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República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

24
Fev19

3ª Temporada - Capitalismo Paçoarcoense


Comandante Guélas

 

Mocho Pingalim Charlot.jpg

 

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- O Francisco Barlatotas encontrou o filho do marquês!

A notícia do “achamento” do Pierre Pomme-de-Terre no Peru caiu como um milagre na vila de Paço de Arcos, terra do Comandante Guélas, o Querido Líder.

- Está no Peru, e é Diretor-Geral da Pinetree Group!

Um orgulho, mais um Património Imaterial Paçoarcoense tinha sido localizado e estava agora disponível no Facebook. Afinal a licenciatura em engenharia não tinha sido comprada no Brasil, como confidenciara uns anos antes ao Focas, mas sim fruto de um estudo árduo no Instituto Superior Técnico. Porque todos os paçoarcoenses eram feitos de substâncias químicas, a sua tentativa de uniformização pelo Bill revelou-se um desastre, por isso o Comandante Guélas ao aperceber-se da diversidade e mutabilidade dos habitantes conquistou a vila, reciclou os comunas e declarou a independência. Os paçoarcoenses modelos eram aqueles que nunca poderiam ser decompostos noutros mais simples. O Pierre Pomme-de-Terre era o vértice da pirâmide do empreendedorismo da gloriosa vila de Paço de Arcos: O Restaurante O Tino; a oficina do Cabrita; a Maria das Bicicletas; a Laura da Praça; a Blandina dos Jornais; o Manel da Dany; o Freitas da Minhoca; o Manelinho do Estrume; os barbeiros João Balão, António Balão, Inácio, Bandeira; Florêncio; John Lena; o Joaquim do Café Bachil, onde o Manel Carteiro nas horas vagas aliviava os recrutas que iam apanhar o comboio; o Miguel Padeiro, um bexigoso com uma Honda 750 transformada em “Easy Rider”; o restaurante "O Pombalino" do Alfredo e do Chinês; os “3 Porquinhos”, a Zona Vermelha da vila, no Jota Pimenta; as papelarias do senhor Silveira e do Inácio das bombas de Carnaval; a drogaria da preta; o Silvério e o Hércules com o seu negócio sazonal, a sua banca de lima (bolas de cera com água dentro), a 5 tostões cada; o Manuel Escangalhado da leitaria; o Cara Alegre da “Oceânia”; o Joaquim e o Jorge da “Iolanda”, que serviam sempre um “leitinho” à Dona Quitéria Barbuda numa garrafa de Sumol, com uma palhinha; o Braz da farmácia, que parou o seu BMW na marginal para “ajudar menina aqui sozinha”, que afinal era o Choné com um casaco preto a fazer de saia e a cabeleira da mãe, que tinha os amigos escondidos prontos para fazerem uma emboscada, mas que desta vez não saíram do local porque reconheceram o carro, deixando a pobre “menina” entregue aos fetiches libidinosos do farmacêutico, que prometia levar o Choné às nuvens, mesmo depois de ele ter tirado a cabeleira e chamar-lhe “paneleiro”, tendo o Braz ameaçado que iria fazer queixa à progenitora; o sapateiro 7 Solas; o Joaquim da Lisboa Comercial; o Severino Seco; o gasolineiro Manuel António; a drogaria do António, onde o senhor Peidão, o maior bombista da terra, se abastecia de Litopone e Ácido Muriático; o Bar Marginalíssimo do Tolas e do Jeremias; a Papelaria do Manuel Ante, que se chamava “Campos Pereira”; o sapateiro Carlos Ribeiro, da Banda Popular “Carlos Ribeiro mais 4”; a Fateca; a Sapataria Coutinho, “ó senhor Coutinho queria aquele sapato dos Baptistas, sff” (“venho descalço e vou lindinho”); a Casa João que “vende meias e botão”; Taberna O Papagaio, que deu à vila 2 formosos poetas, Pinguim e Pingalim; o Animatógrafo do Lúcifer; a Casa Chico; a Leitaria Vitória que, como era tradição em todos os estabelecimentos deste ramo, vendiam meio-gordo à taça; Leitaria Marginal; Marmelada; Casa Mário e Casa Adelina; e a fechar, o célebre Café Picadilli, que deu à vila o seu futuro e o Pica. Em todos estes estabelecimentos comerciais, o famoso Pierre Pomme-de-Terre deixou calotes, por isso de cada vez que se desloca às origens, fá-lo de noite, porque metade da vila continua ainda a querer enforca-lo!    

 

15
Fev19

3ª Temporada - O Senhor Xantola


Comandante Guélas

 

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Após a conquista da vila de Paço de Arcos, o Comandante Guélas, o Querido Líder, declarou o liberalismo como a política económica oficial do país, e logo apareceram na linha da frente os melhores empresários de todos os tempos, que iriam revolucionar o estilo de negócios da Costa do Estoril: Manuel da Leitaria, Papagaio, Maria das Bicicletas, Cabrita, Pierre Pomme-de-Terre, e tantos outros que nunca se perderão nas memórias do tempo.

- Esta ainda há-de ser a casa mais afamada de Paço de Arcos, – prometeu o senhor Xantola, ajeitando as patas do caranguejo grande, pescado junto à saída do esgoto do “Chalé da Merda”, o Centro Cultural, e comprado livre de impostos, como era e continua a ser tradição nos restaurantes da zona.

- É para lhes dar um ar sensual, – explicou o Xantola ao atento Focas. – Assim, o cliente fica com água na boca e entra, tendo direito a ser atendido pela minha filha Tita-dos-Pés-Sujos, sob visão atenta do seu noivo Bajoulo, que está ali na mesa das imperiais desde ontem à noite. Vai dar um genro de peso!

- O marketing é perfeito, o senhor irá com toda a certeza roubar a clientela ao seu primo galego. O Bajolinho é uma jóia, é um descanso para qualquer pai, – disse o Focas, atirando de mansinho uma santolinha para o aquário dos peixes.

