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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

09
Jun20

4ª Temporada - O Tubarão (13)


Comandante Guélas

 

Tubarão.jpg

13

O Professor Coelho, docente oficial do Comandante Guélas, costumava dizer aos seus alunos que a Batalha do Chalé da Merda era equiparada à Batalha das Navas. Na primeira tinha sido derrotado o Califado Vermelho do Bill, no segundo o Califado Almóada. Paço de Arcos era berço de oradores prolíficos, a ciência dizia que os genes dos sofistas gregos tinham reaparecido nesta vila da Costa do Estoril após a conquista do Comandante Guélas. Numa manhã solarenta regressava o Pontas calmamente pela marginal, vindo da Baixa, na carrinha Nissan pick up FQ-22-20 quando, na zona de Alcântara, vê o Tubarão a pedir boleia ao pé da fábrica de açúcar. Travou a fundo, mas a moca impossibilitou-o de identificar o condutor. Até que:

- Fo fo fo fo foda-se, és tu Pontas? Paraste, já vinha para te fazer a carteira. Depois é que vi que eras tu.

- De onde vens Tubarão?

- Foda-se, não dormi nada, sempre a ressacar, fodi dinheiro a um gajo e vim ao casal comprar uma " quarta". Dois contos era o que tinha de arranjar. Mas preciso de mais para logo.

O Pontas sabia que para ter cultura geral, também tinha de questionar os filósofos:

-Uma quarta? O que é isso?

- É uma dose. Um quarto de grama de "brown".

- Brown?

- Sim. Brown sugar.

O jovem estudante sabia que os filósofos paçoarcoenses falavam torto com significados direitos, o Tubarão metia na veia açúcar mascavado.

- Deixei-o em casa. Ao lado do Palácio, - reforçou o mestre.

Por ser único, o Tubarão destacou-se no meio universitário, se lhe faltavam palavras nos discursos, utilizava sons. E um dia quando estava a contar um filme, mais especificamente a cena com um carro da polícia, foi traído pela emoção, encravou na palavra carro, e só conseguiu avançar quando imitou a sirene. 

- Ó Pontas! Os te te te te te teus pais sa sa sa são médicos na na na na não são?

- Sim!

- Então de de de de devem ter lá em cccc. ccc .. cc . casa bué de remédios... não?

- Têm os armários cheios.

- Se mmmmmm. mmmmm... me trouxeres todos os qq qqqq qqque que que o nome aca.. aca.. acabarem em" x", eu compro!

O Tubarão, tal como o Luther King, também tinha um sonho, um armazém recheado de medicamentos terminados em “x”.

- Me me me me... mandrax, te te tás a ver? Xa xa xa xá xá nax. Traz tudo acabado em X, que eu compro!

E também o Lexotan, o único acabado em “L”, que fazia sucesso no meio da academia dos assistentes do professor Alice. É justo dizer que o Tubarão foi uma espécie de Da Vinci paçoarcoense: dançarino, nos dias em que dizia ser o  Travolta de Paço de Arcos; precursor nas tatuagens, confidenciou um dia que até a pichota tinha desenhos; pescador, nos tempos livres da química ia à pesca com o seu amigo Balacó, e um dia até o surpreendeu equipado a rigor com jardineiras impermeáveis do pescoço aos pés. Caiu à água e ficou de cabeça para baixo, tipo bóia! O Pontas ia tão embevecido por tanta eloquência, que nem reparou no Porki, que tinha o dedo mindinho da mão direita torto, cabelo cheio de azeite e dentes amarelo-torrado, a atravessar a rua. Por pouco espalmava o noivo da sobrinha colorida do Sá Carneiro. Deixou o mestre Tubarão junto à mota do Rebelo sempre a trabalhar, durante horas, ao ralenti, enquanto ele bebia imperiais durante a tarde toda no Pombalino. E quando alguém se aproximava do bólide, de imperial na mão dizia: "esta máquina veio do México”. Mas a novidade do dia tinha sido o pedido de casamento do Bolinhas, junto à bola de Nívea, aos pais da Sapo.

