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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

16
Mar19

3ª Temporada - Dia da Raça


Comandante Guélas

 

Pica Popov e Serra.jpg

 

 

25

 

Na gloriosa Vila-Estado de Paço de Arcos, terra do Comandante Guélas, onde o Querido Líder esmagara os comunistas, seres que tinham a inteligência reduzida ao mínimo e a transpiração elevada ao máximo,  no Dia da Pátria, o da Raça Paçoarcoense, eram entregues os Diplomas de Paçoarquiano, àqueles que tinham conseguido superar a prova das 20 perguntas patrióticas. A cerimónia decorria sempre na Praça Daniel Martins de Almeida, o Poeta-Trovador que cantara vezes sem conta o Hino Paçoarcoense, onde a sua Estátua substituíra a do patrão Lopes.

 

1 – De que se alimentava a Miss Eunízia? 2 – Qual o paçoarcoense que disse que “em Portugal existe uma fábrica de entortar bananas”? 3 – Quem era o noivo da Sapa? 4 – Onde nasce o esparguete? 5 – Onde vivia o Ratinho? 6 – Quem foi o primeiro paçoarcoense a fazer a travessia nocturna a nado entre o pontão baixo na Praia Velha e os Socorros a Náufragos? 7 – Qual era o nome do Guélas? 8 – Qual a primeira residência oficial do Charlot? 9 – O Labumba era gordo? 10 – Quem era o Keida que morreu com um tiro nos cornos? 11 – De que país era originário o Fritz Moka? 12 – O  Frank Monka habitava na vila? 13 – Qual o nome do primeiro Caçador de Gambozinos de Paço de Arcos? 14 – Como se chamava a discoteca em que o Fritz Moka foi porteiro? 15 – Qual o nome próprio do Tóquinhas? 16 – Em que país estava emigrado o Frank Monka (“eu andarem à procura de tus e não encontrarem”)? 17 – Quem é que dizia “Espera aí que já cospes” nas cenas de beijos no cinema? 18 – Nome completo do Bolinhas? 19 – E a frase “ó Ferreira queres um sofá ou uma cadeira” quem a disse?

A cerimónia era sempre bela e elegante, com glamour, graça e interesse, que se iniciava sempre com um dueto entre o “Carlos Ribeiro Mais Quatro” e o Passionário Charlot, cantando o hino oficial, o “É Motorista” (https://youtu.be/yxs1F_05oP4), ao mesmo tempo que se soltavam as pombas do Manelinho do Estrume, e o Todo Boneco tentava abatê-las com a sua carabina de pressão de ar, que cegara o bóbi, o “pitbull” de cauda enrolada do João da Quinta, Irmão do Zé dos Porquinhos, vizinho da Sesaltina, que lhe ousara um dia insultar a senhora sua mãe com um ladrar de rafeiro. Seguia-se depois o discurso da apetitosa Tita dos Pés Sujos, que trazia sempre um elegante vestido em forma de santola, e umas sandálias sensuais que faziam sobressair as unhas em forma de águia, estilo meninas do Sado. A ela seguia-se o Frank Monka que debitava o nome dos planetas do Sistema Solar. No fim distribuíam-se os questionários para os candidatos da cerimónia do próximo ano. E houve um dia em que a cerimónia de Paço de Arcos coincidiu com a classificativa do Rali de Portugal, Penina à Noite.

- Ide soltar os vossos demónios, juventude, - disse o Comandante Guélas. – A pátria irá precisar de vocês no futuro.