Mas como os exames estavam perto, o estudante Focas despediu-se do senhor Xantola e foi para casa fazer o exame nacional, roubado uns dias antes e agora na posse de todos os estudantes de Paço de Arcos. Só saiu depois do jantar, para se juntar ao grupo de amigos que o esperava no “Áries”, o Centro Comercial junto à estação, onde também se situava o novo restaurante que pretendia fazer sombra ao velho e famoso restaurante “Os Arcos”. A noite iria ser longa, aproximava-se uma “direta”, no dia seguinte um grupo partiria em direção a Chaves, para desceram o rio Tâmega até Amarante. Só o motorista, tinha recolhido aos aposentos, excitado com a aventura em que se ia meter, não a de descer o rio, mas sim pelo facto de ir passar uma semana com um grupo de adolescentes tenrinhos. Quando a torre da igreja deu as badaladas da meia-noite, o Focas juntou-se aos amigos. Pelas duas da madrugada começou a retirar da parede um cartaz que anunciava a vinda dos “Tubes” a Cascais, e embrenhou-se nas catacumbas do espaço comercial. Apareceu dez minutos depois com algo embrulhado no papel. Parecia um bolo, um tronco de chocolate. Chocolate?! Chocolate não era, mas sim o conteúdo intestinal do velho Focas, o maior cagador de Paço de Arcos e arredores.

- E agora, o que é que faço a isto?

Os amigos recuaram e veio-lhes à memória as férias passadas em Sagres e aquele dia em que o Focas tivera uma dor de barriga e resolvera a questão abrindo uma cova à beira-mar, ao mesmo tempo que assistia a uma partida de “beach-ténis” entre dois turistas. Tentaram atacá-lo durante o ato fisiológico, mas quando estavam a um metro do cagador ele voltou-se repentinamente, agarrou no cagalhão e atirou-o. Felizmente nessa noite não estava nos planos desperdiçar tão formosa escultura. Resolveu espalhá-la pelos vidros do restaurante do senhor Xantola e tapar-lhe as fechaduras. O cartaz dos “Tubes” também ficou colado! Até às dez da manhã o material secaria e o proprietário, mais a sua bela filha, a Tita-dos-Pés-Sujos, iriam ter uma surpresa, e das grandes. Mas a festa não ficou por aqui! As frinchas entre os vidros não estavam tapadas e houve um concurso de escarretas, cujo objectivo era decorar as carapaças das Santolas cozidas que ocupavam a montra. Até com mijas participaram!

No dia seguinte estavam longe, muito longe, e com toda a certeza que as culpas iriam cair direitinhas no já célebre Cocciolo. 

 

 

       

 

09
Fev19

3ª Temporada - O Primo do João da Quinta


Comandante Guélas

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O João da Quinta tinha um primo com menos habilitações académicas, ou seja, nunca fora à Escola. E para agravar a situação, era surdo-mudo. À conta destas deficiências todas era o único a passar a ponte sobre o Tejo com o “peidociclo”, e de borla, porque quando a funcionária o tentava informar de que as motas de cinquenta centímetros cúbicos eram proibidas naquele local, a cabeça do primo inchava de raiva, ficando vincada na testa a placa que lhe tinham posto após o último desastre, em que marrara contra uma árvore depois de ter descido um barranco com a sua Zundapp. Para se safar daquele bajoulo vestido de preto a cheirar a estrume, mesmo depois dos ventos da ponte lhe terem feito uma limpeza a seco, abriam-lhe a cancela e ele lá ia à sua vida. Por isso para este surdo-mudo de um só neurónio não havia barreiras para o seu “peidociclo”. E como era um homem livre às vezes aparecia de surpresa na casa do João da Quinta e abancava durante algum tempo. Não dava muita despesa, porque água nem para beber e se fosse preciso dormia aconchegado com as ovelhas. Quando aparecia significava que estava de boas relações com a sua Zundapp 50, porque quando ela resolvia não pegar atirava-a por um barranco e lá ficava durante uns dias, até as saudades apertarem e o mecânico lhe explicar que sem gasolina a sua querida não funcionava. Durante a estadia na quinta onde a família do primo vivia e trabalhava, tinha uma casa-de-banho particular: o terreno baldio junto à casa onde vivia o adolescente mais responsável da zona, o menino Peidão, que assistiu, impávido e sereno, a este ritual do primo do seu amigo, que nem para cagar tirava o chapéu. Parecia um urubu, todo vestido de preto. A sorte do primo, surdo-mudo e com um só neurónio, do João da Quinta, mudou na altura em que o Peidão ganhou uma espingarda “porção-de-ar” Diana 38, tornando-se um snipper. Logo na primeira “chumbada” saltou o chapéu do cagador, que ia caindo, com o impacto, para cima do produto, pois tentara agarrar o penico que estava na cabeça e que fugira, vá-se lá saber porquê. Ajeitou-se e voltou à posição de cócoras, sinal de que ainda tinha a tripa com favas. Na segunda chumbada desequilibrou-se e desceu o morro com as calças arreadas, desaparecendo no meio das alcachofras. O Peidão empoleirou-se na varanda mas não o viu. O tiro parecia ter sido fatal. Quando o adolescente se preparava para guardar a “Diana 38” viu um vulto a erguer-se furioso com o fato pintado de picos, chapéu na cabeça e a gesticular, correndo em direção à quinta. Nunca mais usou o exterior da quinta para largar os feijões, tendo optado pelo conforto e segurança do cercado das ovelhas. Até ao dia em que não ouviu o rápido para Cascais, e o João passou momentaneamente a ter dois primos surdos mudos de um só neurónio.

 

15
Jan19

3ª Temporada - O Relógio


Comandante Guélas

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Uma mulher jovem, fininha, com as unhas dos pés iguais às do Pitrongas, de pé junto a uma janela aberta da Pensão Moreira, por onde entra a luz da manhã e o cheiro a maresia do Chalé da Merda, abstrai-se na leitura de um pequeno poema escrito numa folha de papel higiénico da Leitaria Papagaio:

 

“Numa noite de copos,

Com o meu chouriço rijo,

O teu nome escrevi,

Com um jacto de mijo!”

 

Numa vila em que quase ninguém escrevia cartas de amor, o Bajoulo era a excepção, e a Tita dos Pés Sujos a sortuda. Eram raros os momentos da história da Humanidade semelhantes aos vividos na vila de Paço de Arcos, após a vitória do Comandante Guélas, que trouxera à luz o que estava na sombra, com a expulsão do solo sagrado, tal como fizera o marquês de Pombal com os jesuítas, a comunistada abjeta. E ainda por cima também havia um marquês na vila, o Petroni, pai do Vale e Azevedo da zona, o Pierre Pomme-de-Terre. O Querido Líder de Paço de Arcos proibira os homens de mijar sentados, como faziam os comunistas:

 

“Cada um mija como pode, pois o mais difícil na arte de mijar em pé, não é o manejo dos seus instrumentos, mas a cumplicidade entre as mãos e os olhos, que permite a pontaria com que cada um atinja o alvo, ao mesmo tempo que larga um peido”.

