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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

13
Ago17

1ª Temporada - A Invencível Armada (14)


Comandante Guélas

Armada.jpg

 

Episódio 14

 

A Invencível Armada

 

- Nunca tão poucos irão dever tanto a muitos, – profetizou o Craveiro Lopes ao entrar, na praia de Caxias, na chata com o nome “Torpedo”, propriedade do patriota paçoarcoense Horta, posta à disposição das forças do Norte.
Sentou-se na proa e contemplou o sumptuoso cenário que lhe provocou de imediato uma sensação de absorção, que mostrava que não era indiferente ao local. O balançar do iate nas ondas fazia um som e ruído, ruído e música, música e voz, voz e “É Motorista”, o hino da liberdade, sinal divino da eminente vitória dos Aliados, que iria reforçar a carga sexual do Comandante Guélas. O agora Almirante Craveiro Lopes encontrava-se numa espécie de transe, pensando nos deserdados e explorados que iria salvar da obsessão social pelo culto do corpo, que os inimigos tinham imposto ao seu povo. Após aquela estranha revolução do mês de abril, a beleza da mulher passara para um banho mensal, os pêlos andavam em roda livre, descuidavam-se durante o acto sexual e tinham ordens do Comité Central para irem até aos dez camaradas na mesma sessão. A sua armada iria desafiar os diabos vermelhos para com isso trazer o saber à vila. Foi acordado pela saída intempestiva do ar pelo pipo do Repimpa que estavam a encher.
- Almirante, temos um problema, - informou o Piloto Olho Vivo aproximando-se do “Torpedo”.
- O que é que se passa?
- O Repimpa que comprámos nos Armazéns “Grandella” tem um pipo marado.
- A armada parte dentro de meia hora e o “Carapau Cocciolo” faz parte dela. Desenrasquem-se! – Gritou o “Almirante Sem Medo”, como se auto-intitulou, mostrando que os muitos “penaltys” no "Papagaio" lhe tinham criado “músculo no estômago”, tão útil para situações como esta.
Caiu de novo nos pensamentos nostálgicos do passado e reviu-se à “chinchada” na Quinta do Leacoke, com o seu colega e amigo da primeira classe, o Titó. Tinham de dominar as fragilidades, os medos e as inseguranças, para assim poderem atolar-se nas nêsperas do José da Vacaria. Pela cabeça passavam-lhe momentos e mais momentos, enquanto os seus homens aprontavam mais uma barcaça e fixavam-na ao fundo com uma poita. Agora estavam em campos opostos, prontos a enfrentarem-se. A Dona Maria das Bicicletas encontrava-se numa tertúlia político-literária no Coreto, quando recebeu a informação do Anão-de-Suspensórios. O desembarque dos aliados do Norte iria ter lugar na praia de Paço de Arcos, tal como a visão do Desejado profetizara. O nevoeiro que invadira a costa era a confirmação. O passeio junto à marginal ficou despido de calhaus, a quem o eclético Mocho chamava “Pombinhos Brancos”, que foram amontoados a um canto, prontos para serem despejados sobre o invasor.
- Agarrem-me senão vou-me a eles, - gritou o trotskista com mais dioptrias do Jota Pimenta, o Bill.
- Calma camarada, calma, os fascistas ainda não chegaram, - explicou-lhe um “freak” de nome Taka Takata, agarrando-o pela camisola. – Eu é que estou “ganzado” mas tu é que tens as visões, ó meu.
- É das lentes camarada-meu, são das mais baratinhas, fundos de garrafa. Mas o Partido já prometeu para breve a ocupação do oculista, e depois dá-me umas lentes burguesas.
Numa praia a montante o Almirante Craveiro Lopes preparou-se para dar a ordem de partida, o Navio Almirante emprestado por um patriota já tinha o motor Yamaha de quatro cavalos a roncar e os cabos de reboque presos aos outros navios de guerra.
- Nesta viagem vamos descobrir a beleza e a magia que existe em nosso redor, - disse o cronista Alpedrinha, dando aos remos e olhando embevecido para o esgoto que cercava a esquadra e a conduzia em direção à vitória.
- Este cheiro a maresia excita-me, - exclamou o pequeno Horta, chicoteando os cavalos. – Lisboa tem o lendário Trancão, mas nós não lhe ficamos atrás com os filhos do Jamor.
À medida que a Invencível Armada ia lentamente avançando rumo ao inimigo, as paisagens encantadoras sucediam-se em catadupa. Como já era seu hábito, o marujo Charlot levava os pés dentro da água, que tanto amava e o inspirava.
- Está quentinha! – Elogiou, mostrando ter tido fortes influências do impressionismo no passado, sobretudo do Álhi.

