ex-representante da Lei desrespeitou-a e foi pelo lado errado, tentando barrar a corrida ao ariano. Quando o da “Zundapp” viu o da “Boss”, atirou-se para cima deste e simulou um acidente gravíssimo. Ficou no chão a queixar-se da tentativa de assassinato, que só podia ser político! As testemunhas, que estavam à espera da camioneta para o Pimenta, chamaram a polícia e acusaram o Bigodes.

- Assassino, onde é que já se viu um agente da autoridade de Oeiras em contra-mão? Coitadinho do rapazinho loirinho de Paço de Arcos, e ainda por cima “caixa-de-óculos”, ia morrendo. Terrorista!

A “Boss” foi no porta-bagagem toda amassada, e a “Zundapp” estava rija que nem sarda. O Chefe de Oeiras pediu desculpa ao cidadão Mac Macléu Ferreira de Paço de Arcos, vítima de um conflito diplomático, fez-lhe continência, e avisou o Bigodes de que o ia amassar quando chegasse ao seu país.

- Mas nós representamos a autoridade de Portugal, - protestou o Bigodes.

- Burro, Paço de Arcos ganhou a independência!

- Eu não sabia!

- Só lês o jornal do Sporting, quem te manda obedecer aos Moreira Rato?

 

12
Mai18

3ª Temporada - Mocidade Guélanista


Comandante Guélas

Roda.jpg

 

1

 

Quando o capitão Porão apontou os binóculos para os lados do Jota Pimenta, o bairro do mais famoso general do Comandante Guélas, o Mocho, deu de caras com o Papa Borrachas em cuecas. A maçaroca do futuro ponta de lança do Futebol PA serviu de inspiração para o logótipo da primeira Escola de Condução para Imberbes do Pica (ECIP), cujas lições eram dadas num mini branco, o IE-37-52, sempre atestadinho de tenrinhos, que faziam as delícias do militar da 5ª Divisão e a inveja das fêmeas que estavam proibidas de entrar no veículo, devido às invulgares hormonas do proprietário. O carro subia passeios, a maior parte das vezes por vontade própria do condutor adolescente, provocando um gostinho no instrutor, que aproveitava a ocasião para o corrigir, dando um apertão na perna do franguinho, que tinha sempre de puxar do travão de mão para que ele se soltasse. Era o equivalente a um balde de água fria para descolar um cão. Como ainda eram jovens e muitos não tinham dado o “pulo”, o Trovão nunca o deu, havia sempre lugar para meia dúzia, nem que fossem ao colo do instrutor. Mas havia concorrência: um Simca Bordeaux! O senhor Curtis, carteiro paçoarcoense, cuja definição de paraíso era a casa dos vizinhos do Milhas, lá para os lados do Alto de Paço de Arcos, a “Sierra Maestra” do Comandante Guélas, atacava os tenrinhos de Porto Salvo. Os alunos eram outros, faziam parte do grupo guerrilheiro do Zé da zona, que o abafavam à grande e à francesa, destravando sempre o bólide de cada vez que atingiam o clímax! Para pôr cobro a estas atividades desviantes, o Querido Líder arranjou um nome bacteriologicamente puro e capaz de cobrir as perspectivas de todos os envolvidos, um nome que não era nem insonso nem inodoro, que definisse a juventude paçoarcoense: “Trombeiro”! Fico célebre a música da Mocidade Guélanista:

- Cá vamos trombando e rindo …

Mas a festa agora era outra, o Cavaleiro, vizinho do Zé Preto, arriscava mais um evento na casa da mãe, situada no alto de Caxias: uma grandiosa festa para a elite caxiense!

- Inadmissível, - gritou o Comandante Guélas quando soube que nenhum paçoarcoense iria ser convidado para o baile do vizinho do Zé Preto. – O Bill social fascista não aprendeu a lição e foi de castigo jogar para a terceira divisão, agora chegou a vez de ajustar contas com este nacional socialista fanhoso.

Quando foi informado de que o Querido Líder o tinha destacado para liderar a missão, o Botelho informou a base que teria de levar o primo, que estava à sua responsabilidade nesse fim de semana. Eram nove e meia de uma bonita noite de verão quando o comando se apresentou à porta do baile na casa do Cavaleiro. Cinco seguranças vestidos de preto, com luvas da mesma cor, barraram a entrada aos penetras:

- Só entra quem foi convidado, – informou o imberbe com a cara do Pitrongas, um famoso ornitologista paçoarcoense, especialista em pintassilgas de avental.