 

E foi numa noite de Verão que um grupo de betos do Picadili resolveu ir inaugurar um novo espaço de diversão, a piscina do Serapito. O local cheirava a novo e as mudanças da numerosa família estavam para breve, ou seja, o espaço ainda se encontrava vulnerável. A água azulinha convidava a uns mergulhinhos, mas os turistas não vinham preparados para o evento e por isso tiveram de improvisar. Foram todos nus. Todos?! Todos não, o mano mais velho do Citron foi o primeiro a inaugurar as instalações. Caiu no erro de ir espreitar para o fundo da piscina sendo de imediato arremessado lá para dentro. Ficou furioso, dizia que tinha avisado que estava na digestão, talvez da cerveja, mas foi de imediato confrontado com a dura realidade, pois se tivesse de lhe acontecer algo não era por estar aos berros à procura de um culpado que faria o tempo voltar para trás:

- Paciência, também já viveste muito, - sossegou-o o amigo Pontas.

- É melhor morreres de congestão do que cortado ao meio pelo rápido de Lisboa, como aconteceu com o primo surdo-mudo do João da Quinta, - reforçou o Peidão, outro amigo de longa data.

A festa estava animada, havia “bombas” por todos os lados e montes de terra e palha a alterar o outrora paraíso azul. Até já o “condenado à morte” participava nos saltos, mas todo vestido por causa da digestão. Havia mais água fora do que dentro, a relva acabada de plantar fora engolida pela lama, havia pegadas por todo o chão branco imaculado e os adolescentes carregadinhos de cerveja vertiam águas constantemente, tendo o cuidado de o fazer para dentro dos vasos. A quantidade de cevada descarregada iria com toda a certeza alterar o código genético das futuras rosa vermelhas que, com o choque, passariam para amarelo escuro. Por volta das três da manhã o João Pestana veio buscar os meninos rabinos, chegando muitos deles a casa sem acessórios. No dia seguinte o pai do Serapito, proprietário do espaço privado, teve um ataque de caspa. A piscina parecia mais o lago dos patos da Avenida, havia um cheiro intenso a mijo, e do rijo, e o limoeiro resolvera produzir cuecas, uma delas com marcas profundas, sinal de que o Bajoulo também participara na festa. No chão algo brilhou, era um relógio, a única prova decente. Lembrou-se que tinha deixado um dos filhos a guardar a casa, o mais corajoso, e acordou-o. Confrontou-o com a situação e teve de agarrá-lo de imediato, porque ele ameaçou descer as escadas e matar os prevaricadores.

- Calma filho, já não está lá ninguém.

Mostrou-lhe o que tinha descoberto no chão e ele provou ao pai que o único mano capaz de ter amigos com cebolas daquelas era o Serapito. Foi de imediato à outra casa confrontar o outro filho com o achado e depois de ele ter feito um checklist mental das manias dos amigos, chegou à conclusão de que só um é que poderia gastar tão pouco na comprar de um relógio:

- O Peidão, esse relógio só pode ser do Peidão, e com toda a certeza que virá buscá-lo.

- Peidão?! Então o menino tem amigos com esse nome?! Não foi essa a educação que lhe dei. Vou reforçar-lhe as idas à missa.

Nesse dia foi abordado pelo suspeito que queria o relógio de volta e estava decidido a ir pedi-lo ao proprietário. Foi um encontro cordial, o jovem afinal não era um pecador, prometeu não participar em mais invasões, aliás não seria mais necessário pois o pai do Serapito tinha-lhe posto o espaço à sua disposição. Reparou que o estranho nome daquele amigo do filho não condizia com a figura angelical que lhe pedira perdão pelo ato anti-social dos seus amigos que ele, como Menino da Luz, tentara evitar mas fora impotente perante a turba de selvagens que lhe tinham passado por cima e arrancado o relógio de pulso. 

21
Dez18

3ª Temporada - Como Tu Sabes


Comandante Guélas

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O dia do aniversário do Focas chegou e na vila de Paço de Arcos a agitação pairava no ar! Os lugares já estavam marcados no restaurante e a ASAE tinha passado a casa de pasto a pente fino, não fosse o Pontas ir servir atum do Jamor ao Mac Macléu Ferreira, filetes das Fontainhas ao Boa-Cara e polvo da Terrugem ao Proveta. A primeira surpresa da noite foi o avistamento do Serapitola, que parecia o Álvaro Cunhal em versão negativo. Tinha autorização para mastigar, mas falar nem pensar. O Cocciolo pediu o livro de reclamações para protestar contra as comemorações dos cinquenta anos do sobrinho do Isaltino, pois largara um masso de notas por meia dúzia de croquetes e um saquinho de favas fritas.

- Pensei que eram as entradas e para não perder a fome esperei a noite toda pelo jantar.

A um canto da mesa o Conan mantinha o recorde de cobrições, agora com os episódios de incontinência incluídos. Todas as semanas abandonava fêmeas da Costa do Estoril. De repente o telemóvel do aniversariante tocou:

- Allô Focas, aqui engenheiro Petroni.

- Engenheiro Petroni?!!! – Perguntou o Focas fazendo um zapping à memória das amizades, incluindo os defuntos, não conseguindo, no entanto, descobrir algum “Engenheiro Petroni”. – Deve estar enganado.

- Grande Focas vejo que já estás com esclerose, eu sou o Engenheiro Petroni e gamámos….crescemos juntos com figuras ilustres, como o Mocho, o Balatuca, o Pingalim, o Milhas, o Peidão, o Graise, o Velinho, o Pilas, o Maneleiro, o Marreco, o Xinoca, o Pontas, o Rato, a quem me esqueci de pagar o compressor…

- Pierre Pomme-de-Terre, já podias ter dito.

