Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

15
Jan19

3ª Temporada - O Relógio


Comandante Guélas

Relogio.png

 

21

 

Uma mulher jovem, fininha, com as unhas dos pés iguais às do Pitrongas, de pé junto a uma janela aberta da Pensão Moreira, por onde entra a luz da manhã e o cheiro a maresia do Chalé da Merda, abstrai-se na leitura de um pequeno poema escrito numa folha de papel higiénico da Leitaria Papagaio:

 

“Numa noite de copos,

Com o meu chouriço rijo,

O teu nome escrevi,

Com um jacto de mijo!”

 

Numa vila em que quase ninguém escrevia cartas de amor, o Bajoulo era a excepção, e a Tita dos Pés Sujos a sortuda. Eram raros os momentos da história da Humanidade semelhantes aos vividos na vila de Paço de Arcos, após a vitória do Comandante Guélas, que trouxera à luz o que estava na sombra, com a expulsão do solo sagrado, tal como fizera o marquês de Pombal com os jesuítas, a comunistada abjeta. E ainda por cima também havia um marquês na vila, o Petroni, pai do Vale e Azevedo da zona, o Pierre Pomme-de-Terre. O Querido Líder de Paço de Arcos proibira os homens de mijar sentados, como faziam os comunistas:

 

“Cada um mija como pode, pois o mais difícil na arte de mijar em pé, não é o manejo dos seus instrumentos, mas a cumplicidade entre as mãos e os olhos, que permite a pontaria com que cada um atinja o alvo, ao mesmo tempo que larga um peido”.

 

E foi numa noite de Verão que um grupo de betos do Picadili resolveu ir inaugurar um novo espaço de diversão, a piscina do Serapito. O local cheirava a novo e as mudanças da numerosa família estavam para breve, ou seja, o espaço ainda se encontrava vulnerável. A água azulinha convidava a uns mergulhinhos, mas os turistas não vinham preparados para o evento e por isso tiveram de improvisar. Foram todos nus. Todos?! Todos não, o mano mais velho do Citron foi o primeiro a inaugurar as instalações. Caiu no erro de ir espreitar para o fundo da piscina sendo de imediato arremessado lá para dentro. Ficou furioso, dizia que tinha avisado que estava na digestão, talvez da cerveja, mas foi de imediato confrontado com a dura realidade, pois se tivesse de lhe acontecer algo não era por estar aos berros à procura de um culpado que faria o tempo voltar para trás:

- Paciência, também já viveste muito, - sossegou-o o amigo Pontas.

- É melhor morreres de congestão do que cortado ao meio pelo rápido de Lisboa, como aconteceu com o primo surdo-mudo do João da Quinta, - reforçou o Peidão, outro amigo de longa data.

A festa estava animada, havia “bombas” por todos os lados e montes de terra e palha a alterar o outrora paraíso azul. Até já o “condenado à morte” participava nos saltos, mas todo vestido por causa da digestão. Havia mais água fora do que dentro, a relva acabada de plantar fora engolida pela lama, havia pegadas por todo o chão branco imaculado e os adolescentes carregadinhos de cerveja vertiam águas constantemente, tendo o cuidado de o fazer para dentro dos vasos. A quantidade de cevada descarregada iria com toda a certeza alterar o código genético das futuras rosa vermelhas que, com o choque, passariam para amarelo escuro. Por volta das três da manhã o João Pestana veio buscar os meninos rabinos, chegando muitos deles a casa sem acessórios. No dia seguinte o pai do Serapito, proprietário do espaço privado, teve um ataque de caspa. A piscina parecia mais o lago dos patos da Avenida, havia um cheiro intenso a mijo, e do rijo, e o limoeiro resolvera produzir cuecas, uma delas com marcas profundas, sinal de que o Bajoulo também participara na festa. No chão algo brilhou, era um relógio, a única prova decente. Lembrou-se que tinha deixado um dos filhos a guardar a casa, o mais corajoso, e acordou-o. Confrontou-o com a situação e teve de agarrá-lo de imediato, porque ele ameaçou descer as escadas e matar os prevaricadores.

- Calma filho, já não está lá ninguém.

Mostrou-lhe o que tinha descoberto no chão e ele provou ao pai que o único mano capaz de ter amigos com cebolas daquelas era o Serapito. Foi de imediato à outra casa confrontar o outro filho com o achado e depois de ele ter feito um checklist mental das manias dos amigos, chegou à conclusão de que só um é que poderia gastar tão pouco na comprar de um relógio:

- O Peidão, esse relógio só pode ser do Peidão, e com toda a certeza que virá buscá-lo.

- Peidão?! Então o menino tem amigos com esse nome?! Não foi essa a educação que lhe dei. Vou reforçar-lhe as idas à missa.

Nesse dia foi abordado pelo suspeito que queria o relógio de volta e estava decidido a ir pedi-lo ao proprietário. Foi um encontro cordial, o jovem afinal não era um pecador, prometeu não participar em mais invasões, aliás não seria mais necessário pois o pai do Serapito tinha-lhe posto o espaço à sua disposição. Reparou que o estranho nome daquele amigo do filho não condizia com a figura angelical que lhe pedira perdão pelo ato anti-social dos seus amigos que ele, como Menino da Luz, tentara evitar mas fora impotente perante a turba de selvagens que lhe tinham passado por cima e arrancado o relógio de pulso. 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D