O Charlot rosnou, mas não o deixaram avançar. Foi o Pilas. Mas depressa o convenceram de que esses não eram os métodos adequados à situação. De todas as outras vezes tinham conseguido entrar usando a diplomacia, que fazia parte do espírito do “Guélanismo”. Pediram para falar com a mãe do Cavaleiro. Tinham de esperar! Lembraram-se da primeira festa das suas vidas, no Alto de Paço de Arcos, e de terem dado de caras com o Graise à porta, agarrado à sua primeira namorada, a miúda mais feia da Costa do Estoril, um cágado com bigode:

- Esta festa é só para orientados, – disse na altura apertando a anã.

A frase foi classificada mais tarde pelo Professor Ánhuca, da Universidade da Terrugem de Cima, como “Património Imaterial de Paço de Arcos”, sendo gravada na pedra cultural da vila:

 

“Porque é que eu vim para este mundo” - Milhas

"Espera aí, que já cospes" - Todo Boneco

“ Esta festa é só para orientados” - Graise

 

Era a Cultura Paçoarcoense no seu apogeu. Mas voltemos à festa!

A um dado momento passou um adulto pela parte de dentro da casa, que foi detetado pelos penetras:

- Tia, tia, – chamaram com uma voz doce os seguidores do Comandante Guélas.

Todos sabiam que a senhora já estava mais para lá do que para cá, devido aos efeitos do sumo de cevada, e ao tamanho do decote, impróprio para rapazinhos na puberdade.

- Olá, olá, – respondeu a proprietária do imóvel, tentando recordar-se do nome daquelas caras desconhecidas.

Mas a técnica era essa. Ela nunca iria dar parte fraca.

- O Zé convidou-nos, mas ele está lá em cima e os seguranças não nos querem deixar entrar, – queixou-se o Velhinho, dando um beijo à tia.

- Mas que disparate, eles podem entrar, são amigos do Zé.

Os imberbes de preto abriram alas e a Juventude Guéliana trepou até ao sótão, “trombando e rindo”. Quando passou pelo tenebroso homem de preto que chefiava a equipa, o Pilas deitou-lhe a língua de fora e o Charlot rosnou-lhe aos ouvidos. Lá em cima a festa estava animada e bem organizada. Dançava-se num lado e compravam-se bebidas no outro. Compravam-se?!! O proprietário ausentara-se devido a uma necessidade fisiológica e um dos Sás, família com pergaminhos de Cascais, tomou conta do estabelecimento comercial. Declarou “Bar Aberto”, e começou abastecer de “bejecas” o grupo de meninos ricos de Paço de Arcos. Quando o Cavaleiro chegou o Bar era do povo, a população abastecia-se de borla, amigos e inimigos. Um acontecimento destes não sucedia em todas as festas. A única solução era encerrar temporariamente para balanço, apesar de toda a gente saber que era negativo! O primo Sá ainda não tinha acendido o cigarro e já estava no olho da rua, encostado à porta do bar, que se fechara. Mas como era de madeira não resistiu aos dois biqueiros que levou. Abriu-se então um grande buraco na parte de baixo, que foi por onde passou a cabeça, para pedir lume ao patrão.

- Mãe, maeeeeeeeee, - gritou o Zé, descendo apressadamente as escadas, ao mesmo tempo que a turba, de amigos e inimigos, lhe invadia o Bar pela segunda, e definitiva, vez.

A mamã veio a correr, com o chefe da segurança atrás, e entrou no Salão de Dança para botar discurso. A música parou e a tia deu a entender aos sobrinhos que estava muito magoada com eles. Tinham-lhe partido a bilha toda…perdão…a porta do Bar e isso era muito feio. Como se esperava, todos negaram o ato! Mas eis que a porta se fechou, deixando-os trancados no Sótão.

- Abram, é uma ordem, – gritou a dona da casa.

Ninguém respondeu!

- Eu sei que está aí alguém do lado de fora. Se não abrir a porta expulso-o de minha casa.

- O que tu queres está murcho, ó velha! - Gritou o Conan, dando um golo na última cerveja gamada.