- Como tu sabes acabei engenharia, a minha filha anda no Britânico, como tu sabes…

E o Focas agravou o seu estado de espírito com esta aparição difusa e imprevista de um amigo do alheio. Como é que ele poderia saber do currículo actualizado do Pierre Pomme-de-Terre se o último que lera fora há 35 anos quando ele fugira para o Brazil com o diploma incompleto da Infantil (fugira da sala 4 depois de ter pedido emprestado os guélas dos colegas e a carteira da educadora Meca, para ir comprar “Gorilas” ao Kitanda), levando no seu encalço o chefe Bigodes e todo o seu pessoal, o padre no encalço das esmolas, o carteiro dos cheques dos reformados, obrigando a vila a dividir-se ao meio, uns para o engavetar e outros para o enterrar. O Pierre Pomme-de-Terre agora o senhor Engenheiro Petroni, representava um certo neo-romantismo amigo do alheio, que se tinha estabelecido entre o final do século XX e o início do século XXI. A vinda desta figura carismática paço-arcoense representava o regresso às fontes das tradições da vila, particularmente no que dizia respeito ao mítico cheque careca. A mesa em “U” agitava-se, havia quem tivesse perdido a tranquilidade. As carteiras começaram a ser guardadas e todos viram o senhor Rato a cravar, com raiva, a faca da carne no atum do Mac Macléu Ferreira, e tudo por culpa das recordações de um compressor trocado por um cheque careca do filho do marquês. E o engenheiro Petroni sabia disso, viu-se na resposta que deu ao aniversariante quando este lhe perguntou onde estava:

- Em Macau a fazer o projecto para as futuras Torres Petroni que vou erguer no lugar do Tino, com as fundações do próprio.

Com a vinda deste mecenas de sinal contrário vinha outro tipo de discurso, desta vez mais elaborado:

- Focas amigo, diz aí ao pessoal que eu agora já tenho outra “armadura estrutural”, no passado fiz muita “argamassa” que tenciono agora compensar com um “cálculo estrutural” à maneira, que “arquitrave” as “incrustações” do antigamente, prometendo um autêntico “baldrame”, estás a topar?

O Focas nem teve tempo de responder, pois o (in)desejado continuou:

- Não te preocupes, convido-te desde já para um almoço sem limites aí no restaurante onde estás a jantar, e tudo por minha conta, e explico-te detalhadamente o que disse em cima.

O Pontas, pelo “sim” pelo “não”, encerrou de imediato o estabelecimento e pôs trancas nas janelas.

 

15
Nov18

3ª Temporada - Manifestação Cultural


Comandante Guélas

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Na marginal havia troca de carros em andamento para mudar de condutor entre as Dyanes do Luís Raul e do Mac Macléu Ferreira, esta mais conhecida como Deusa. O que saía metia o pé no volante e o que entrava metia o pé no acelerador. Portugal tinha nesta altura como deuses do Coliseu o Santa Camarão, o “Homem Montanha”, que calçava 49 e amava perdidamente a Ilda Fernandes, a Rainha dos Mercados, senhora das maiores mamas do Cais do Sodré; havia também o Tarzan Taborda, Albano Taborda Curto Esteves, o Manuel Grilo, “o homem que só apanhava”, o Domingos Barrigana, e neste fim de semana o combate envolvia o Conde Maximiliano, o Índio Blas Veja, o Amet-Chong, o Nino Mercuri, o Máscara Negra e o Jeff Awweert. Por isso o Comandante Guélas, para fazer frente à Lisboa Vermelha, lançou na Vila-Estado de Paço de Arcos o lendário Conan Vargas, “O Homem que dá 7 de seguida sem ver a luz do dia”! Nunca mais a região foi a mesma! A peregrinação não era a Meca, porque a figura mais parecida com Maomé era o Milhas, e dele todos fugiam como o Diabo da Cruz desde que ganhara a lotaria e que qualquer conversa mais demorada significava que estavam a querer comer por conta da cautela comprada à dona Blandina, irmã do Frederico dos Jornais, mas a um lugar também ele mítico, e mais rentável, a Feira da Ladra. Esta era a “Geração em Branco”, como dizia o capitão Pontas nas sessões de esclarecimento no Cine-Teatro de Paço de Arcos, que presenteava os espetadores com soberbos filmes do Bruce Lee e efeitos 3D, na forma do Todo Boneco, que só atuava quando havia cenas de marmelada, atirando então, não o grito do Ipiranga, mas sim o “espera aí que já cospes”, e não a “Geração Vermelha Sem Rumo”, que era obrigada a reeducar-se  no Chalé da Merda, e a sua exposição permanente de ferro-velho, paga a peso de ouro, propriedade de um sapateiro viúvo com sotaque da madeira e aspeto de menino queque de Leião, onde ficava a quinta do pai do Zé dos Porquinhos. E quando se atingiu o número mínimo de tarecos que justificava a viagem e garantia mais uns dias de bejecas, marcou-se no calendário o dia D.

O bólide já estava repleto de quinquilharia quando o senhor Américo colocou os adolescentes guélianos  na rua, como era habitual, à meia-noite, deixando estes anjinhos à mercê das influências noturnas, que os transformavam sempre em demónios. Mas tiveram de esperar pelas cinco da manhã, altura em que o “Dois Cavalos” do Pláni fez questão de rumar ao Campo de Santa Clara. O Pontas viu ao longe o seu amigo Zé do Fotógrafo sentado num dos bancos do jardim, olhando para o chão, para o espaço entre os seus pés. Ficou a saber que tudo aquilo se devia a ter sido abandonado, novamente, pela sua Rosa do Ártico, e de novo achincalhado pelo Serapito e o Tonzinho, que desta vez tinham decorado a montra da Jomarte com uma foto sua embelezada com uma armação do tamanho das renas do Pai Natal.

- Vou mas é viver para Cascais, já não aguento mais este peso permanente na cabeça, - disse o irmão do Bigornas quando viu que o amigo se sentara ao seu lado, e lhe pusera um braço pelos ombros.

Criou-se um silêncio insuportável, o Zé do Fotógrafo sussurrava abusos e traumas por sarar. A um dado momento o amigo Pontas, um adolescente elegante e cordial, guardador de muitos segredos e escravo dos bons sentimentos, ofereceu-lhe as palavras adequadas, como era seu costume:

- Não desesperes, na praça há mais!