- E o que é que tu fazes, ó rapaz? – Perguntou o futuro sogro.

- Nasci rico, a minha família tem minas de açorda e de sabão no Alentejo.

O senhor prometeu ir pensar, e os amigos do Bolinhas reforçaram o pedido, fazendo uma guarda de honra na Avenida à mãe e à filha, com o futuro noivo à frente a implorar a autorização da sogra. Mas Paço de Arcos além de filósofos também tinha outras musas, a Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, irmã da Batata, a Tita dos Pés Sujos, a Espirro de Punheta, e tantas outras que tornaram os verões de Paço de Arcos ainda mais quentes. Não se namorava no Coreto, porque cheirava a mijo, mas esgalhava-se muito nas Fontainhas!

Fim da 4ª Temporada

01
Jun20

4ª Temporada - O Suicídio Assistido (12)


Comandante Guélas

Pinguim.jpg

12

Quando o Chico Sá, também conhecido como Caveirinha no Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR), onde era agente, passou numa motorizada, com uma donzela à garupa, em direção a umas moitas, a notícia da promessa de “Suicídio Assistido” do Pinguim, marcada para as 16H00 numa das torres da Direção de Faróis, já percorrera toda a vila-Estado, e o Pierre Pomme-de-Terre não tinha mãos a medir na venda de bilhetes e programas.

- Vou atirar-me para o mar, e nunca mais me veem, - prometeu o corredor oficial do Cabrita e empresário da restauração.

Longe dali o Choné e o Presidente, donos da única bola de futebol e do respetivo clube, o Futebol PA, andavam pelos bares a angariar futuros jogadores:

- Conheci-o numa festa de tias no Restelo, e bastaram quinze minutos de conversa para ver que será um bom avançado centro. Quando sair da moita falamos com ele,

Mas o homem do dia era o Pinguim, até no “Suicídio Assistido” Paço de Arcos foi pioneiro. No programa dizia que o ponto de encontro com os amigos seria junto ao Coreto da Avenida, e que a decisão do futuro suicidado se devia à rejeição da sua pessoa pela Tita dos Pés Sujos:

- É uma ingrata, prefere a mota do Bajoulo à minha Casal 5 de competição, com que participei no Campeonato do Mundo, - confidenciou uns dias antes aos manos Pingalim e Papagaio.

Foi recebido como um herói pelos amigos, a festa era semelhante às de Cabo Canaveral quando os “amaricanos” lançavam os foguetes. Os mais íntimos trouxeram pedras, e encheram-lhe os bolsos e a camisa:

- A zona mais funda é junto à doca, e com este peso vais direto para o fundo, - aconselhou o amigo do peito.

- Eu penso que as pedras são poucas, precisas de mais! – Disse-lhe outro.

Quando o Pinguim deu início às festividades, parecia que estavam na procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Tudo o que o jovem Luís de Espanha aprendeu sobre motociclismo devia-o ao mestre Pinguim:

- As motas de competição têm óleo nos pneus. Não sabes nada acerca destas máquinas! – Explicou um dia, dando uma festa à Casal. – É muito rápida.

E como bom amigo que era, deixou o adolescente com cabelo à caniche dar uma volta.

- Mais alguma pergunta sobre motociclismo? Não? Então até amanhã, tenho de ir treinar cedo para o Autódromo.

Foi mais tarde visto no topo da bola de Nívea na praia de Paço de Arcos a fazer treino mental para o campeonato nacional de motociclismo.