A porta só se abriu quando foi arrombada. A festa continuou porque todos os que estavam ali eram filhos de “boas famílias” e juraram, por escrito, que não tinham feito nada. Aliás, como ficara provado, o responsável por tudo aquilo tinha sido aquele que momentos antes havia vilipendiado a tia escondendo-se, talvez por vergonha, atrás da porta. Para garantir que o que tinham prometido era cumprido, a proprietária do imóvel ordenou ao único segurança que tinha tido a coragem de a acompanhar ao reduto, porque sabia que junto a ela estava seguro, para ficar a tomar conta dos primos. Foi uma má decisão. O Pilas aproximou-se do garanhão e rosnou-lhe. Não houve qualquer tipo de reação. Entrou então em cena, contra todas as expetativas, o irmão do Zé Pincel que queria já ali ajustar contas com aquele que horas antes lhe tinha barrado a entrada e que agora ele sabia estar em minoria. Foi barrado pelo “paçoarquiano” Peidão, o único com algum juízo, que o virou ao contrário e o deixou cair, deixando-o abananado e a cuspir fininho junto a uma janela, não fosse faltar-lhe o ar. E nesse momento os fusíveis foram, pela décima vez, propositadamente abaixo, o que levou à precipitação dos acontecimentos. O homem de negro foi selvaticamente atacado e quando a luz voltou estava prostrado no chão, a queixar-se de falta de ar e das duas dentadas que tinha recebido no peito, apesar de não haver nenhum cão por perto. O Charlot estava lá, e tinha andado em roda-viva durante as trevas. A festa continuou no andar de baixo com o ferido à espera da ambulância. Após a remoção do corpo a tia deu por encerrada esta noite louca, que iria ser a última. Todos se despediram da dona da casa e a Juventude Guéliana montou nos seus “peidociclos” e foram colina abaixo. Mais uma vez o priminho do Botelho foi arrumado na Zundapp do Mac-Cléu, a meio. Mas faltava cumprir a tradição! A tia tinha a decorar o jardim uma monstruosa roda de carroça que ia sempre montanha abaixo no final das festas, para que no dia seguinte o primo Cavaleiro, com a ajuda das irmãs, fosse visto a empurrar o mastodonte para o local que lhe competia, tal como o seu antepassado Sísifo. Ainda os motoqueiros não tinham atingido o meio do caminho e já a roda se cruzava com eles, tendo o Botelho apanhado o maior cagaço do mundo, por ter imaginado que ela poderia ter colidido a meio da mota. Mas o destino foi outro. Nunca mais trouxe o priminho para Paço de Arcos! A roda só parou no quarto dos caseiros, junto à cama deles, e vinda do teto. Como as relações entre a patroa e os empregados não eram das melhores, isto deu origem a um processo em tribunal, segundo reza a lenda.

 

05
Mai18

2ª Temporada - Nascimento de um Mito


Comandante Guélas

Cociollo.JPG

 

25

As Fontainhas eram o equivalente paçoarcoense da Gronelândia, havia bacalhau para todos os paus. O pescador mais habilitado era o Todo Boneco, que costumava encurralar o pescado com a sua pressão de ar, aproveitando para saciar a cana. O peixe oficial de Paço de Arcos era o “bobó”, que tinha nevroses e uma espécie de geleia, de gordura, muito apreciada pelo Capitão Porão e amigas, que tinham uma produtividade fantástica. O “peixe bobó” era fácil de agradar, muito abundante, ficaram famosas as pescarias na casa do Tio Kiki. Por isso o Comandante Guélas olhou orgulhoso para o “Electrogumitário”, e leu em voz alta:

- “Charlot, Jó Jó Obélix, Nógá, Zézinho Circunferência, Xarotas, 7 Solas, Bagacinho, 7 Camadas, Varetas, 7 Escadas, Pívias, Serapitola, Cuzinho, Zé Boga, Esgravulha, Graise, Broa, Tareco, Peidão, Tubarão, Febras, Focas, Gigante, Vítor Calmeirão, Espirro de Punheta, Sapo, Baleia Azul, Taka Takata, Grilo, Rofe, Velhinho, Pilas, Zé Cagalhão, Bacalhau, Cavalo Malandro, Pé de Cabra, Pipi, Pernas de Alicate, Silva Americano, Ligóia, Chato Louco, Titi Man, Jorge Tremelias, Baí, 33,  Balatuca, Bizóito, Baiona, Búzio, Bolinhas, Ánhuca, Barlatotas, Alvarinho, Labumba, Marques Capitão, General Bidon, James Bomba, Octanas, Pinga Azeite, Menino Artur, Alfredo Carinhas, Ferramenta, Pitinha, Manel Ceguinho, Chora na Penca, Calhéu, Fritz Moca, Vítor Enfraquecido, Piquinhas, Boca Negra, Balacó, Chico Mata Cães (Raita Ganho ou Breque Te Afasta), Fufa, Henrique da Rebelva (ou Carau Carau), Pápa Borrachas, Casal Garcia, Pontas, Carinha da Avó, Caretas, Vaca Prenhe, Pirolito,  Anilhas Carro Elétrico, Catatau, Xarotas, Dic, Choné, Álhi, Bil, Biblot, Jaquim Jaquim, Espalha, Pica, Ginja, Girino, Volkswagen, Zé Maria Pincél, Caferial, Coquicha, Varetas Siririco, Jim Boy 1, Jim Boy 2, Mocho, Bacáus, Anita Carapita Sardinha Frita, Vaginas, Júlio Caguiné, Caguetas, Ben-Hur, Olívia Palito, Sóni, Manelito do Estrume, Lucinda Careca, Sagui, Proveta, Pilas. Pinguim, Pingalim, Carlos da Leiteira, Cara de Apito, Menino Élinho, Menino Ni (ou Niganan), Crespa, Marimaroca, Criolina, Branca de Neve, Terra à Vista, Berinjela, 21, Montanelas, 110, Metropolitano, Caguiné, Moedinha, João Pé Leve, Espia Feia, Bezelina, Kid Aromas, Kit, Bexigas, Alpedrinha, Cociolo”. Há-de haver mais, o mural de Paço de Arcos há-de um dia ultrapassar o dos combatentes portugueses mortos pelos turras amigos dos comunas! Mas ele tinha ido às Fontainhas para decidir de uma vez por todas quais os dois paçoarcoenses que tinham tido mais dificuldade em ultrapassar a adolescência.

- Foram o Alpedrinha e o Cocciolo, - informou a Espirro de Punheta, agora Psicóloga encartada pela Universidade da Terrugem de Cima, Dr. Ánhuca!

- Portugal tem o “Processo de Bolonha”, Paço de Arcos o “Processo do Isaltino”! – Declarou aquele que tinha derrotado o Bill, agora reconvertido em chefe da Falange Paçoarcoense.

 

O Comandante Guélas ficou então a saber pela Dra. Marimaroca, assessora da Dra. Espirro de Punheta, que a adolescência em Paço de Arcos era o dobro da do resto do Mundo, por isso um período difícil, que se complicara, tal como num parto, para dois paçoarcoenses do Electrogumitário”: o Alpedrinha e o Cocciolo! Comecemos pelo primeiro. Entrava sempre apressado no Pica, o equivalente paçoarcoense do coelho da Alice no País das Maravilhas, e sentava-se com ruído. Em Paço de Arcos este tipo de comportamentos não eram muito aconselháveis. Todos ficaram a olhar para ele, e repararam que vinha munido com um caderno e uma caneta. Ter-se-ia tornado um poeta? Não, porque versos nem vê-los, apesar de ser parecido com aquele maluco que dava pelo nome de Fernando, e que estava a dar cabo das notas a todos os estudantes presentes.

- Deve ter queimado os fusíveis, – disse o Graise, rindo-se para trás.

Do estado letárgico o Alpedrinha passou para um estado alucinado, passando a olhar fixamente, com os olhos esbugalhados, para o autor da graçola. Quando tudo parecia estar perdido, abriu o caderno, tirou a caneta da orelha e gritou:

- Vou registar o teu comentário!

Já havia tema para o serão!

- O Alpedrinha passou-se, – rematou o Proveta.

Novo registo: “o Alpedrinha passou-se”.

- Estás pior que o Milhas, – exclamou o Velhinho.

Mais do mesmo: “está pior que o Milhas”.