Quando chegaram a Santa Clara os compradores eram tantos que se atiraram ávidos aos tenrinhos, mas não esperavam pela reação do condutor que continuou a marcha. A turpe não desistiu e foi no encalce do “Dois Cavalos”, de nome Dumbo, uma homenagem às orelhas do proprietário. Por pouco não foram engolidos devido à subida acentuada e ao peso excessivo de quinquilharia.

- Não venda que eu roubo…perdão, eu compro, - gritavam os fregueses do Outlet mais famoso de Lisboa.

Graças a Deus que a seguir a uma subida havia sempre uma descida, e foi isso que o Pláni aproveitou.

- Temos de dar duas voltas para cansar o pessoal, este é o segredo do negócio de Santa Clara, - explicou o ex-menino da Luz.

Mas a turpe já estava habituada a estas andanças, e mal o carro parou foram invadidos por um enxame de velhos compradores batidos nestas andanças, tendo um deles proposto a compra imediata do carro. Indignação! E como é que estes meninos de boas famílias de Paço de Arcos regressariam a casa? De combóio, no meio do povo malcheiroso?

- Nem pensar, - respondeu o maior expert de Paço de Arcos, o Proveta, o primeiro a ter prejuízo, pois no meio da confusão desaparecera a sua máquina de barbear que cortava um pelo de cada vez e metade da cara só numa passagem, tendo ficado com a caixa como recordação.

O grupo interveio, e empurrou a molhada, aproveitando a confusão para fazer uma troca de prendas. Quando o sol acordou o produto do Proveta estava na banca do Coxo da Brandoa, o cinzeiro de latão do Anão do Bairro Alto na loja do Pláni e o saca-rolhas do Meia-Lua da Porcalhota era vendido como peça rara pelo Peidão.

Foi neste dia que a aptidão do Proveta para os seguros se revelou, quando conseguiu vender o biquíni da prima americana a uma velha com umas mamas do tamanho das abóboras da Dona Rosa, mãe do João da Quinta, que um dia teimou com o Pontas que tinha mais lógica pôr uma moeda de 10 escudos nos carrinhos de choque da feira de Paço de Arcos, do que comprar fichas a 5 escudos.

- Caiem-lhe que nem ginjas – disse, com os olhos fixos e elevados, colados no bigode da mulher de olhos pequenos e afundados.

- Acha? – Perguntou a cliente ao ver que nem os pipos conseguia tapar.

O vendedor passou a mão sobre as sobrancelhas, esfregou a testa e respondeu com sapiência:

- Não importa o tamanho do seu decote, desde que olhem para o biquíni.

Estas palavras fizeram-na perder as memórias das palavras e impressionaram-lhe os sentidos, imaginando-se deslumbrante no vasto areal da Cruz Quebrada, e tudo isto devido às circunvoluções cerebrais que batiam furiosamente no crânio, que se deformava com o impacto. Após esta venda lendária o Proveta passou de imediato para um produto arrasador: um aspirador!

- Trabalha? – Perguntou o primeiro e único cliente.

- Um mimo, - respondeu de imediato o precursor da Remax.

- Quero ver, - exigiu o comprador.

- Acompanhe-me.

Dirigiram-se ao café mais próximo e o vendedor encostou a ficha à primeira tomada que viu. O som que saiu da máquina causou um apagão no Panteão Nacional, que acordou o Camões,  e foi por isso que o Proveta puxou de imediato o fio, não fosse tornar-se vítima do seu próprio produto. Vendido!

Não muito longe dali o Pierre Pomme-de-Terre, amigo do seu amigo, tentava vender a Sachs do Bajoulo, que se tinha ausentado para ir compensar a ausência do pequeno almoço com uma soberba Imperial, entregando ao Mocho a parte promocional e aos amigos Ginja, Drenos, Orelhas e Fice o papel de figurantes:

- Amigos, senhores, esta motorizada tem incluído um Kit Sexual, que faz com que acima dos 100 Km / hora o condutor entre em transmissão direta com o cinema Olímpia.

A venda quase foi consumada, o regresso do dono estragou tudo, mas antes tivesse sido, pois nesse verão o Bajoulo deu boleia ao Ginja no Algarve, e à chegada à praia da Oura derrapou na areia, obrigando o pendura a entrar de rastos no parque de estacionamento, deixando parte do calção de banho, a totalidade das sandálias e uma porção do bronzeado, no asfalto.

15
Out18

3ª Temporada - O Submarino


Comandante Guélas

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A pouco e pouco, à medida que a revolução do Comandante Guélas avançava, que pôs o PREC à beira de um ataque de nervos, os meninos iam trocando os “peidociclos” por iates à vela e não havia regata no Tejo que não contasse com estas tripulações de luxo. Mas antes disto tinham de ir à Roulote do Mocho pedir a equivalência para a carta de “Patrão de Paço de Arcos”, que permitia passar para os comandos de tudo o que mexesse na vila, tanto em terra como no mar, desde a Sesaltina, passando pela “Zundapp” do João da Quinta e parando no “cabinado” do Pierre-Pomme-de-Terre ou no potente quatro cavalos do Horta. E como a maioria dos paçoarcoenses optava pelas “Letras” no 6º ano do Curso Geral dos Liceus, o exame final de matemática foi canja. O Vaca Prenhe apanhou com cálculos logarítmicos e enfiou com o barco virtual, feito com um guardanapo do Tino e na Trafaria, em vez de Belém como pretendia o examinador Taka Takata. Esta é a história duma dessas tripulações, a do “Carapau Cocciolo”, um soberbo iate de cor cinzenta, mais conhecido como o “Submarino”, igual à cor das cuecas que o Bajoulo levava para o Marginalíssimo, e onde guardava o fiambre que servia para fazer tostas mistas para os amigos no período pós-laboral. A tripulação era constituída por quatro indomáveis Paço-arcoenses:

1 atrevido Capitão de Abril com passagem glamorosa por Cabinda, segundo documento oficial;

1 futuro Empresário das Lulas, com várias dioptrias, um loirinho com uma mota de competição irresistível; no meio feminino;

1 Cabeçudo, futuro concorrente do Carinha da Avó;

 e o Jovem do Leme.