O Dr. Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta, o maior biógrafo paçoarcoense do Pinguim, autor da magistral obra “Voando sobre um ninho de papagaios”, escreveu, “por ser maluco chegou ao topo como guarda-redes de hóquei, com banco na seleção, mas devido a ter levado com uma bola nos cornos perdeu o lugar na caderneta de cromos da modalidade, vendida na Dáni. Ganhou medo às bolas, incluindo as suas, por isso passou a urinar de olhos fechados e a atravessar a pé a ponte do comboio de Santo Amaro de Oeiras”.

- Era guarda-redes da minha equipa em juvenis, e subimos a seniores logo na primeira época, mas eu não consegui aguentar o ritmo e o Choné levou-me por caridade para o Futebol PA, - contou o Fufa.

- Fui colega dele. – Confidenciou, com uma lágrima no canto do olho, o Caveirinha. – Um dia apareceu na aula com um farol que tinha gamado de um dois cavalos, e disse-nos que era a nova namorada!

- Sempre que andava de comboio levava uma coleção de 100 bilhetes usados, - contou o Luís de Espanha, também com um olho húmido, - molho este que usava quando o pica-bilhetes lhe pedia o do dia. Tirava um a um, à medida que dizia “este não é, este também não” e a meio chegava sempre ao destino.

- Tinha como lema de vida uma ideia de Lavoisier, “nada de perde, nada se cria, tudo se transforma”, - disse emocionado o Fufa, seu colega de carteira. - Transformou uma camisola do colega da frente, com uma malha saída, num novelo de lã. E também me lembro dele como Homem-Aranha, porque um dia saiu pela janela de uma aula de Religião e Moral no primeiro andar, no Liceu Nacional de Oeiras.

Como homem dos sete ofícios, trabalhou na AC Santos da Avenida da Liberdade, chegou quase ao topo da carreira de paquete, mas como visionário que era, e só se conhece mais um, o Musk, o Pinguim trocou a carreira de sucesso pelo sonho de uma vida, o motociclismo, tendo dado logo nas vistas, sendo imediatamente contratado pela equipa mais poderosa da altura, a Lolita Veloz, que o equipou a rigor.

- Assisti a todos os treinos dele, - confidenciou, com lágrimas nos olhos, o Fufa. – Tinha uma característica única, enquanto todos os outros corredores metiam as mudanças diretas, ele fazia ponto de embraiagem.

E o Fufa estava na bancada no dia da primeira e única prova oficial do Pinguim, como representante da Casal:

- Ainda estou a vê-lo com fatinho de cabedal e capacete, - disse, assoando o nariz com emoção. – A carreira do Pinguim no motociclismo resume-se a uma reta, pois despistou-se logo na curva Citroen, e partiu a máquina toda.

Um homem assim é mais raro do que um génio, o pai teve enorme influência na sua esmerada educação, era o famoso empresário do Papagaio, com exclusividade na recepção do material roubado nas redondezas. Ele e o Carvalho da Ourivesaria eram unha com carne, por isso tudo o que era ouro ou prata passava para o outro lado da rua. A prisão do pai Papagaio e o atentado ao sócio, um tiro na perna, coincidiu com a ascensão do Pierre Pomme-de-Terre. Quando a vítima regressou do hospital mudou de ramo e abriu a Petisqueira do Gould. Como os traumas do Pinguim foram seguidos, a bola nos cornos e a injusta prisão do querido pai, mudou-se para Porto Salvo e tornou-se um cabeleireiro famoso, estilo Variações. Para não pagar bilhete, como forma de protesto contra o sistema, passou a apanhar, ou o comboio de mercadorias, ou a ir do lado de fora do de passageiros. Voltou a Paço de Arcos, comprou o café da moda, “O Bachil”, acumulou dívidas no jogo, e no dia em que o pai o esperava em Pinheiro da Cruz, praticou um “suicídio não assistido”, apanhando os amigos desprevenidos. Quanto ao “Suicídio Assistido” desistiu, mesmo com o povo a incentivá-lo, mostrando que era senhor de uma textura fina de um comportamento determinado pelo livre arbítrio.

 

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