Quando a semana chegou ao fim, o caderno do Alpedrinha já estava quase a acabar e ele ameaçava com outro. Passemos agora ao segundo adolescente, o Cocciolo, que teve imensas dificuldades em ultrapassar esta fase, tendo ficado com sequelas graves para toda a vida. A novidade foi dada pelo Monhé numa noite de verão: o Cocciolo fora visto pelo Júlio Caguiné no ferro velho a comprar dois “chaços”! E o negócio tinha sido tão bom para o sucateiro, que ele tinha dado por encerrado o dia de trabalho e levara a família a jantar no “Tino”. Contra todas as expetativas, conseguira vender aquelas bicicletas com os motores pendurados, que davam mau aspecto à sucata. Ganhara o dinheiro da venda e das apostas que fizera com os amigos.

- E ameaçou que vai pô-las a funcionar, – explicou o Monhé.

A procissão dessa noite só teve um sentido, a garagem da casa onde vivia o Cocciolo. Todos queriam ver ao vivo as relíquias, agora tornadas as mais famosas de Paço de Arcos.

- E eu que pensava que nada conseguiria suplantar a mota do primo mudo do João da Quinta, que ficou debaixo do rápido na semana passada, – exclamou o Proveta.

O Cocciolo deixou de ser visto na parte debaixo da vila durante as semanas seguintes, e mesmo a sua querida, a Madame Campos, acabou por ficar com ciúmes. Estava tão obcecado pelas duas beldades, que mal comia e dormia. Até que um dia anunciou ao Querido Líder que os “chaços” com motor auxiliar estavam aptos a funcionar. Foi mais uma vez o Monhé que se cruzou com ele a comprar gasolina ao James Bomba. Foi informado que o acontecimento, o equivalente ao da Passarola do século dezoito, estava marcado para uma tarde do século vinte.

- É o nosso Cocciolo de Gusmão, - disse orgulhoso o Comandante Guélas, apalpando os entrefolhos da Dra. Bezelina.

Estes comportamentos do Querido Líder foram uma bíblia para o adolescente Isaltino, que prometeu a si próprio que iria ser líder duma câmara municipal de Portugal, e encher o seu gabinete de assessoras e vereadoras disponíveis.

- Madalena, tu irás ser a minha Lucinda Careca, - prometeu à amiga, já nesta altura para todo o serviço.

Ainda o Cocciolo não tinha acabado o almoço quando o seu irmão, o Olho Vivo, espreitou através da janela e viu uma multidão junto à porta do jardim. Ninguém queria perder pitada da cena do “pegamento”! O Cocciolo arriscava-se a ser um fenómeno, não do Entroncamento, mas da Parte de Cima de Paço de Arcos. A madame Campos estava tão orgulhosa do seu namorado, que resolveu trazer um vestido com rosas vermelhas, sinal de um grande amor.

Às três horas da tarde de um dia de Verão do Ano da Graça de 1975, as portas da garagem abriram-se com estrondo perante a multidão estupefacta, e de lá saíram dois potentes “chaços” recauchutados, que foram colocados na via pública. Atrás dos “peidociclos”, e devidamente equipado com um capacete estilo penico, comprado na Maria das Bicicletas, vinha o herói do momento, o “Grande Cocciolo”, preparado para bater a barreira do som ao volante de uma das Bicicletas com Motor Auxiliar que descobrira dentro da capoeira de um ferro-velho junto à passagem de nível. Quando deu uma pedalada e acionou a maneta do compressor, a mota deu um “raté” que se ouviu por toda a vila, e fez com que todos olhassem para o Graise, para confirmarem que aquele barulho tinha vindo da máquina infernal do Cocciolo. À vigésima tentativa deu-se o milagre. Uma das relíquias do Cocciolo começou a roncar, de tal maneira que o povo fugiu em debandada, não fosse o “peidociclo” rebentar e Paço de Arcos ficasse reduzida a metade. Até a madame Campos trepou para o cimo da colina não deixando, no entanto, de gritar pelo seu herói. Como a rua era a descer, bastou o motorista largar o travão para a “Cocciolo” começar a movimentar-se, sendo acompanhada por uma multidão em êxtase. Mas algo estava para acontecer. Foi quando o Cocciolo resolveu regressar à garagem, e isso significou obrigar a máquina a esforçar-se na subida. Ouviu-se um estrondo e o herói desapareceu no meio de uma nuvem de fumo. Foi a partir desta data que se iniciaram os problemas do Cociolo com o Tendão de Aquiles.

 

Fim da Segunda Temporada

 

 

 

 

 

 

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