A permanente ausência do “Carapau Cocciolo”, que dava charme à Praia Velha, começou a ser notícia. Souberam toda a verdade quando alguém deu de caras, na secção de carnes do João Gordo, e contou à "Voz de Paço de Arcos" a estrondosa vitória que tinham arrecadado na mítica regata “Patrão Lopes”, com partida na foz do Jamor e chegada à foz do esgoto do Chalé da Merda. A partir desse dia o Jovem do Leme pôs a tripulação em estágio, e obrigou-os a treinar diariamente. Daí o espaço vazio diário na marina da Praia Velha!

- O Capitão com vai para um lugar de destaque, - ordenou o capitão do “Carapau Cocciolo”.

De imediato o Cabeçudo, de nome próprio Pontas, agarrou no militar e amarrou-o à proa, não fosse ele cair devido a um golpe de vento traiçoeiro e atirar pela borda fora a vantagem de levarem um adulto com desconto de guerra, que lhes permitia partirem vinte minutos antes. Mas para isso tiveram de colocar na popa um autocolante azul com o desenho de uma cadeira-de-rodas.

- Pede-lhe para contar uma estória de Cabinda que ele adormece e não se mexerá muito, - avisou o experiente lobo do asfalto de nome Mac Macléu Ferreira, um futuro empresário com um contacto diário com lulas e especialista em mapas, onde a evolução da prova era seguida, sinalizada e decidida. Nestas alturas este cartógrafo deixava sempre as lunetas em casa e guiava-se pelo instinto, sinal do uso de tecnologias sedutoras.

- Das mesas às camas, das loiças às roupas, tudo foi passado a pente fino pelo exigente comandante do “Carapau Cocciolo”, também conhecido por “submarino”, com um rigor e uma autenticidade que fazia com que estes heróis da Real Marinha Guéliana regressarem sempre envoltos num manto de nevoeiro.

Cada embarcação era obrigada a ostentar um pavilhão com a figura imponente da ex-miss praia Quitéria Barbuda, a ninfa do Jamor, e até nisto o “submarino” estava a milhas de distância, pois o seu proprietário, um homem sempre ligado a causas sociais, deixara o Capitão hastear as soberbas cuecas do Bajoulo. Na linha de partida alinharam-se os melhores veleiros da Costa do Estoril, com destaque para os dois representantes paço-arcoenses, o “Carapau Cocciolo” e o “Todos-os-Chatos”, este com lugar cativo no terceiro lugar em todas as provas com 3 concorrentes. Um minuto antes do flato do Luís do Talho, igual àqueles que dava sempre de cada vez que ia em visita de cortesia a  Espanha, tiro este que daria início à regata do “Patrão Lopes”, o “Submarino” foi autorizado a avançar 75 metros em virtude de ter um tripulante com duas comissões na guerra. Havia uma vertigem libidinosa tão intensa nesta tripulação, centrada numa das questões mais em aberto na história desportiva paço-arcoense, a vitória. A tripulação do “Carapau Cocciolo”, também conhecido como “Submarino”, representava, para o Querido Líder, a humildade cívica, moral e intelectual da vila de Paço de Arcos, uma espécie de vanguarda estética cujos membros nunca couberam em categorias. Eles eram, não os últimos moicanos, mas sim os primeiros membros do Império Espiritual Paçoarcoense.

 

 

 

 

 

06
Out18

3ª Temporada - Open Batata


Comandante Guélas

 

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17

 

O nome era sinónimo de honestidade, dedicação, confiança, mas acima de tudo um modelo a seguir pela juventude paçoarcoense. Porque o estilo de vida era superior aos rendimentos, o adolescente Pierre Pomme-de-Terre arranjava sempre maneira de descobrir novas minas de ouro, que não passavam só pelas libras lá de casa ou pela roulote do Mocho.  Um dia resolveu organizar um Torneio de Futebol na Escola Náutica, tendo convencido o anãozinho de suspensórios, chefe máximo do Futebol Clube de Paço de Arcos (com sede junto ao “Bar Cu à Vela”) equipado com dois matraquilhos carunchosos com alguns jogadores decapitados, a emprestar o seu prestigiado nome ao “Open Batata”. A reunião que serviu para desviar as inscrições obrigatórias, teve lugar no gabinete do presidente, que também servia de urinol para os sócios, mas que foi interdito enquanto durasse a combinação da golpada. O Pierre Pomme-de-Terre estava com pressa, as férias no Algarve aproximavam-se e ele queria ir para o hotel “O Golfinho” em Lagos, do qual iria sair sem pagar, e com a conta em nome de outro, como era tradição. Quando as inscrições abriram, as vagas esgotaram-se rapidamente. Nesse dia a reunião dos responsáveis do “Open Batata” foi no “Gambrinus”, pois a direção considerava ser inapropriado para o bom-nome do clube interditar de novo o urinol aos sócios. No dia de abertura o adjunto Pierre Pomme-de-Terre tinha uma surpresa para os participantes: campo havia, bola também, mas tinham de levar as balizas, que ele não se importava de alugar, e estavam guardadas atrás do Cine-Teatro, para que o guarda do ringue da Avenida não as encontrasse. Cada equipa levava a sua baliza e tinha de entregá-la no final do jogo. Para segurança do clube, tudo sempre pelo clube, eram obrigados a deixar uma caução no valor equivalente a duas balizas novas, que ficava à guarda do tesoureiro, o adjunto do anãozinho de suspensórios. O primeiro encontro foi entre duas das equipas candidatas ao troféu, que ninguém sabia qual era, uma vez que o responsável, o senhor Pierre Pomme-de-Terre, se encontrava em viagem de “trabalho” pelo Algarve. De um lado do campo estavam os “Benfiquistas”, cujo nome já dava indicações acerca do seu objetivo desportivo, e do outro os “Burrinhos da Pradaria”, estranho nome para uma equipa candidata à vitória final, que tinha como avançado um adolescente loirinho com incalculáveis dioptrias, de nome Mac Macléu Ferreira, um médio que jogava de chinelos e só dava rendimento com uma “sagres” fresquinha nas mãos, chamado Bajoulo, um defesa que parecia ser o mais ajuizado mas era detentor de um nome pouco ecológico, Peidão, um guarda-redes que defendia melhor de costas, o doutor Charlot e por fim um jogador que vinha decidido a marcar nas duas balizas e que o nome dizia tudo, Graise. E o treinador era um nome conhecido no meio da adolescência masculina da vila: Capitão Porão! Quando o árbitro apitou para dar início à partida não podia imaginar que no “Open Batata” só seriam dados três toques, o do Mac que fez um passe tão tenso para o Peidão que este não conseguiu desviar-se a tempo, tendo apanhado com a bola em cheio na testa (segundo se pensa o abanão foi tão forte que a região do córtex pré-frontal saiu do estado de dormência e começou a funcionar normalmente segundo foi comprovado pelos bons resultados a Matemática) e por último o Bajoulo que deu um biqueiro tão grande que a bola ultrapassou não só os limites do campo, mas também a vedação da Escola Náutica, só parando quando despedaçou o pára-brisas de um automobilista que se dirigia em direção a Cascais. Soube-se mais tarde que o esférico levava cravadas algumas unhas do rematador luso-alemão. A debandada foi geral, o senhor presidente do Clube de Futebol de Paço de Arcos foi o primeiro a chegar à sede, apesar de ser coxo e ter alguma dificuldade em subir aos passeios. Esse foi o seu último dia de trabalho, pois apresentou a demissão em frente a um espelho, que foi aceite de imediato e usada como papel higiénico. Quanto ao adjunto, e grande responsável pela magnífica organização, estava naquele momento a gozar umas merecidas férias num hotel de cinco estrelas em Lagos, mas já a convencer o gerente para a realização do “Open Golfinho”.

