Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

República Independente do Alto de Paço de Arcos

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

Toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis paçoarcoenses conseguiu a sua independência 19 meses depois do 25 de abril de 1974!

República Independente do Alto de Paço de Arcos

08
Ago17

1ª Temporada - A Mesa Triangular (9)


Comandante Guélas

 

RTP.png

 

 

Episódio 9

 

A Mesa Triangular

 

A câmara de filmar que o Escoto tinha nacionalizado ao pai, já só apresentava um “P” de “RTP”.
- “P” de proletariado, tudo agora é do povo, – explicava aos presentes.
O alcance da transmissão chegava aos dois símbolos de poder da Vila de Paço de Arcos: o Depósito de Água no Alto da Loba, no Norte, e ao Coreto da Avenida, no Sul. Foram convidadas as personagens mais relevantes de todo o concelho, incluindo o Zé de Porto Salvo, aristocrata portosalvense culto, elegante e viajado, com ideais da pureza da raça, acompanhado pelo seu gangue de escuteiros, que tinham violado o Curtis na noite anterior, a pedido deste. No Centro Comercial “Áries”, único em toda a Costa do Estoril, no espaço junto ao café-restaurante do Senhor Xantola, o Capitão inaugurara uma exposição cujo tema “Os Lugares de Fernindó” convidavam o visitante a deixar-se guiar por uma coleção de fotografias, cedida pelo senhor Frank Monka, vindo diretamente dos EUA para ensinar que a Lua era um planeta, que tinha participado na célebre “Guerra de Limões” entre Algés e a Trafaria. As imagens construiam cronologicamente todos os sítios por onde o poeta tinha defecado, as barracas onde vivera, os sacos de cimento que gamara em parceria com o guarda-nocturno. O poeta chegara a Paço de Arcos nos anos 20, após uma bebedeira monumental que apanhara no Cacém, e lhe derretera os neurónios de orientação, deixando-lhe uma “branca” em relação ao caminho de regresso. E a cultura da vila fizera o resto! Para os adolescentes pouco inclinados para estas manifestações intelectuais, o Capitão tinha posto à disposição o seu apartamento, onde prometia filmes de ação sobre Cabinda, pipocas e uma cama para os mais atrevidos.
Às 21 horas do dia 25 de Setembro de 1975, o senhor de nome Escoto carregou no botão da máquina e deu início ao primeiro encontro televisivo entre o Norte e o Sul. Meia-hora antes tinha havido um pequeno incidente entre dois dos presentes, um apoiante do Comité Central, o Titó, e outro um devoto do Guélanismo, o Todo Boneco.
- Agarrem-me, senão eu mato-o, – ameaçou o vendedor de jornais do “Avante”.
- Espera aí que já cospes, – respondeu-lhe o conquistador de bairro.
À medida que os convidados iam passando pelo tapete vermelho, vendido pelo Pieerre Pomme-de-Terre a preço de saldo, e gamado na sede dos escuteiros, as carpideiras da praça, alugadas pelo João Gordo, estavam num frenesi. A moderadora chamava-se Sapo, nome pomposo com figura de sopeira. E era menina!
- Ação, - gritou o Escoto, fazendo sinal com a mão.
- Boa-noite senhores telespectadores, – disse a xungosa com uma voz de bagaço, mostrando à vila a falta de dentes. – Estamos aqui a fazer jornalismo de excelência, os ventos da liberdade trouxeram o futuro a Paço de Arcos, hoje vamos falar de cultura, do nosso conterrâneo, do nosso poeta Fernindó. Todos têm os seus poetas, nós temos o Fernindó.
- O Fernindó é do povo, – gritou o Titó aproximando-se do microfone da Maria.
- Isso são acusações graves e o verbo é rasteiro, – acusou o Ánhuca, apontando para o adversário e conseguindo palmas de metade da assistência.
- Cavalgadura!
- Quem, eu? – Perguntou indignada a locutora.
- Não foi para a senhora, mas para aquele fascista do Norte.
- Nem a memória do Fernindó respeitam. A comunistada está a estilhaçar os cristais e as porcelanas da vila, que ainda sobram. O poeta é nosso, só nosso, – disse o Ánhuca, batendo três vezes no peito com o punho fechado.
- O 25 de Abril deu-lhe a liberdade de delirar em público, – atirou o Titó, enchendo a cara do seu camarada Balacó de perdigotos.