Após o bólide ser engolido pela noite serrada, depois de ter tornado dia, por breves segundos, uma pequena parte do asfalto, e o seu ruído ensurdecedor ter obrigado os demónios a fugirem assustados para as suas casas, tudo voltava a cair na escuridão da Penina. Era nestas alturas que a festa retornava à estrada. Um Tarzan sobrevoou o povo na sua liana, mas o grito tornou-se aflitivo quando ela se partiu logo a seguir a ter atingido a vertical do alcatrão, obrigando o selvagem a uma aterragem forçada, e de costas. As lanternas acenderam-se e descobriram que o morcego era o Xinoca, o acólito mais alcoólico da vila, e que nem um “pio” soltava.
- Se não o tirarmos dali vamos levá-lo para casa em forma de tapete oriental, - disse o Olho Vivo, com uma vista no chinês e a outra no decote iluminado por uma fogueira duma desconhecida.
Bastou passar um copo a transbordar de cachaça pelas suas narinas, para que o preferido do Capitão da Quinta Divisão voltasse à vida e corresse apressado para o seu garrafão, que o aguardava em cima do barranco. O chinês tinha ficado desidratado com a queda. Quando já se ouvia ao longe o roncar de mais um bólide, eis que outro artista aparece no palco, fazendo questão de presentear o público com uma pega de caras. Tinha feito mal os cálculos e acabou por ser atirado à valeta, não com o impacto, mas sim com a deslocação do ar. O Peidão aproveitou mais esta pausa para tentar entrar em contacto com o Zé Pincel via Walkie–Talky, que tinha ficado na base a guardar os “peidociclos”.
- Pincel, aqui Peidão, escuto!
- Rrrrrr…rrrrr.
- Pincel…estás a ouvir-me?
- Rrrr…dão..ou…tomar uns copos.
- …copos???...Guarda o aparelho no bolso..
- Rrrrrr
Finda a comunicação, mais duas horas de prova. Depois foi a terrível descida. O Mac Macléu Ferreira estava mais para lá do que para cá e o seu peso era incomportável com os corpos franzinos dos amigos. A opção tomada foi deixá-lo a dormir na vala e ir buscar uma mota. Quando chegaram à base foram recebidos por um Zé Pincel com o capacete integral na cabeça e em estado etilizado que nem lhe permitia conhecer os amigos, muito menos o paradeiro do aparelho. Desapareceu na escuridão e só ouviram algum tempo depois o motor da sua Zundapp em alta rotação a desaparecer na noite fria e escura da Penina. Foi nessa altura que a estrada foi aberta ao público e os únicos a subirem foram os membros da Juventude Guéliana. O Mac Macléu Ferreira só foi descoberto meia-hora depois, após difíceis buscas ao longo da valeta.
- Ficou sem cara, - gritou o Zé do Fotógrafo, ex- cozinheiro-comando, irmão do Bigornas, gerente da mais importante loja de fotografias da vila de Paço de Arcos, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”.
O mistério foi esclarecido quando olharam melhor para o adolescente caixa-de-óculos loirinho. A cara estava tapada pelo jantar, que tinha saído sem pedir licença. Veio à boleia do condutor mais sóbrio do grupo, o Velhinho, que o levou de imediato para o Hospital de Cascais, porque necessitava urgentemente de uma dose de glicose. O Mac Macléu Ferreira teve direito a uma unidade, enquanto que o seu motorista Velhinho, o sóbrio, gramou com duas. Entretanto na serra procedia-se a outra busca, o Walkie–Talky do Peidão. A sorte estava do lado dos bons. Um elemento do grupo que pernoitava alinhadinho debaixo de uma árvore contou-lhes que umas horas antes tinham sido atacados por um desconhecido, que lhes dissera ser lutador de Karaté e quisera praticar com eles a arte milenar.
- Tivemos de nos defender daquele louco, que para o Karaté não parecia ser dotado, acabando por tentar acertar-nos com este rádio.
O Zé Pincel apareceu no dia seguinte com a cara toda inchada e, segundo explicou, tivera um acidente de mota. No entanto não foi capaz de explicar como é que a mota e o capacete nem um risco tinham. Quanto ao Mac o Velhinho contou que o tinha levado a casa, aberto a porta e perguntado se estava bem:
- Estou rijo, - e avançou, batendo com a cabeça na parede, com tanta força, que a mãe acordou.
O motorista pirou-se, pois não queria que o vissem sóbrio, dava mau aspecto.

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