 

 

01
Out18

3ª Temporada - As Latinhas do Peditório


Comandante Guélas

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16

O tempo era de solidariedade, mas para o Pierre Pomme-de-Terre e o Bajoulo não passava tudo de uma questão de oportunidade para o negócio e não havia tempo a perder, pois as latinhas do peditório já andavam a circular nas ruas. A responsável pela área de Paço de Arcos tinha sido, desta vez, a mãe do Peidão, que andava toda atarefada a controlar a saída das caixas que lhe tinham calhado na rifa. Todas as forças vivas da zona estavam empenhadas na coleta, desde as tias, passando pelos escuteiros e acabando nos alcoólicos …perdão…acólitos acima referidos. Quando a mamã do Peidão deu a novidade em casa e pediu a ajuda solidária da família., o “paçoarquiano” ia tendo um “treco”, e veio-lhe logo à memória as caritas catitas do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre. Entrou de imediato em prevenção, tentando evitar que os artistas tivessem acesso às latinhas. Já sabia dos esquemas dos anos anteriores, mas agora o duo tocava-lhe à porta e teria de proteger a progenitora. Mas como já andavam nesta escola da vida há muito tempo, anteciparam-se à jogada e aproveitaram a boleia de um inocente.

- Vou à casa do Peidão buscar uma latinha. Vocês também deviam participar nesta causa que é nobre, – disse o inocente Bigornas, trepando para cima do “peidociclo” do irmão, um ex-militar das forças especiais tal como o Conan, mas do ramo dos Comandos, e também com a especialidade de ajudante de cozinha de campo, pois tinha a sua “Sumbeam”, um motão do tempo dos Descobrimentos, toda desmontada à entrada da “Jomarte”, a loja de fotografias mais famosa da Costa do Estoril, que oferecia, de borla, a qualquer cliente que entrasse, uma espera no mínimo de uma hora, até que o proprietário acabasse de ler o livro de quadradinhos do dia.

- Tiraste-me as palavras da boca, – interrompeu o raposão de nome Pierre Pomme-de-Terre, dando um toque matreiro ao acompanhante. – Eu estava agora mesmo a desafiar o Bajoulo para o gamanço…para uma boa acção, e não há nada melhor para a nossa imagem do que participarmos no peditório. Mas como é que temos acesso ao material?

- Este ano a mãe do Peidão é a responsável pela zona e vou neste momento a casa dele buscar a latinha.

- Então podias fazer-nos um favor, e trazer uma caixinha para cada um de nós. Eu tenho um pouco receio de lá ir, pois da última vez que o fiz o avô estava solto e apareceu-me por detrás de uma árvore com um pistolão do Farwest, julgando que eu era um comunista a querer ocupar a casa. E ainda por cima hoje estou vestido com uma t-shirt vermelha.

- Não se preocupem, eu vou buscar várias latinhas para distribuir pela gente caridosa.

Quando se apanharam com as “redondinhas” ao pescoço, o duo nunca mais parou, percorreu a Costa do Estoril duma ponta a outra, chegando a encontrar mais dois colegas de curso em Cascais. Mas o que é bom tem sempre um fim, e o peditório tinha hora marcada para acabar e um prazo para a recolha do material. O Peidão estava agora escalado para o efeito e resolveu começar pelas tias da Figueirinha.

- Estas latas estão vazias porque pus o dinheiro todo nesta, – explicou a velha a cheirar a perfume até às unhas dos pés, e com um penteado que parecia o Moisés dos “Dez Mandamentos” após ter descido da montanha. – Os selos que tapavam as latas caíram, – e fechou a porta.

Seguiram-se os “meninos vestidos de parvos, comandados por um parvo vestido de menino”. Das trintas latas, nenhum selo! E assim continuou a viagem, muito poucas latinhas com selo, a maioria estranhamente sem ele. Uns dias depois a mamã do Peidão teve um ataque de caspa monumental, pois faltavam duas “redodondinhas” do senhor Bigornas. Contactado de imediato, explicou que estavam na posse do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre, que se tinham comprometido a entregá-las no prazo. Estariam estas duas alminhas caridosas a fazer horas extraordinárias? O primeiro foi apanhado desprevenido, pediu para esperar um pouco, deslocou-se à garagem, ouviu-se um som dum martelo a malhar num torno, e eis que o anjinho do Barroco regressou com a caixinha amarela do peditório. Mal ela trocou de mãos o selo, que parecia mais de carta do que o original de chumbo, caiu aos pés do Peidão, ficando os dois a olhar para ele. A latinha do Pierre Pomme-de-Terre estava em casa a dormir e foi entregue intacta. Intacta?! O selo só caiu redondo no chão quando chegou à casa do Peidão, ou melhor, na sala dos pais, em frente da mãe que já estava em pleno ataque de caspa, incrédula com a atitude daqueles meninos de coro. Foi aberto um inquérito de averiguações, os dois paço-arcoenses confessaram os desvios, devolveram algumas notinhas de vinte escudos e os factos foram comunicados por escrito e assinados por todos os intervenientes, sendo os relatórios enviados à instituição que prometeu mão de ferro para os prevaricadores. Mas não nos podemos esquecer que estávamos num país de brandos costumes que, com ou sem revolução, deixou ficar tudo na mesma. No ano seguinte o Bajoulo e o Pierre Pomme-de-Terre lá foram vistos outra vez na fila da frente da solidariedade, com umas latinhas amarelas ao pescoço a recolherem donativos para uma causa que era muito nobre.

