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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

01
Ago17

1ª Temporada - Razão e Bons Costumes (2)


Comandante Guélas

Episódio 2

 

Razão e Bons Costumes

Charlot 1.jpg

 

 

Um dos objetivos do Comandante Guélas era combater a degradação crescente da qualidade dos habitantes de Paço de Arcos. Pessoas como o Ánhuca, o Balatuca, o Grilo, o Taka Takata, o Ratinho Blanco, o Bajoulo, o Pierre Pomme-de-Terre, o Álhi, o Charlot, o Coronel Osório, o Mocho, o Ligóia, o Chico Americano, o Janeca, o Russo, o Zé Luís, o Bill, o Fininho, o Peidão, o Espalha, o Ponto de Interrogação estavam agora a ser substituídos pela Tita dos Pés Sujos, o Xantola, o Mágu (futuro segundo esposo da Tita, depois de o Bajoulo a trocar por um camelo cheio de grades de cerveja), o Volkswagen, o Ruben e muitos outros degenerados que a História nunca iria mencionar. Passava-se lentamente da Ínclita Geração Paçoarquiana para uma Geração Rasca vinda do lado esquerdo da vila. Era preciso travar urgentemente esta degradação genética custasse o que custasse, a terra do grande herói Patrão Lopes tinha de manter viva a lenda dos príncipes perfeitos. Quando a Tita dos Pés Sujos chegou à vila, revelou logo ser uma mulher obsessiva, egocêntrica e dissimulada, com um plano bem definido. Começou por escolher para namorado um filho dum general, o Bajoulo, irmão do maior cobridor da vila, que só acasalava no Algarve, no verão e longe dos amigos, quando desaparecia nas férias montado na sua potente Honda 50. Era dissimulada porque mantinha a aparência da primeira candidata à presidência da República Portuguesa, a Arlete (que se intitulava anti-fascista, mas que não passava de uma vulgar ladra de eletrodomésticos), apresentando assim uns pés dignos de pertencerem ao clube das Meninas do Sado. A obsessão vinha-lhe da mania em querer realizar o sonho do pai, o senhor Xantola, que era tornar o seu café restaurante no primeiro em venda de santolas e cadelinhas. Um pouco mais a norte, na parte de cima da linha, junto à clínica do italiano que curava hemorróidas, e outras maleitas do corpo, com cenouras e rabanetes, morava o Russo, cujas memórias estavam recheadas de tintól e do amor à sua bebedolas. Os bons estudantes sabiam onde é que se vendiam os melhores charros: na casa do Grilo! Os grelos eram bons e os cabritos ainda melhores. Muitos pontos de venda foram trespassados porque não havia negócio. Este paçoarcoense fininho misturava caldos Knorr e caliça da Pensão Moreira ao produto, levando os clientes a apanhar as maiores pedradas da Costa do Estoril. Por tudo isto ele era o maior ervanário da vila. Os tempos de liberdade também ajudavam muito o negócio. Entre o Russo, o Grilo e o Craveiro Lopes havia uma relação triangular, que teve importantes implicações na independência do Alto de Paço de Arcos. Mas era difícil imaginar o que tinham em comum o filho de um picheleiro de Porto Salvo, um fanhoso de Vila Fria e o herdeiro de um chinês bêbado clandestino. O Grilo era um dos “dandies” rebeldes da Revolução dos Cravos que forneceu à vila o modelo definitivo do charro, enquanto que o Russo revolucionou por completo o estatuto do estudante das barracas, que levou o seu querido filho Zé Luís a ir fazer os trabalhos de casa dentro de um contentor, novidade absoluta do concelho, por uma questão de sobrevivência, pois a mãe pretendia fazer-lhe a folha, e ele precisava dela para a aritmética. Quem estragou tudo foi a camioneta que o ia engolindo com mochila e tudo, não sem antes ter sentido, de raspão na cabeça, as lâminas da trituradora, que deixaram uma marca profunda na sua alma, tendo-se tornado controlador de trânsito involuntário. Era por isto, e muito mais, que o Comandante Guélas os queria para a sua causa. Os acontecimentos precipitaram-se na forma distinta como cada um dos artistas se foi posicionando perante o Processo Revolucionário em Curso (PREC). Craveiro Lopes cortou definitiva e epistemologicamente com o Antigo Regime, conservando unicamente a sua barraca, que se manteve na mesma até à hora da sua morte, quando foi detetado três dias depois pelos vizinhos devido ao cheiro pestilento, que até aí tinha os pés do Ánhuca como causa principal. A homenagem que a República Independente do Alto de Paço de Arcos lhe fez, ficou para sempre gravada na memória da geração que nasceu a respirar a “libertação da liberdade”, como disse o velho poeta Fernindó na altura em que atiravam com os restos, impróprios para consumo, do primeiro assessor do Comandante Guélas, para o buraco onde já estava a mula do Manelinho da Carroça, atropelada mortalmente pelo primo surdo-mudo e outras coisas mais, do João da Quinta.
- Vai a montar para o outro mundo, – gritou traumatizado o Charlot. – Mas desta vez não monta a Quitéria, nem as galinhas, mas sim algo maior, a Rosinha, companheira inseparável do Manelinho, que fica agora reduzido ao único filho fêmea. Viva o Craveiro Lopes, viva o nosso bem-amado país. E agora o hino!
E todos cantaram o hino do seu país, o “É Motorista”, que ecoou pelas redondezas, mostrando a força e a raça desta gente descendente do Viriato.

 

"Eehhh motorista
e o preto preto branco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas,
estradas de corrimão.
Estava lá o Charlot
a cantar a nova canção

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
estava lá o Charlot
com 2 franguinhos na mão!

Eehhh Motorista
E o preto, preto banco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
Comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas
Estradas de corrimão
Estava lá o Baiona
Com dois franguinhos na mão

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
Estava lá o Charlot
A cantar a nova canção

Ehhh Motorista
E o preto, preto branco
Precausa da criação
Pré causa da sua direita
Comigo é uma canção

 

para ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=gBMI9h3m2cY&feature=youtu.be

 

 

A aura aristocrática do senhor Daniel Martins de Almeida, de nome oficial Charlot, levava-o a cantar de uma forma muito intuitiva, emocional e energética, enquanto que os companheiros pareciam cavalos desenfreados, mostrando no entanto uma simbiose única na Costa do Estoril. A causa da sua grandeza devia-se ao facto de se ter confrontado, muito novo, com o lado negro da vida. Conseguiu construir relações fortes com os outros, que lhe melhoraram a vida. Era nestas ocasiões de excitação patriótica que conseguia acender os campos magnéticos da memória e ludibriar a pouca razão que possuía, exorcizando o demónio que morava em si, o Baiona. Os inimigos temiam-no, pois era nestas alturas que lhes ferrava os dentes. Com ele por perto os do Sul sentiam-se sempre numa situação de insegurança e de perplexidade. O Charlot era o mito no Norte, um Camões, só ele conhecia o Comandante Guélas.

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