Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

25
Fev18

2ª Temporada - Os Sapatos do Coronel Osório (14)


Comandante Guélas

 

Sapatos.jpg

14

Sempre que há uma revolução algures no mundo, o número de casamentos aumenta. Paço de Arcos não foi excepção à regra! A seguir ao do Peidão foi o do Focas, que estava com casamento marcado e a despedida prometia ser longa. Os seus queridos amigos começaram por lhe arremessar um dos seus sapatos para a varanda do coronel Osório, um militar da brigada comunista do reumático, que já se encontrava mais para lá do que para cá, depois de ter dividido com a esposa um jantar no café do senhor Américo. O militar ainda ouviu o impacto da falua made in senhor Coutinho no estor, mas confundiu o barulho com um tiro disparado pelo John Waine no filme que estava a dar na televisão. O que iriam dizer os futuros sogros quando o Focas aparecesse lá em casa para ir buscar a noiva e se apresentasse com um pé calçado e outro com uma meia “CD” rota? O casamento do Focas não poderia ser posto em risco, porque o Pilas já estava a preparar a festa, idêntica à do casamento do Peidão, em que trotou o dia todo, gatilhou nos extintores e abanou a fruta para as tias quando estava de cuecas em cima da prancha mais alta da piscina antes de saltar e gritar, “o que vocês querem está murcho”.

- Temos de ir buscar o sapato do pobre Focas, senão ele ainda se constipa, - disse o Velhinho, recuperando o equilíbrio depois de se apoiar numa árvore.

O jovem adulto escolhido para ir tocar à porta do militar, estava virado para a loja de electrodomésticos do Ligóia com o sexo cansado de fora a debitar mijo, muito mijo.

- Não dou, - gritou peremptoriamente o coronel Osório, não aceitando a explicação que colocava o sapato do Focas na sua propriedade devido a um golpe de vento traiçoeiro.

A hora para ir buscar a noiva aproximava-se. Como o andar onde morava o Velhinho era o de cima, um segundo plano foi montado, e consistiu em pescar a barcaça. Mas na varanda utensílios ligados ao mar só havia uma poita.

- Eu sou capaz de pescar um tubarão com uma linha de cozer, - atirou o Velhinho, chegando-se ao parapeito da varanda com a cana na mão.

Olhou para baixo e viu três sapatos, apesar de todos só verem um. Quando o isco começou a descer para ir salvar o sapato do Focas comprado na sapataria do senhor Coutinho, o pescador teve uma fraqueza nas mãos, devido à cevada que lhe forrava o interior, e deixou cair com estrondo a âncora em cima do objecto do noivo. O coronel abanou e deitou-se no chão em posição de defesa. Nova reunião, novo porta-voz, mas agora um com um ar mais convincente e da zona: o Pierre Pomme-de-Terre, o futuro Vale e Azevedo da vila!

- Não, - tornou a gritar o militar da velha guarda para o adolescente arraçado de leitão com anjo barroco, de carne tenrinha e sorriso virgem.

O Focas não teve outro remédio senão pedir emprestado o sapato de cor diferente ao seu futuro cunhado o Proveta, que o esperava no rés-do-chão, e não saiu da porta de entrada, sem acender as luzes, alegando uma reunião extraordinária com o padre. Saiu a correr e a coxear, mas com os sogros a babarem-se de orgulho por tão devoto enteado. No entretanto o gang reunira-se de emergência e aprovara por unanimidade a proposta do marido mais responsável da zona, o senhor Peidão, que lançara uma fatwa para a meia-noite: encher a varanda do coronel Osório com todos os sapatos velhos de Paço de Arcos e arredores. E a lei foi cumprida, durante meia-hora choveu granizo na varanda do militar. No dia seguinte o Osório foi visto pelo Paivinha, um paçoarcoense de 300 Kg, e pelo Boca Negra, o Fernando Jorge, com um enorme saco de plástico atestadinho de sapatos, a caminho do contentor da praceta.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D