24
Set18

3ª Temporada - Estremoz cidade serena


Comandante Guélas

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15

 

- Ide passar o ano bem longe da vila, e levai a palavra do Comandante Guélas, o Querido Líder!

E assim fizeram, Conan Vargas organizou uma Cruzada em direção ao Alentejo vermelho e profundo, a Ala dos Namorados foi ultrapassar a passagem do ano a Estremoz.

- Chaparros queques?! – Perguntou admirado o Charlot.

- Tão queques que só podemos entrar de fato e gravata, e a festa é no casino lá da terra, um misto de mesas de matrecos com sofás de veludo, - explicou-lhe o Proveta, ajeitando a gravata do pai que lhe chegava aos pés!

O organizador namorava com uma menina cuja família tinha morada na respetiva terra e achara por bem convidar todos aqueles adolescentes das famílias mais brazonadas de Paço de Arcos, para assim subir na hierarquia social da “chaparrolândia”. Iriam todos de comboio, já equipados para a festa. A meio da viagem e já um pouco chateados por não fazerem nada, resolveram animar a composição, dando início a um jogo radical que consistia em mudar de carruagem, mas pelo lado de fora. Quando o maquinista se apercebeu do jogo, já havia vinte adolescentes, de fato e gravata, do lado de fora, facto inédito nos anais da CP alentejana. A brincadeira só acabou quando todos cumpriram o percurso definido: partida na última carruagem e meta na primeira. As autoridades da composição bem tentaram mete-los para dentro, recorrendo a gestos e a buzinadelas, mas a prova só acabou quando o Velhinho terminou o circuito. Meia-hora de descanso para os “bravos de Paço de Arcos” e nova animação: slows unisexo. O Focas e o Tio Kiki levantaram-se e, ao som de uma música romântica, abraçaram-se e dançaram com sensualidade para a carruagem que ia atestada de velhas tipo morcegos. Para abrilhantar o número, o Pilas foi à casa de banho e encheu de água uma camisa-de-Vénus, que pôs a circular pelos passageiros. A pouco e pouco a carruagem foi-se esvasiando de autóctenes, acabando por ficar exclusiva dos “meninos de boas famílias” da Costa do Estoril. Entretanto algo parecia ter acontecido, um fenómeno do Entroncamento: o Peidão crescera durante a viagem, as mangas do blaiser castanho que lhe tinham emprestado acabavam nos cotovelos.

- Era o que eu usava quando a catequese ainda me aceitava, - explicou o proprietário, escondendo o facto de ter sido expulso da instituição aos 10 anos por ter desviado dinheiro da caixa das esmolas para ir comprar um maço de GS Filtro.

A chegada a Estremoz foi inesquecível para os habitantes. A rua principal estava recheada de laranjeiras carregadas de frutos reluzentes. Segundo reza a lenda, quem começou a guerra foi o Pilas, que acertou em cheio com uma laranja na cabeça do Conan que ripostou, mas falhou o alvo, esborrachando o esférico no fatinho catita do Velhinho, que também não gostou e respondeu à letra. Bastou meia-hora para a estrada principal estar pintada de cor de laranja. Mas como tinham de chegar a horas ao jantar na casa da família da namorada chaparra do Conan, sacudiram os caroços dos fatos e apresentaram-se na morada indicada. Foram recebidos como heróis e deram de caras com um repasto digno de príncipes. O Conan foi o primeiro a beijar a dona da casa e pediu para lavar as mãos. Só que não disse toda a verdade. Tinha saído de casa com a tripa cheia e durante a viagem a trepidação do comboio inibira o conteúdo de sair. Mas a “Guerra das Laranjas” acalmara-o e agora saíra tudo de uma vez. A fila para o WC aumentou, mas o Conan recusava-se a sair, puxando compulsivamente o autoclismo. Quando se viu obrigado a abandonar as instalações sanitárias, pois caso o não fizesse os colegas de escola ameaçavam deitar a porta abaixo, trouxe atrás de si um cheiro nauseabundo que não ficava nada atrás do Litopol. Devido a este “grande percalço” o jantar acabou de imediato e o Gang resolveu ir fazer uma visita de cortesia à pensão onde estavam alojados os dois únicos paço-arcoenses com posses: o Bakaus, teoricamente o maior cobridor do país, um conquistador cruel que não escolhia e atacava as suas presas sem estados de alma, e o sempre abonado com libras, o Pierre Pomme-de-Terre. Só dois tocaram à porta enquanto que os restantes permaneceram acoitados numa esquina. Uma velha estilo bruxa abriu a porta:

- Boa-tarde minha senhora, viemos dar um beijinho aos nossos manos, que estão aqui hospedados, - disse o Pilas com um sorriso rasgado.

- São meninos de Lisboa?

- Sim, -respondeu o Conan, afastando com as mãos os vestígios gasosos da “obra” que tinha produzido uns quarteirões acima.

- Entrem, a casa é vossa.

Entraram todos.

- Chiça, e eu a pensar que as famílias numerosas eram aquelas que não tinham televisão, – resmungou a mulher morcego.

A contabilidade da casa era rigorosa, havia um contador à saída de cada tomada, mas o Bakaus já tinha feito uma ligação directa. O aquecedor estava ao máximo e o aparelho de controlo a dormir. Em cima de uma das mesas estava o garrafão de colónia “Lavanda” do gordo caixa-de-óculos com nome afrancesado. Quando o Gang se despediu dos “manos” o perfume transbordava dos sapatos italianos do Pierre Pomme-de-Terre. A festa decorreu sem incidentes de maior e alguns dos adolescentes acabaram a dormitar nos bancos do jardim, nunca tendo conseguido adormecer, porque a polícia colara-se no espaço público e intervinha de cada vez que se deitavam.

 

 

 

 

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