- O nosso glorioso Comandante Guélas há-de chegar até aqui, nem que seja à bomba.
A palavra “bomba” enervava o Sul. O ataque no Cine-Teatro, a dez metros daquele local, tinha-os traumatizado “olfativamente” para sempre. Um simples odor a maresia era o suficiente para os obrigar a fugir.
O debate foi interrompido bruscamente pelo Marmota, o irmão do Pinguim e do Pingalim, que já não iria durar muito, mas não sabia.
- Os fascistas conspurcaram o muro da praia que o Comité Central reservou para as velhotas da nossa terra se bronzearem. Escreveram “Cantinho das Putas Velhas”.
- Abaixo o Fascismo, viva a Reforma Agrária, – gritou exaltado o Titó, pondo-se em pé na mesa.
Mal sabia ele que a câmara de filmar tinha dado o berro e que o Escoto fingia que estava a transmitir. Não muito longe dali, o Craveiro Lopes já tinha aviado dois secos e um molhado na Quitéria Barbuda, acusando-a de estragar a televisão e de o impossibilitar de ver o debate. O barulho ensurdecedor das hordas fanatizadas dos fascistas do Norte entoando o seu hino “É Motorista”, letra e música do grande Charlot, envolveu a sala e foi o sinal para mais uma carga de Litopone. O produto já borbulhava no saco, quando os servos do Comandante Guélas abandonaram o local e foram fazer uma visita de cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda., Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal) ou 17/17ª e 18 (números a tinta). Cinco minutos depois já todos corriam em direção ao Norte, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve” e pastilhas “Gorila”, e tudo o mais que veio à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas!
O assalto do Norte à Mercearia do Povo, de onde tinham gamado todas as pastilhas “Gorila”, tinha deixado o Sul de rastos e já havia registo de dissidências. A zona do Jota Pimenta, junto à Escola Náutica, tinha-se organizado na “Associação Popular Maria Armanda”, que adoptara como hino “Eu vi um sapo”, e proclamava agora as virtudes revolucionárias da sua mártir com cara de sopeira, por todos os cantinhos do bairro.
- Temos de conter a fúria popular, – avisou o Titó aos camaradas reunidos de emergência na cave do Coreto. – Eles andam a mostrar ao povo um adivinho de nome Zé Preto, que faz prognósticos sobre o futuro, que é muito negro para o nosso lado.
- Esse bruxo é um impostor do Norte, camarada, – interrompeu o Balacó. – Anda para aí a dizer que um tal de Aníbal, que anda a cavar batatas no Algarve, irá ser Presidente da República.
Mas o caso era grave, muito grave, porque senão a Dona Maria das Bicicletas não tinha aparecido de rompante no Coreto, ficando encravada na porta. Bastou o busto para intimidar os camaradas.
- Sabem onde fica a Sibéria? É para lá que vão senão meterem o povo em ordem.
O talento tribunício do Ánhuca ecoou por todo o Norte, mostrando o seu talento e agilidade, e a energia invencível do mito.
- O povo do Sul “está desordenado e é fraldiqueiro”. O do Norte ruma à vitória. O nosso lema é “ética de trabalho, secura de verbo e abundância de lágrimas”. “A vida é rápida, desavinda e selvagem”, gritava, ao mesmo tempo que ia soletrando os números 39, 69 e 74 das Pastilhas “Gorila”, coleção “Frases Célebres”.
Era uma reação inconsciente às mudanças que se verificavam na sociedade no que se referia aos costumes sexuais, com a emancipação das ovelhas. O Titó gritava que a Lanzuda era do povo e prometia vir um dia tirá-la das mãos dos fascistas. Estes discursos inflamados com promessas de sociedades opostas denunciavam a cisão profunda que a Revolução dos Cravos tinha feito neste cantinho da Costa do Estoril. Foi tudo isto que levou o Capitão Porão a abrir um apartamento de psicanálise para adolescentes, tentando com isto minorar os estragos causados por um acontecimento imprevisto. Ele tentava manter os pequenos imberbes longe deste conflito entre a superstição e a crendice do Norte, onde os valores e os seus instrumentos de poder não podiam ser postos em causa, e a “cientologia” e a fé do Sul, que proibia proibir.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub