Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

03
Ago19

4ª Temporada - Paradoxos Ontológicos


Comandante Guélas

Paradoxo.jpg

 

1

A sessão do cinema Royal decorria na normalidade, a penumbra e o silêncio imperavam, até que o Mene se levantou com uma violência tipicamente orgânica e aplicou, sem apelo nem agravo, duas valentes bofetadas no cavalheiro que se sentava ao lado da sua querida Milu. Recuemos! A Milu e o Carlos nasceram com uma pequena diferença de minutos, e uma Tita Remédios, solteirona espanhola endinheirada, propôs perfilhá-la:

- São dois, ficas com um e fazes outro, ela passa a ser a minha filha e herdeira.

Os pais não aceitaram, mas por respeito à familiar fizeram-na madrinha e deram mais um nome próprio à Maria de Lourdes: Remédios. Quando as luzes do cinema de acenderam devido à algazarra, verificou-se que o senhor não empernara com ela, conforme a moça se queixara ao seu jovem marido, mas sim que tinha uma perna de pau, que não controlava. Nenhuma das coisas que aconteceram são em vão, o Mene e a Milu deram origem a uma menina, que por sua vez foi mãe do Peidão. Até à chegada do Comandante Guélas ensinavam aos petizes que o tempo era linear, que avançava eterna e uniformemente até ao infinito. Tudo mudou, a diferença entre passado, presente e futuro passou a ser declarada uma ilusão, o ontem, o hoje e o amanhã deixaram de se seguir uns aos outros, passaram  a estar ligados num círculo eterno. As lendas paçoarcoenses estão destinadas a regressar com a perna de pau do homem que hipoteticamente abusara da Milú. Se alguém se cruzar em Paço de Arcos, nos tempos de hoje, na rua, com um coxo, pode ser o regresso de uma figura pública, talvez o Tubarão ou o Balatuca. Por isso o Querido Líder geminou Paço de Arcos com Sagres, e declarou a área do Algarve destino de férias da Juventude Guéliana. Passaram a acampar no parque selvagem junto à praia mais “in” da localidade e ir jantar ao mini-restaurante do Gordo Caixa de Óculos, proprietário de uma Discoteca cujo nome era “Solemente para Amigos”, e onde os “meninos das boas famílias de Paço de Arcos” tinham entrada exclusiva. Uma espécie de “Kadoc”! Só os paço-arcoenses afortunados tinham acesso a mais comodidades: o Cocas, porque ficava na casa dos pais e o Eterno-Noivo, o Boa Cara, porque levava sempre a “roulote”, com a noiva do momento lá dentro. Sagres parecia um acampamento da ONU, ouviam-se todas as línguas. E a confusão era tão grande, que podiam dar de caras, a meio da noite, dentro da suas tendas, com alguma estrangeira bêbada a cheirar a estrume. Mas num dos anos foram presenteados com uma artista do Porto, de nome Balbina. Todos os dias levava para a tenda um estrangeiro novo, que era obrigado a deixar os sapatos à entrada. E pelo tamanho das faluas, tentava-se adivinhar a altura dos franguitos. A comilona falava várias línguas, e tinha um volume de voz que se ouvia à distância, usando a língua pátria nas alturas em que desejava insultar a comida. Foi uma espécie de novela, a “Simplesmente Balbina”, que animou as noites de Sagres durante quinze dias! Ainda rondou a tenda do irmão do Chinoca, mas este estava prevenido com sensores e não gostava de torresmos.

Mas houve mais!

 A tenda do paço-arcoense mais ajuizado, e de nome Peidão, também fazia parte do acampamento da ONU, e era a mais pequena habitação da zona, porque o citado adolescente “não quis gastar muito dinheiro na altura da aquisição”, segundo palavras do Chinoca. E, portanto, ele e a namorada tinham de entrar de gatas. Numa das noites de Sagres muito ventosas, o Graise foi pedir lume ao Peidão e teve de acender o cigarro com a cabeça dentro da habitação.

- Cuidado, que isto é de “nylon” e arde rapidamente, – disse o fumador, sem se aperceber que o aviso tinha acabado de acender o rastilho de acesso aos neurónios do Peidão.

Quando a noite ainda ia a meio, o proprietário da barraca minorca, em sono profundo, sonhou com um incêndio e só acordou quando já estava meio de fora, a olhar para o café que nunca conseguia ver, e com os farrapos da tenda a balançarem ao vento. Tinha saído pelas traseiras.    

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D