Mas agora parecia estar mais ligado ao abstracionismo lírico, tinha ficado mais tridimensional com a Revolução dos Cravos.
- Não tarda nada, cantas, – profetizou o Zé Preto, mostrando que o Norte era multiétnico.

– Gosto sempre de assistir à ressurreição do Sol, – disse o Trovão apontando para a Lua.
Quando passaram em frente à Torre do Relógio, o nevoeiro abriu um caminho até ele, e mostrou à Invencível Armada a silhueta imponente da Quitéria Barbuda, que escolhia sempre onde queria aparecer, e que estava ali para saudar os guerreiros do Comandante Guélas. Ao seu lado estava o Barão Pierre-Pomme-de-Terre que sabia que se avizinhava uma guerra e que era preciso escolher o lado a que se pertencia. Era este o seu grande dilema. Mas como empresário o melhor seria ter um pé no Norte e o outro no Sul. Por isso apresentou-se aos dois líderes como um “infiltrado da melhor qualidade”, profissão que lhe dava total independência e liberdade criativa, sem pressões de qualquer ordem. De repente um raio, vindo dos lados do Bugio, tombou na cabeça do Alpedrinha, foi-lhe até aos ossos, e saiu pelo ouvido esquerdo, tendo ainda tempo para acender o cigarro que o Charlot acabara de pôr na boca. Por momentos todos pararam e ficaram a olhar para o cronista, que fazia argolas de fumo com a boca. Subitamente começou a verter para o caderno, como se tivesse aberto uma via directa do caldeirão de pesadelos do seu subconsciente, um turbilhão de caracteres chineses que depressa esgotaram as folhas pautadas, obrigando-o a continuar pelo bordo direito do barco, assim o obrigavam as mais tensas vibrações mentais.
- O barco, ele vai escrever-me o barco todo, - gritou o Horta atirando com o cronista pela borda fora.
Anos mais tarde esta enseada acabou por ficar conhecida como a Praia da Sereia Fascista, porque alguém do Sul, a espiar as movimentações da Marinha do Norte, disse ter visto uma sereia a declamar violentamente em cima de uma rocha em Ladino. Os ecos da invasão agitaram as mentes dos sulistas e puseram em alerta as gentes do Coreto. Os corifeus do regime tudo fizeram para que os horrores do Norte não incomodassem o Comité Central. Contaram aos seus que as emoções da turba burguesa traziam sempre muita infelicidade. Eles eram a luz, o Farol do Socialismo, e os do alto representavam a escuridão, o passado. Na proa do “Torpedo” o Almirante Craveiro Lopes olhou para o horizonte e sentiu a grande força romântica do povo de Paço de Arcos, o impulsionador das verdadeiras transformações, o projector que iluminava a vida com mais vida.
- Quando os virem, pedrada até lhes partirem os cornos, a reação não passará, - gritou o Pingalim, que tinha sido promovido a cabo pelo coronel Cabrita, e comandava um destacamento de cinco bolchevistas, que glorificaram a violência como resposta à violência que alegadamente os cercava.

Eles conheciam os relatos da brutalidade extrema dos homens do Comandante Guélas, que chegavam ao cúmulo de usarem as meias do Ánhuca e as cuecas do Bajoulo para extraírem informações. Pesadelos destes tiravam o sono a qualquer um. O General Titó olhou para os lados da ponte e lembrou-se do seu antigo amigo que agora comandava a Invencível Armada, algures dentro daquele nevoeiro cerrado. A Revolução dos Cravos tinha acabado com o que de mais sagrado existia, a amizade. Mas só assim é que ele conseguira passar de pescador analfabeto a gerente diplomado e tudo graças ao partido, que saneara do banco o vizinho burguês.

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